São Paulo, 17 (AE) - Eles não têm nada em comum, exceto o fato de participar, como diretores estreantes, da 23.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Na verdade, Jacques Maillot e Sigfried expõem as diferenças do novo cinema francês. Maillot é o diretor de Nossas Vidas Felizes; Sigfried, de Louise (Take 2).
Há elementos comuns entre Nossas Vidas Felizes e A Vida Sonhada dos Anjos, de Eric Zonka. São filmes sobre a busca de identidade da juventude francesa. Os dois diretores vieram do curta-metragem. Fora isso, ele prefere destacar as diferenças entre ambos. Aliás, diz que bastará assistir a Nossas Vidas Felizes, amanhã (18) na mostra, para perceber que as diferenças são muito maiores que os elementos que propiciam uma aproximação.
Nossas Vidas Felizes foi um dos representantes da França no Festival de Cannes, em maio. Recebeu críticas péssimas. Maillot sabe que há muitos críticios que gostam do filme. Espera que eles se manifestem em dezembro, quando o filme estrear na França. É a história de seis personagens, seis amigos, seis destinos cruzados.
O projeto surgiu com base na experiência vivida por uma amiga de Maillot: ela tinha uma relação com um árabe, ele foi expulso do país. "Achei profundamente injusto", ele conta. O caso inspirou uma das histórias de Nossas Vidas Felizes. Em torno delas foram surgindo todas as outras. "É um filme de esquerda, mas não um filme de esquerda tradicional", diz o diretor. Diz coisas que as pessoas, mesmo de esquerda, não estão acostumadas a ver dessa maneira.
Racismo, homossexualismo, cristianismo - tudo está no filme, mas não de acordo com os estereótipos a que o público está habituado, mesmo aqueles que seguem a cartilha das pessoas progressistas. Maillot está tão seguro do filme que dirigiu que rebate uma crítica que, com frequência, foi feita ao filme em Cannes: os personagens são interessantes, mas Nossas Vidas Felizes deveria ter meia hora menos. "Não acho; é preciso dar tempo aos personagens para respirar, para viver; além do mais não queria fazer um filme no estilo videoclipe", diz.
Ele também não acha que o título seja irônico: "Nossas Vidas Felizes trata de vidas, basicamente, infelizes. "Depende do conceito de felicidade", diz o diretor. "O meu, com certeza, não é o californiano; quero falar sobre os problemas de pessoas comuns, mas de forma que, no fim, o espectador perceba que elas amadureceram, adquiriram alguma coisa forte, íntima e, por isso, são mais felizes."
Outra é a pesquisa de Sigfried. É seu nome, que ele adotou como o único artístico. Sigfried veio da música. Formado no conservatório, ele toca violoncelo e piano e faz misturas de jazz moderno com hip-hop e outras formas musicais. Além de diretor, também é autor da trilha de Louise (Take 2).
É a história de gente jovem que vive nas ruas de Paris, sobrevivendo à base de pequenos roubos e expedientes. Há muitas cenas no metrô, mas Sigfried não é Luc Besson. Seu filme não segue a cartilha de Subway. "É mais realista, mais verdadeiro"
ele define. Talvez por sua experiência como músico, ele considera que a música é mais importante que o cinema.
Autor de alguns curtas, fez Louise (Take 2) com a cumplicidade de alguns amigos, entre eles a atriz Élodie Bouchez
de A Vida Sonhada dos Anjos. Explica de onde veio a inspiração: "Saí cedo de casa, não porque não gostasse de minha família, mas porque queria viver a minha vida." A rua, para ele, é liberdade. Mas ele não se ilude: as grandes cidades são labirintos nos quais o homem moderno tem dificuldade para orientar-se. Contra a opressão, Louise (Take 2) faz o elogio da vagabundagem.

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