A singeleza começa pelo título: ''Iaiá''. O tratamento coloquial, extraído de ''Moro na Roça'', do legado musical de Clementina de Jesus, batiza o novo disco de Mônica Salmaso. Que andava sumida dos estúdios e retorna com um vigoroso álbum em que transita com desenvoltura por obras de compositores da velha e nova geração de São Paulo e Rio de Janeiro. Lidos ou relidos com sotaque particular, os autores se agregam no tempo da delicadeza estética e interpretativa de Mônica Salmaso.
''Iaiá'' não é um disco conceitual daqueles com começo, meio e fim. A possível conceituação estaria no estofo que reveste as canções de universos e tempos distintos. É por esse viés sonoro, com insinuações camerísticas, mas não sisudo, que se sobressai a hábil direção musical assinada pela própria Mônica Salmaso e seu fiel escudeiro, o músico Rodolfo Stroeter.
Se não, como apreender facilmente um produto em que se avizinham ''É doce morrer no mar'' (Dorival Caymmi) e ''Menina amanhã de manhã'' (bela e digerível canção de Tom Zé, das mais bonitas do CD) e soar tudo muito bom, tudo muito bem? Ou mesmo resgatar Sílvio Caldas (''Na aldeia'') e José Miguel Wisnik (''Assum branco'') sem conotar forçada compatibilidade? A resposta é simples: concepção musical bem delineada, nitidamente sincera. ''Tive medo que o disco virasse uma salada musical e o Rodolfo (Stroeter) ajudou a costurar essa diversidade de assuntos musicais'', explicou Mônica Salmaso em entrevista à Folha2
De fato, ''Iaiá'' evoca canções de épocas diferentes, de jeitos e gentes cerzindo seu tempo. Grande parte do repertório foi pinçada do projeto ''Ponto in Comum'', concebido por ela no Sesc- SP, entre 2002 e 2003, onde misturavam-se linguagens e estilos. Desses encontros, à memória afetiva de Mônica vieram canções como ''Na aldeia'' (Silvio Caldas-De Chocolat-Carusinho) onde instala-se o dueto com outra boa artista emergente, a carioca Teresa Cristina.
E assim, entre escavações profundas e rasas no solo fértil da música brasileira, ''Iaiá'' foi ganhando forma e força e participação de músicos como Paulo Bellinati, Benjamim Taubkin. Toninho Ferragutti, Maurício Carrilho, Nailor Proveta, entre outros craques. No centro das atenções, Mônica Salmaso e seu canto de incrível beleza que passa pela brejeirice de ''Cabrochinha'' (Maurício Carrilho-Paulo César Pinheiro), à dramaticidade de ''Por toda minha vida'' (Tom Jobim - Vinicius de Moraes) ou mesmo a devocional ''Estrela de Oxum'' (Rodolfo Stroeter- Joyce). Tem Mônica segura na releitura quase atonal de ''Sinhazinha'' (Chico Buarque), da trilha sonora do filme ''Para viver um grande amor'' (82) ou mesmo informal na crítica e bem-humorada ''Cidade Lagoa'' (Sebastião Fonseca-Cícero Nunes). Vozes, canções, timbragens, matizes, minúcias a serem descobertas e sorvidas vagorosamente.
Belo disco! Salve, iaiá, salve!!

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