Quando o assunto é rock, existem subsídios para dizer que o século XXI até agora é os anos 80. Nos últimos anos, diversas bandas novatas vêm buscando inspiração no som da década retrasada: o Hot Hot Heat se apropria da fase alegrinha do Cure, Interpol reinventa Joy Division (que se projetou no final dos anos 70, mas é identificado com a década seguinte) e Echo & The Bunnymen, Rapture estraga Gang Of Four e PiL, e assim por diante.
Pois 2004 tem confirmado essa tendência com gosto. Após a badalação em torno dos discos de estréia de Franz Ferdinand e Killers, que emulam copiosamente bandas dos anos 80, e a volta de Morrissey, o recém-lançado álbum do Cure saúda a década em que Michael Jackson foi rei.
O enésimo disco da banda que surgiu cantando ''garotos não choram'', simplesmente intitulado ''The Cure'' (Universal Music), prova que Robert Smith não consegue se livrar do monstro que criou. É que a partir do final dos anos 90 e especialmente após o penúltimo disco inédito, o lamurioso ''Bloodflowers'' (2000), o veterano cantor inglês falou incessantemente em acabar com o grupo. No entanto, aqui está ele, assinando 11 canções novinhas em folha...
A edição brasileira do disco, que chegou no final de junho às lojas em lançamento simultâneo ao resto do mundo, é parecida com a americana: na sua primeira tiragem, traz como bônus um DVD com cenas da gravação do álbum. Quando foi anunciado no ano passado que Ross Robinson produziria o trabalho, a notícia foi recebida com natural estranheza e alguma galhofa pela imprensa - afinal, Robinson é o produtor padrão das terríveis bandas do new metal, como Limp Bizkit, Slipknot e Korn.
Mas, excetuando-se alguns berros mais selvagens que são arrancados da garganta de Smith, a influência é imperceptível. O rock do Cure segue as mesmas nuances pós-punk, com teclados anacrônicos, linhas de baixo pronunciadas e guitarras esparsas, mas desta vez com teor menos melancólico em comparação a ''Bloodflowers''. O disco anterior se insinua na faixa de abertura, ''Lost'', miserável como só Robert Smith sabe ser, mas o restante do álbum não segue a mesma faceta desesperadora.
As tradicionais lindas baladinhas se destacam, caso de ''Before Three'' e ''(I Don't Know What's Going) On''. O primeiro single, ''The End Of The World'', se equilibra entre a euforia e a tristeza. A banda mostra músculos roqueiros mais nítidos em ''Labyrinth'', de refrão insistente, na quase agressiva ''Never'' e na ensolarada ''Taking Off'', todas dignas da produção de Smith nos anos 80.
O que acaba diminuindo a média final de ''The Cure'' é uma sequência pouco inspirada de faixas lá pelo miolo, mas dá-se um desconto: são poucos os grupos veteranos no rock atual que ainda conseguem fazer um disco que é ótimo em três quartos de sua duração.

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