DISCO - AFROREGGAE para muitos
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2006
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Meio mundo já se maravilhou. A outra metade incluindo brasileiros deverá colocar olhos e ouvidos mais interessados sobre o AfroReggae neste ano. Uma sucessão de acontecimentos bacanas deve dar à banda de Vigário Geral, subúrbio carioca, ampla e merecida visibilidade. Primeiro: disco novo nas prateleiras. Segundo: abertura do show dos Rolling Stones, no dia 18 de fevereiro, no Rio de Janeiro. Terceiro: a possibilidade de ''Favela Rising'', documentário sobre o trabalho sociocultural do AfroReggae, ser indicado ao Oscar. Quarto: a sétima turnê internacional, também em fevereiro. Quinto: em abril, sai o primeiro DVD com direção de Cacá Diegues.
Tudo isso merece ser esmiuçado. Em especial, ''Nenhum Motivo Explica a Guerra'', segundo disco da banda que sai pelo selo Geléia Geral (distribuição da Warner), coordenado por Flora Gil, mulher do cantor-compositor-ministro Gilberto Gil. Ao contrário de ''Nova Cara'', lançado em 2001, é um álbum que aposta numa sonoridade mais universal, talvez por conta do produtor Chico Neves (Skank, Lenine, entre outros no currículo). ''®MDNM¯É um disco mais dançante, mais alegre no sentido de as pessoas curtirem nossa proposta e ao mesmo tempo suingarem com as músicas'', avisa o percussionista Anderson Elias, o Dáda.
Há, de fato, o firme propósito de o AfroReggae continuar a assinar crônicas ácidas através da observação e vivência das mazelas sociais com uma levada sonora coesa. Letras exatas afastam a possibilidade de um calculado e comercial discurso panfletário como faz, por exemplo, Marcelo D2. Com o AfroReggae não há escapismos. As chagas das comunidades são expostas em versos revestidos por instrumentos elétricos, interferências eletrônicas e percussão acústica. Linguagem direta, quase radiofônica. Sem tantas informações sonoras amontoadas como no disco de estréia, a comunicação com o grande público pode acontecer naturalmente.
Dez temas compõem ''Nenhum Motivo Explica a Guerra'', título extraído da faixa letrada por Arnaldo Antunes, acrescida de ''No More Trouble'' (Bob Marley), nas vozes do rappers ingleses Ty e Estelle. Bom começo. ''Haiti'', clássico de Caetano e Gil, é transformada num reggae suave e aparentemente, simples não fosse a dramaticidade literária. Um certo romantismo paira no álbum como em ''A Partida'', o pequeno equívoco do disco, e a bem estruturada ''A Aquarela Dela'', com letra eficaz do poeta Geraldinho Carneiro. Nando Reis e o compositor e produtor Liminha (em participação especial) também inauguram parcerias com a rapaziada em ''Quero Só Você''.
Justiça seja feita: o AfroReggae é muito mais veemente nas questões relativas aos excluídos e apartados, mesmo que ''Nenhum Motivo Explica a Guerra'' incline-se mais ao discurso politicamente correto em vez de cruezas. Sinais do tempo? Evolução? ''Nossa questão não é só criticar, mas também apontar problemas e mostrar soluções'', explica Dáda. Se visto por esse ângulo, ''Coisa de Negão'' e ''Mais uma Chance'' têm muito a dizer.
Agora se é para cutucar a ferida, nada melhor que ''A Parada é Outra'' (''Em alguma favela do Brasil/ um menino foi encontrado morto/ o motivo não era 1 só/ Eram 10, 100, 1000 e muito mais/ tiros de overdose, desnutrição/ falta de carinho e atenção/ De quem é a culpa?'') ou a corrosiva ''Benedito'', com participação de Mano Chao, uma analogia entre os ''comandantes'' dos morros e divindades fortes das religiões afros. Um trecho da letra: ''Depois que Dona Lilith dá boa noite/ Não tem como cruzar com ele/Toda esquina tem um/ Meio Pilintra, Meio Vapor''. Taí a faixa mais incisiva e revestida do novo trabalho da rapaziada.
''Nenhum Motivo Explica a Guerra'', consolida o AfroReggae como a banda brasileira que melhor canta e toca realidades. Uma banda que dispara petardos verbais e sonoros. Faz barulho, causa impacto, incomoda até. Precisa ser ouvida por todo o mundo literalmente!
Serviço
- Disco ''Nenhum Motivo Explica a Guerra'', do grupo AfroReggae. Preço sugerido: R$ 22,00. Os interessados em conhecer melhor os trabalhos sociais desenvolvidos AfroReggae podem acessar o seguinte site: www.afroreggae.org.br


