DISCO - A volta do desajustado
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segunda-feira, 24 de maio de 2004
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
Morrissey voltou. O sétimo álbum-solo do ex-vocalista dos Smiths, ''You Are The Quarry'', chegou no início da semana passada às lojas dos Estados Unidos e do Reino Unido. No Brasil, o disco será lançado em junho pela BMG. A expectativa em torno do álbum pode ser creditada a dois fatores. É o primeiro trabalho de Morrissey em sete anos. Em 1997, ele lançou ''Maladjusted'', que foi mal recebido pela crítica, não vendeu bem e teve como resultado sua saída da Island.
Em segundo lugar, a influência do cantor e de sua ex-banda pode ser sentida de forma bem mais nítida no rock atual, ao contrário da época do álbum anterior, quando o britpop começava a pôr o soutro pé na cova: hoje, praticamente todo o novo rock, de Strokes a Franz Ferdinand, de Radio 4 a Interpol, deve alguma coisa aos Smiths. A retomada da carreira de Moz (como é chamado pelos fãs) é uma espécie de volta do irmão mais velho.
''You Are The Quarry'' foi gravado em Los Angeles, onde o cantor mora desde o final da década passada, e em Londres, e produzido por Jerry Finn, que já trabalhou com Green Day e Blink 182. Para lançá-lo, Morrissey assinou contrato com a Sanctuary Records. O cantor requisitou à gravadora que o álbum saísse por um selo subsidiário, Attack, que nos anos 70 lançava artistas de reggae. Em troca, Moz deverá angariar novos nomes para o selo reativado.
Morrissey irá divulgar o disco com uma extensa turnê, que passará pelos dois mais importantes festivais do verão inglês, o de Glastonbury (em junho) e o Reading (final de agosto), e conta com uma série de datas nos Estados Unidos dentro do Lollapalooza, o tradicional festival itinerante que traz atrações de peso do chamado rock alternativo. O cantor também é o curador da edição 2004 do conceituado Meltdown Festival, que será realizado em Londres no próximo mês.
Para sacramentar a volta à mídia, Morrissey deu uma extensa entrevista ao semanário britânico New Musical Express, com o qual não falava desde o início dos anos 90 à época, o cantor foi acusado de racismo pelos jornalistas do periódico. Entre as declarações venenosas de Moz, a mais hilária era sobre uma possível reunião dos Smiths: ''O único jeito de nos reunirmos seria se alguém matasse nós quatro a tiros e colocasse os corpos dentro do mesmo estúdio''.
É bom ressaltar que ''You Are The Quarry'' justifica o bafafá que o precedeu. Com 12 faixas, é o melhor álbum de Morrissey em muitos anos. O disco abre com suas canções emblemáticas, ''America Is Not The World'' e o single ''Irish Blood, English Heart''. A primeira é uma balada que diagnostica os males do país onde o cantor mora atualmente: ''América, terra da oportunidade/ (...) onde o presidente nunca é negro, mulher ou gay''. A segunda é um rock voraz, de refrão pesado e letra que lamenta o papel constrangedor de capacho de Bush que a terra de Blair vem desempenhando nos últimos anos: ''eu sonho com um tempo/ em que ser inglês não é ser venenoso/ em que é possível ficar de pé ao lado da bandeira sem sentir vergonha''.
Musicalmente, Finn apenas atualizou o som do cantor veterano, ao adicionar timbres moderninhos aos arranjos. O repertório é a habitual mistura de rocks de melodias assobiáveis e baladas, com letras sobre amores não-correspondidos e auto-comiseração, imbuídas da ironia ferina de sempre. ''I Have Forgiven Jesus'' e ''I'm Not Sorry'' seguram a porção corta-pulsos do disco, a última fechando com um inusitado solo de flauta.
A agitada ''First Of The Gang To Die'' é forte candidata a segundo single do álbum, com refrão deliciosamente adesivo, riffs solares e cordas. Com raríssimos momentos de pouca inspiração (''How Could Anybody Possibly Know How I Feel'', ''You Know I Couldn't Last''), ''You Are The Quarry'' é um dos três melhores discos de toda a carreira-solo de Morrissey. Não é tão bom quanto Smiths mas dá para contar nos dedos de uma mão as bandas no rock atual que o são.


