Diretor Régis Cardoso lança biografia e quer voltar à TV
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sexta-feira, 10 de dezembro de 1999
Por Júlio Gama 
São Paulo, 10 (AE) - Em 1962, Bette Davis publicou um anúncio no "New York Times" em que descrevia suas qualidades como atriz e, no fim, oferecia seus serviços. Aos 54 anos, a estrela que faria quase cem filmes em Hollywood (inesquecível na interpretação em A Malvada) estava desempregada. Deu certo. O diretor Robert Aldrich viu o jornal e a convidou para atuar em "O Que Terá Acontecido a Baby Jane?" É com o mesmo espírito de Bette Davis que o diretor de novelas Regis Cardoso lança "No Princípio Era o Som - A Minha Grande Novela" (Editora Madras, 196 páginas, R$ 22,00). A obra já está nas livrarias e o lançamento oficial é na segunda-feira na Livraria Timbre, no Shopping da Gávea, no Rio.
Cardoso também está desempregado. Mantém um curso permanente de formação de atores e dá palestras em universidades no Rio. Mas não bastam. A um diretor interessa dirigir. "Não sei por que não me chamam para trabalhar", diz. "Acho que tem a ver com a idade". Cardoso tem 65 anos, 51 de vida artística. Começou aos 14 anos como contra-regra de ruídos da Rádio Tupi. Contra-regra de ruídos, vale explicar, era, por exemplo, o cidadão que batia os copos quando os radioatores brindavam em cena; ou simulava um estampido quando um tiro era disparado; ou ainda (haja criatividade!) apertava a descarga sanitária para simular um submarino submergindo.
Até 1993, Cardoso dirigiu 29 novelas, dentre elas alguns dos maiores sucessos da televisão brasileira. Quem tem mais de 30 anos lembra de algumas: "O Bem- Amado", "Estúpido Cupido"
"Locomotivas", "Te Contei!", "Sem Lenço, Sem Documento", "Anjo Mau", "Pecado Rasgado", "Escalada", "Sangue e Areia" e "Pigmaleão 70", entre outras. A mais recente foi "Tocaia Grande", um fracasso retumbante da Rede Manchete, que deixou mágoas no diretor.
Em 1993, após retomar o controle da emissora, então nas mãos do grupo IBF, a família Bloch estava disposta a produzir uma novela que tivesse o mesmo sucesso de "Pantanal", de 1989. O texto de Jorge Amado era meio caminho andado. Mas parou por ali. Cardoso, que morava em Portugal, onde dirigiu três novelas para a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), fora convidado para retornar ao Brasil e assumir o cargo de diretor-artístico da emissora. Ficou durante um ano e meio.
No meio da novela, o diretor foi comunicado por um dos diretores da emissora, Fernando Barbosa Lima, que estava sendo afastado porque faltava ritmo à trama. "Ora, então depois de quase 30 novelas eu havia desaprendido?", pergunta indignado. O ritmo que faltava, segundo diz, podia ser traduzido por apelação em cenas de nudez. Ele lembra do dia em que assistiu a um programa na sala de outros diretores com o monitor instantâneo de ibope. "Enquanto um ator tirava a roupa para banhar-se num rio, o ibope subiu de três para seis pontos e depois de vestir-se caiu novamente para três pontos", conta.
Foi então que teria ouvido da direção da Manchete: "É isso que temos de fazer". Teria respondido: "Pois isso eu não sei fazer". Saiu brigado e um de seus maiores desafetos é o diretor Walter Avancini. "Não o perdôo porque ele assumiu a novela em meu lugar e saiu falando mal de mim à imprensa", diz. Nas poucas vezes em que cita Avancini no livro, Cardoso o chama pelo nome de batismo, Nunciato. "Eu sei que ele odeia ser chamado assim".
Há ressentimentos, mas há também humor no livro, que narra histórias do tempo em que ainda não havia o videoteipe. Uma delas: personagem importante de uma novela, Mário Lago foi preso pelo exército e ficou incomunicável por três semanas. Desesperado, pois tinha de continuar com a história, Cardoso vestiu as roupas de Lago e fez o seu papel de costas. Cardoso lembra também do dia em que Manoel de Nóbrega inovou no seu programa na TV Paulista (hoje TV Globo) ao colocar o locutor na frente das câmeras. Em 1951, o locutor era ninguém menos do que Silvio Santos que, em tempos de crise, foi dono de um botequin na Santa Cecília, chamado "Nosso Cantinho".
Cardoso, ex-marido da atriz Suzana Vieira, esteve ligado à televisão desde a chegada ao Brasil dos primeiros equipamentos da TV Tupi, em 1950, até o início dos anos 90. O livro foi a maneira que encontrou para refrescar a memória de seus contemporâneos e mostrar aos mais jovens tudo o que já realizou. Em troca, quer dirigir. Melhor do que publicar anúncio em jornal.


