Curitiba O cantor, compositor e instrumentista João Donato pediu um tempo antes de conceder a entrevista, por telefone, à Folha2, para tomar um banho, descansar e limpar as idéias do dia anterior. Quando a reportagem ligou para Brasília, onde mora atualmente, o compositor tinha adiado o banho para depois da conversa, que considerou mais importante. ''A água só tem função de limpar por fora. Não tem efeito nenhum na alma. Para me limpar por dentro, eu escuto música'', brincou.
Com quase uma dezena de projetos sendo tocados quase ao mesmo tempo, o músico de 69 anos ensina alguns truques para tanta disposição. Um deles é justamente escutar as coisas da vida, o outro é atravessar os caminhos com tranquilidade. E é esse estado de espírito que ele está mantendo para levar o punhado de projetos paralelos que está realizando. Donato acaba de relançar o CD ''A bossa muito moderna de João Donato e seu trio'', pela Dubas. Considerado um clássico, o disco foi lançado em 1963 e reúne interpretações próprias e de amigos como Antonio Carlos Jobim, Sérgio Mendes e Roberto Menescal.
A capa do CD da Dubas é a mesma do LP lançado na década de 60. A diferença é que no encarte, como é comum nas produções da Dubas, o ouvinte vai poder ler curiosas histórias sobre as músicas que compõem o disco, com textos do próprio Donato. É um repertório delicioso, para ouvir em (quase) todas as situações. O disco abre com ''Depois do Natal'', uma parceria com João Mello e passa por músicas conhecidas do grande público, como ''Só danço samba'' (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). São 12 faixas, que segundo o compositor ''passam rápido e quando acabam você já quer ouvir de novo. Que nem aquele sobremesa que vem um pouquinho e você fala me dá mais aí...''
Além do CD da Dubas, o compositor está prestes a lançar mais dois novos álbuns: ''Emílio canta Donato'' (Lumiar) produzido por Almir Chediak, morto este ano e o disco ''Wanda Sá e João Donato'', que reúne algumas canções tradicionais americanas e músicas de sua autoria e de outros compositores, como Tom Jobim, Joyce, Roberto Menescal, Johnny Alf e João Gilberto. O primeiro ainda não tem data para ser lançado e o segundo tem lançamento mundial marcado para novembro, no Japão, com direito à presença do compositor.
O território japonês não é o único que Donato visita este ano, a trabalho. Amanhã ele parte para Cuba, onde vai gravar um disco com cantores locais. ''Cuba tem ótimos músicos e ótimos pianistas. Me convidaram para gravar um disco e acho que vai ser um ótimo trabalho'', vislumbra. Em dezembro, o músico viaja para Rússia, onde se apresenta com a Orquestra de St. Peterburg.
Mas o artista não gosta de detalhar os tantos projetos. ''Vamos falar de outras coisas, tem tantas outras coisas para falar'', desvia. Quando questionado, por exemplo, sobre a sinfonia que ele está escrevendo sobre o Acre, sua terra natal, diz que ainda é cedo para falar sobre o novo trabalho. ''A gente só atravessa a ponte quando chega no rio. Eu ainda estou a uns cinco quilômetros dele'', filosofa.
Donato, no entanto, é enfático quando o assunto é criação. ''Eu tenho facilidade para fazer uma música que não é intelectual, que não tem segundas intenções como me deixar popular ou rico. A minha música é para ouvir'', diz confessando que adora ouvir as próprias composições. ''Escuto até mesmo tomando banho e consigo compor outras músicas em cima da que estou ouvindo'', conta, dando uma dica: ''escutar música no chuveiro é uma delícia, é um meio de você se purificar por dentro e por fora''.
E a purificação que a música de Donato permite pode ser conferida, por enquanto, no disco da Dubas, mas em outubro, o compositor prepara uma visita a Curitiba para mostrar parte do seu vasto repertório. O show ainda não tem data e local confirmado, mas ''A bossa muito moderna de João Donatto e seu trio (Tião Neto no baixo, Milton Banana na bateria e Amaury Rodrigues na percussão) já está nas lojas.


Serviço:
- ''A bossa moderna de João Donato e seu trio'', é um lançamento da gravadora. Mais informações pelo site: www.dubas.com.br

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