DISCO - Agradáveis subversões sonoras
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sábado, 22 de outubro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
A obviedade foi abafada. Muito bem, o grande trunfo do Acústico MTV de O Rappa está na utilização de elementos que renovaram o fôlego do projeto, embora o formato ainda esteja à beira do esgotamento estético. Em vez lânguidas cordas orquestrais, violões conformados e canções com andamentos mais lentos, experimentos sonoros extraídos de um arsenal de instrumentos (alguns inusitados) como baixo acústico, bandolins, craviolas, viola caipira, marimbas, cuícas, rabecas, órgãos e até mesmo diversas campainhas residenciais e vejam só um gramofone utilizado como pick-up. E percussão, muita percussão. Muito boa, a empreitada de O Rappa está sendo lançada em CD e DVD. Trata-se do sexto disco da banda carioca em 12 anos de carreira.
As gravações ocorreram nos dias 13 e 14 de julho no Estúdio Locall, em São Paulo, e reuniu cerca de 200 participantes. A capital paulistana foi escolhida por questão de logística ficava mais fácil para a MTV armar seu circo. Ao todo 13 canções (duas inéditas), das quais cinco extraídas do bem-sucedido ''O Silêncio Q Precede o Esporro'' e uma ou outra dos discos anteriores. Hits consagrados como ''A Minha Alma - a paz que eu não quero'', por exemplo, ficaram de fora por motivos até compreensíveis: essa e outras canções que caíram na boca do povo resolveram-se em ''Instinto Coletivo'', gravado ao vivo, em 2001.
Havia repertório para um disco de inéditas, mas prevaleceu a idéia de Tom Capone, produtor morto tragicamente no ano passado. ''A gente sentia a necessidade de fazer algo autoral, mas a crença dele (Capone) era mais forte que a nossa'', explica o baixista Lauro Farias. ''Resolvemos fazer o acústico porque estamos no melhor momento da carreira e também porque nossos projetos sempre foram diferentes uns dos outros'', complementa.
Diferentes, de fato. Assim ó: mesmo com um acústico diferenciado das demais bandas do primeiro time que já passaram pela experiência, não se pode esquecer que o formato da MTV costuma frear carreiras rolando ribanceira abaixo ou mesmo manter um nível de vendagem vantajosa, que é o caso d'O Rappa. Para suprir a falta de Tom Capone, foi convocado o produtor Carlos Eduardo Miranda. Que não só entendeu a língua da rapaziada como fez-se entender ao dourar a pílula na medida certa.
''O Miranda é um cientista musical. Como trabalhamos com diversos timbres, nos sentimos à vontade com ele'', ratifica Lauro Farias. Além de Tom Capone, o disco saúda nos créditos o escritor e compositor Waly Salomão e Lourenzo, que quando vivo integrou a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), Ong com sede no Rio de Janeiro e que atua há mais de 40 anos nos movimentos sociais uma porcentagem da bilheteria dos shows da banda é destinada à entidade.
''Acústico'' abre lá em cima com a inédita ''Na frente do reto'', que inicialmente tem uma levada meio Tim Maia na fase pasteurizada e arrebata no decorrer da faixa. No meio do som, o vocalista Falcão dispara um discurso, digamos, metafísico: ''Praquelas pessoas que pensam se engrandecer de tal maneira que passam a desprezar os humanos aqui na terra. E o que acontece? Vem o papai do céu lá de cima e confisca tudo. O olho grande acaba com a humanidade''. O público rende-se ao falatório e ao batidão e ao final faz corinho: ''Uh! Rah-pa! Uh! Rah-pa!
Empatia estabelecida, dá-lhes músicas. Revisitam com vigor ''Se não avisar o bicho pega'' (do disco ''Lado B Lado A''), ''Papo de surdo e mudo'' e os versos cinematográficos de ''Reza Vela'' (''A chama da vela que reza/ Direto com santo conversa/ Ele te ajuda, te escuta num canto/ coladas no chão, as sombra mexem/ Pedidos e preces viram cera quente'') ambas do álbum ''O Silência Q Precede o Esporro'' e dão visibilidade melhor a ''Brixton, Bronx ou Baixada'', do primeiro e despercebido disco de estréia, de 1994.
A inédita''Não perca as crianças de vista'' é outra faixa bem bacana. No entanto, a releitura de ''Rodo cotidiano'' ficou melhor com dueto entre Falcão e Maria Rita raro momento da cantora que sai de seu universo cool para cantar, soltar a voz.
O DVD traz seis faixas a mais: ''Bitterusso champagne'', ''Mitologia gerimum'', ''O novo já nasce velho'', ''O que sobrou do céu'', ''Cristo ou Oxalá'' e ''Me deixa''. O disco dá uma boa panorâmica da nova empreitada d'O, mas o registro registro audiovisual não decepciona os famosos banquinho e o violão foram descartados. ''A gente teve a visão de expandir o formato acústico para não ficar óbvio'', atesta Lauro Farias.
O moço tem razão. Desplugados, Falcão e companhia lançaram-se aos experimentos que, muita vezes, dão a impressão de haver, de fato, interferências eletrônicas. A subversão sonora se sobrepôs às convenções do acústico. A discurso sócio-político das letras permanece intacto, mas em ''Acústico MTV'' O Rappa revitaliza-se ao mostrar engajamento sem se esquecer de promover entretenimento. De boa qualidade, obviamente.
Músicas do CD Acústico O Rappa
- Na frente do reto (*)
- Mar de gente
- Brixton, Bronx ou Baixada
- Homem amarelo
- Lado B Lado A
- Reza vela
- Se não avisar o bicho pega
- Rodo cotidiano - Participação Especial: Maria Rita
- Não perca as crianças de vista (*)
- Pescador de ilusões
- O salto
- Papo de surdo e mudo
- Eu quero ver gol
(*) músicas inéditas


