Uma cidade produz muitas coisas, principalmente metáforas. De tanto esbarrar em algumas delas, a cantora e compositora Gisele Almeida resolveu travar um diálogo visual e formatar o conceito de seu primeiro disco. Deu-lhe o nome de ''Insufilme''. Oito faixas em que elementos urbanos gente e sensações, inclusive ajudaram a construir a poética musical do álbum, que sai com aval do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). O show de lançamento do disco acontece hoje, às 21h30, no Bar Valentino, em Londrina. No palco, Gisele Almeida vai cercar-se dos seguintes músicos: Mizão (guitarra), Gustavo Potumati (baixo), Rafael Palma (violão), Leonardo Cacione (bateria), Rodrigo Serra (vibrafone e percussão), além da participação especial de Paulo Siqueira (saxofone e flauta transversal).
''Insufilme'' começou a ser gravado em julho de 2003 com finalização em setembro deste ano. Para chegar ao conceito desejado a urbanidade e suas vibrações críveis e subjetivas , Gisele Almeida deitou olhos em paisagens e pessoas de Londrina. O projeto serviu também como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Artes Plásticas, neste ano, e recebeu nota nove. Enquanto ''Insulfime'' não acontecia, Gisele ia cantando cidade adentro, como faz há seis anos. Maturou-se como vocalista do Acústico Blues Trio, com o qual vem se apresentando há um ano e meio.
Papéis com anotações e impressões visuais quase emperraram a gaveta do criado-mudo de sua casa. As letras de ''Insufilme'' surgiram primeiro. As melodias vieram de audições vorazes que iam de Bjork a Maria Bethânia, de drum'n' bass a partido alto enfim, tudo o que pudesse lhe trazer acréscimos inclusive os dialetos sonoros das boas bandas locais. O pop soou adequado ao disco, mas a circunferência não curvo-se à rigidez de um rótulo, tanto que há indícios dortes de rock and roll, breves insinuações jazzísticas, maracatu e outras puxadas. Os arranjos foram concebidos com os músicos participantes, com incisivo acento do guitarrista Mizão.
O violonista Rafael Palma leva créditos em seis faixas, das quais três em parceria com Gisele (a faixa-título, a singela ''Mocinha'' e ''Canção de Amor em Si Menor'', duas com Bruno Morais (''Redoma de Proteção'' e ''Jogue meu Coração Fora'') e Zé Guilherme (''Borges de Medeiros''). Gisele assina letra e música na sinuosa ''Samba do Sorvete'' e ''Get Around''. ''São atrevimentos de minha parte'', diverte-se ela que domina o idioma inglês, toca violão, pretende ''encarar'' piano no próximo ano e ama o Rio de Janeiro sem nunca ter pisado os pés lá. ''Mas eu vou pra lá'', avisa.
Conceitual e autoral, com quase 37 minutos de duração, o projeto ''Insufilme'' sai com uma tiragem de mil cópias e custou R$ 25 mil, dos quais R$ 14 saídos do Promic o restante veio de apoio e empenho pessoal. Como contrapartida social, Gisele Almeida ofereceu ao município oficina de canto e rimas com meninos e meninas da periferia. Desse entrosamento nasceram duas novas músicas, ainda sem títulos.
O CD vem encartado numa espécie de revista com belo tratamento gráfico que traz na capa a foto da mãe da cantora, Zilda, e na contracapa o pai, José. Há uma faixa multimídia (''Mocinha'') com direção, animação e edição de Thaís Archangelo bacana à beça!
''Insufilme'' oscila entre o convencional e a contemporâneo. A voz, vejam só, não aparece com todo o esplendor da grande intérprete que Gisele é. Quis ela que seu álbum de estréia viesse à tona sob agradável comedimento sonoro. Portanto, traduz um momento importante da cantora mais expressiva que Londrina gerou nos últimos dez anos. ''Esse projeto foi permeado de milagres. Deus escolheu as pessoas necessárias para provar sua magnificência'', diz ela. Deus, isso mesmo, Deus! Gisele há um ano burila sua fé na Igreja Metodista depois de enfrentar infernos pessoais. ''Era uma desvalorização pessoal que me comia internamente'', diz segura. Não, não, ela não não vestiu o modelo caricato da conversão palavrões ainda são ditos como pontos de exclamação. Agora, diz ela, sabe entrar e sair de situações antes, digamos, dantescas. Uma coisa é certa: Gisele sempre esteve pronta para cantar. Graças a Deus!
A seguir os principais trechos da entrevista que a cantora concedeu à Folha2
A cantora e atriz Simone Mazzer disse, anos atrás, que deixou Londrina porque o teto ficou baixo. Você sente a mesma coisa?
Totalmente, totalmente.
E vai para onde, para o Rio de Janeiro?
Nunca foi ao Rio, mas adoro o Rio de Janeiro, a cultura carioca...Na verdade, o que me maravilha mesmo é a inspiração que a cidade traz para tantas coisas acontecerem. O Rio de Janeiro para mim ainda é Tom Jobim e O Rappa, Pedro Luís e a Parede... Coisas contemporâneas e antigas, o samba, a cultura da periferia.Eu vou para lá assim que tiver como!
''Insufilme'' é disco contemplativo, dançante, o quê?
É um disco para ouvir passeando. É a trilha sonora de um passeio.
É uma homenagem a Londrina, mesmo sem ser explícita?
Totalmente. Essa coisa da Simone Mazzer dizer que o teto estar ficando pequeno, eu senti na finalização do disco. Faria muito sentido fazer o show de lançamento do disco em local aberto, fosse na Concha Acústica, no Anfiteatro do Zerão, em qualquer lugar. Fui pedir ajuda e fiquei muito tempo sentada em sofá babando e esperando duas horas para ser atendida e acabaram fazendo uma coisa em comemoração ao aniversário da cidade na qual a figura principal (NR Arrigo Barnabé, que faltou ao show ''Na Boca do Bode'') não veio. E eu aqui cheia de amor pra dar.
Por que ser cantora?
Sou cantora porque não há outra coisa que me dê combustível para continuar vivendo. Acredito muito na função do meu ofício. Cantar, explicar, movimentar ou mudar coisas formam o exilir para minha vida. A arte ensina muito.

- Show de lançamento do disco ''Insufilme'', de Gisele Almeida. Hoje, às 21h30, no Bar Valentino (Avenida Bandeirantes, 61). Couvert: R$ 10,00 e R$ 20,00 (com direito a um CD). O álbum está sendo comercializado a R$ 20,00 nos seguintes locais: Livrarias Porto, Nat West Company, Jardim Elétrico, Banca Correio e Bar Valentino.

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