O tempo é relativo quando se trata de juntar palavras, imprimir-lhes sentido e entregá-las à apreciação pública. Em 23 anos de carreira, a cantora e compositora Olivia Hime dedicou-se a esse ofício pulverizando suas produções em trabalhos próprios e alheios. Ou seja, por mais pertinente que seja como autora, a intérprete ganhou mais visibilidade em sua discografia constam, por exemplo, tributos memorávais a Dorival Caymmi, Chiquinha Gonzaga e ao poeta Manoel Bandeira.
Chegou a oportunidade do grande público apreciar não só o canto preciso de Olivia Hime, como também a letrista que burila palavras com destreza. Daí que ''Canção Transparente'' (lançamento da Biscoito Fino), nono disco da artista carioca, vem com contornos antológicos por unir qualidade sonora e apuro literário boa música, trocando em miúdos. Segundo Olívia, o disco foi idealizado para ter uma sonoridade mais asséptica, límpida. Menos pomposa na proposta orquestral, pois. ''Meu primeiro pensamento era fazer um disco com pouco instrumentação, muito delicado, mas muito variado'', explica Olivia.
Partindo desse mote, o passo seguinte foi escolher um repertório que se adequasse a tais condições sonoras. Foi daí que Olivia acatou a sugestão de amigos próximos que, não de hoje, a estimulavam a fazer um disco totalmente autoral. ''De fato, sou uma letrista muito lenta para escrever'' afirma ela. ''Mas eu me dedico cada vez mais porque gosto muito de escrever, apesar de sofrer muito'', complementa.
''Canção Transparente'' traz 14 faixas, entre inéditas, releituras e resgates, a grande maioria feita em parceria com o marido, o maestro Francis Hime, responsável pelo arranjo de 11 canções. Da safra nova, a mais bonita é a valsa ''Sinuosa'', feita em parceria com Maurício Carrilho embora ''Sol Forte'', em co-autoria com Sérgio Santos (que também aparece como convidado) também tenha tamanhos encantos.
As participações ficam por conta também do grupo Tira Poeira (e suas quebradas harmônicas em ''Disfarçando''), Quarteto Maogani (virtuosismo a toda prova em ''Mariposa''), o acordeonista Marcos Nimrichter (na faixa-título) e Lenine com quem Olívia forma boa dupla, embora propicie comparações com a brejeirice que Elba Ramalho imprimiu na gravação original.
A letrista apurada e delicada aparece em muitos momentos. Um deles é em ''Cinzas'' (Todo esse inverno me insultando/ A saudade esfriando/ E eu amando, eu amando até o fim/ Escuta um coração que quase escapa/ Um vilão de capa e espada/ Agonizando em mim''), com direito a citação de ''Adios Nonino'' (Astor Piazzola). Navegando em seu universo literário, Olivia muitas vezes se desloca do rigor técnico e dá vazão à intérprete elegante, íntegra e, sobretudo, superlativa. ''Canção Transparente'' é um desses casos raros em que a sofisticação necessariamente não resvala na pendantismo estético. É preciso ouvir Olivia com acuidade de sentidos!
A seguir os principais trechos da entrevista que Olivia Hime concedeu à Folha2, que anda a pleno vapor nos shows de lançamento do disco.
Ter um maestro em casa incita a letrista a exercitar-se?
(risos) Não tanto quanto ele desejava.
Você tem um método de trabalho? As letras saem na pressão ou na inspiração?
Saem na pressão mesmo. Eu me determino, por exemplo, durante uma semana a me senta„r todos os dias das 10 às 14 horas e das 17 às 21 horas. Quer dizer, fico lá ouvindo a música, lembrando coisas que fiz... Então tenho que ter bastante disciplina porque senão eu não escrevo.
''Canção Transparente'' é um trabalho contemplativo, você diria?®MDBO¯®MDNM¯
Mais que contemplativo, trata-se de um disco reflexivo. É um disco leve. E essa idéia de leveza que a gente, Francis e eu, conseguiu imprimir. Sabe quando você termina um trabalho e diz: 'Ah, estou feliz. Era isso que eu queria fazer'. Tenho a sensação de ter conseguido me revelar da maneira que eu desejava.
O disco trabalha numa atmofera de delicadeza, de encantamento. Esse estofo parece até um conceito sonoro. É por aí?
É. O conceito sonoro é anterior ao desejo de fazer algo autoral. Então, procurei dentro de minhas letras algumas coisas que servissem a esse clima.
O adjetivo elitista se encaixa à sua arte?
Eu ouço a palavra elitista como algo que separa você de todos. Eu não me sinto assim porque procuro fazer meu trabalho a partir da observação dos sentimentos muito mais dos outros do que dos meus. A palavra elitista me soa como uma pessoa que vive num castelo e que não sabe o que acontece em volta de si própria. Pode ser que eu tenha uma noção errada da palavra, mas é assim que ela me soa. Sofisticada é uma palavra que eu entendo melhor... Pensando bem, eu acho que sou muito comum (risos)

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