DISCO - A voz da vez
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sábado, 20 de setembro de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A filha de Gilberto Gil foi mais comentada pela foto em que aparece nua na capa de seu CD. A filha de Elis Regina não precisou tirar a roupa para ser ''adotada'' pela Globo, que lhe deu destaque no ''Fantástico'', no ''Jornal Nacional'' e já programou a exibição de um especial gravado durante um show para o próximo domingo.
Agora só falta convidá-la para dar uma canja no Nick Bar, aquele da novela ''Mulheres Apaixonadas''. Sorte dela. Maria Rita Mariano merece. Em seu primeiro CD, ''Maria Rita'', ela esbanja talento interpretativo superando inclusive as mais otimistas expectativas de quem apostava nela com receio de vê-la comparada à mãe.
As comparações, inevitáveis, flagram impressionantes semelhanças de timbre e trejeitos (notáveis até por quem a viu apenas pela TV). Mas sua voz vigorosa impõe-se com personalidade, mesmo reverberando cacoetes maternos. Parece até crescer a cada audição do trabalho. É o que ela quer que todos percebam e ressaltem, como tem insistido em entrevistas.
Geniosa como Elis, Maria Rita esforçou-se para evitar qualquer pecha de oportunismo. Recusou, inclusive, lançar seu disco de estréia pela gravadora Trama, dirigida pelo seu irmão João Marcelo Bôscoli. Optou pela Warner, onde virou prioridade do elenco. De saída, a empresa imprimiu 100 mil cópias já na primeira tiragem do disco algo raro para um artista estreante.
Há duas semanas do lançamento, as cópias evaporaram das lojas presenteando a cantora com um Disco de Ouro. Para o próximo mês, está previsto o lançamento de um DVD ao vivo com a gravação de um show feito para 300 convidados, no Bourbon Street, em São Paulo. A campanha promocional para emplacá-la é pesada, como se o brilho próprio não fosse o suficiente.
Mas a decisão da garota de 26 anos para seguir o dom hereditário, foi demorada. Embora tenha crescido num ambiente musical, Maria Rita hesitou muito antes de encarar o microfone. Quando criança, ficava ao lado do pai o músico e arranjador César Camargo Mariano enquanto ele compunha partituras ao piano.
Tinha quatro anos quando Elis Regina morreu, vítima de overdose de cocaína. Mais tarde, na adolescência, mudou-se com o pai e os irmãos para os Estados Unidos onde cursou Jornalismo e Estudos Latino-Americanos. Em novembro passado, voltou ao Brasil já decidida a lançar-se como cantora. Começou discreta, sem fazer alarde, apresentando-se em pequenas casas noturnas e nos shows do compositor Chico Pinheiro, em cujo CD ''Meia-Noite, Meia-Dia'' faz uma participação.
Colocou a voz também no CD ''Pietá'', de Milton Nascimento. A essa altura, a curiosidade do público aumentava na mesma proporção com que o boca a boca entusiasmado entupia as salas paulistanas em que ela se apresentava com seu show-solo. O repertório já adiantava o que entraria no disco. Lúcida, Maria Rita Mariano priorizou músicas conhecidas ao invés das inéditas pensando em valorizar seu lado de intérprete.
Queria dar parâmetros de avalição às platéias, queria mesmo que comparassem sua performance com as versões originais. Por isso, selecionou canções como ''Encontros e Despedidas'' de Milton Nascimento e Fernando Brandt, ''Agora Só Falta Você'' de Rita Lee; e ''Veja Bem Meu Bem'' de Marcelo Camelo, dos Los Hermanos.
Marcelo Camelo forneceu ainda duas inéditas. Virou seu principal parceiro. A temporada de shows rendeu o prêmio de Revelação do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Em maio, entrou no estúdio com os produtores Tom Capone e Marco da Costa. O álbum foi cuidadosamente elaborado para sublinhar sua voz, com arranjos calcados em piano, contrabaixo acústico e bateria.
Com 13 faixas, o CD inclui ainda duas músicas-extras que só podem ser ouvidas por quem comprar o CD original. É que ''Vero'' (de Natan Marques e Murilo Antunes) e ''Estrela, Estrela'' (Vitor Ramil) estão em um site escondido, acessado somente através de uma faixa interativa. Para complementar o brinde, a caixinha traz formato de CD duplo sugerindo ao consumidor para baixar as canções e arquivá-las num CDr.
O repertório exclui modernidades pop. A ênfase é na tradição, com exceção de ''Cupido'', de Cláudio Lins, filho de Ivan e Lucinha Lins, cuja batida remete ao trip hop britânico. Mas entre o samba ''Cara Valente'' (Marcelo Camelo), o bolero ''Dos Gardenias'' (Isolina Carrillo) e o groove brejeiro de ''Pagu'' (Rita Lee / Zélia Duncan), destacam-se a levada de ''Menininha do Portão'' (Nonato Buzar / Paulinho Tapajós), a latinidade de ''A Festa'' (Milton Nascimento) e as delicadas melodias de ''Santa Chuva'' (Marcelo Camelo) e ''Menina da Lua'' (Renato Motta).
Completam o material as canções ''Lavadeira do Rio'' (de Lenine / Braulio Tavares) e ''Não Vale a Pena'' (Jean e Paulo Garfunkel). Os shows do disco tem arrancado aplausos em São Paulo e no Rio. A turnê nacional começa em outubro. Ontem, no meio da tarde, um produtor ligou para a Redação da Folha de Londrina sondando a possibilidade de trazê-la para a cidade. À sombra do mito Elis, Maria Rita decola.


