Diretor participou do Cinema Novo
São Paulo, 18 (AE) - Eduardo Coutinho é um cineasta que vem dos anos 60. Participou ativamente do Cinema Novo, tendo sido diretor de produção de "Cinco Vezes Favela", filme de episódios emblemático de um tempo politizado e produzido pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Não era realismo socialista, mas quase. Fazia-se cinema pensando em "emancipar" o povo com obras didáticas, facilmente compreensíveis, que falassem direta ou indiretamente das condições de exploração social.
Sua obra-prima é "Cabra Marcado para Morrer", descida vertical às relações sociais no campo, um projeto inicialmente abortado pelo golpe de 64, que se realizou quando, anos depois, o cineasta foi procurar pelos personagens para terminar seu projeto. Conseguiu, assim, juntar duas pontas da história, como aquele personagem de Machado. Mais: devolveu cidadania a quem tinha mergulhado no anonimato, em especial dona Elizabeth, a matriarca e pessoa mais impressionante do filme. Como Coutinho vem dessa época, é normal que tenha partilhado de alguns dos conceitos ou preconceitos do tempo.
Hoje é fácil falar de religião como um fator constitutivo da cultura do povo, ou elemento de aglutinação, ou usar qualquer outra definição elogiosa a respeito das crenças em geral. Naqueles anos, e entre a intelligentsia, bem entendido, religião rimava mesmo era com alienação. Dogma marxista e ponto final. O próprio Nelson Pereira dos Santos, patriarca do Cinema Novo, conta que levou alguns anos para perceber que as pessoas pobres, as "exploradas", em nome das quais tudo era feito, mantinham ferreamente suas crenças. E que era impossível entendê-las quando se ignorava esse dado. Daí a importância de um documentário como "Santo Forte".
Ele nasce de uma constatação óbvia: "Achar que a religião é apenas alienação, ópio do povo, é muito pouco", constata Coutinho. Há alguma coisa de certamente essencial, às vezes impalpável, que passa por esses depoimentos absolutamente francos e profundos das pessoas entrevistadas sobre aquilo em que acreditam. O cineasta não adianta nenhuma tese a respeito, espera que o filme fale por si, mas algumas conclusões são possíveis.
Primeiro, a carência. Não por acaso, o cineasta foi buscar depoimentos sobre religião numa favela e não numa mesa espírita de classe média. Parece evidente, para quem vê o filme, que a crença entra (também) ali onde o social se faz ausente. Seria muito simplista ver a fé apenas como compensação por algo que faz falta no mundo terreno, mas também seria tapar o sol com a peneira supor que ela não cumpra, em parte, esse papel tão óbvio. Dá esperança a quem não a tem e fornece respostas diante do silêncio do mundo social. Esse é um aspecto. Não o único.
Porque também fica claro que a religião cresce ali onde existe o mistério. Mistério maior da morte -a limitação, a finitude. Por isso, em quase todos os depoimentos está presente a lembrança de pessoas que se foram. É assim no caso da velha senhora que se lembra da irmã, levada por alguma entidade, ou do homem que recebe conselhos da mãe morta. Há esse lado, o da religião como conforto diante do que existe de mais trágico na condição humana, que é a sua consciência da finitude. Esse aspecto obceca o teólogo que medita na solidão de sua cela e o morador da Favela Parque da Cidade.
O espanto, o medo e o desconsolo diante do desconhecido os iguala, torna semelhantes ricos e pobres, intelectuais e iletrados. Essa isonomia diante do caráter finito da existência, essa democracia perante a morte e o medo é um dos aspectos que mais impressionam em "Santo Forte". Não por acaso Spinoza dizia que o espaço teológico - o campo das religiões - se circunscreve entre o temor e a esperança. Temor da morte, esperança de que haja alguma coisa, de preferência boa, do lado de lá. Essa condição iguala todos, para além da evidência de precariedade material dos moradores da Favela Parque da Cidade.
Coutinho, ou como ele prefere, o encontro deles com uma equipe de filmagem, revela essa dignidade, mais do que evidente, mas que precisa ser reafirmada a cada vez. Em especial em sociedades nas quais, mais do que nunca, vale o que se tem e não o que se é. Uma imagem muito bonita, muito vigorosa do povo brasileiro, essa que é veiculada em "Santo Forte". Muito misteriosa também, e talvez inquietante para quem pensa que favelados são almas simplórias, portanto facilmente decifráveis e previsíveis. Não. Há lá um mundo que, se por um lado parece democraticamente igual ao da classe média ou rica, porque também teme e espera, por outro parece radicalmente original.
Singular na maneira pela qual enfrenta suas contingências, no jeito como articula seus discursos, no estilo como mescla suas referências religiosas. "Santo Forte", que trabalha nas semelhanças, mas também nas diferenças, apenas abre um pouco a cortina para esse mundo. Um olhar a um tempo carinhoso e fascinado. (L.Z.O.)





