São Paulo, 28 (AE) - Um pequeno trecho da autobiografia do diretor Augusto Boal mostra que o leitor pode esperar uma narrativa incomum e divertida. Mas o surpreendente vira mesmo esperado em se tratando do criador do Teatro do Oprimido. Entre tantos feitos incomuns, ao longo de seus 68 anos de vida, vale lembrar que, eleito vereador do Rio pelo PT, fez dos tradicionalmente tediosos discursos na Tribuna da Câmara deliciosas crônicas. Tanto que foram publicadas pela "Civilização Brasileira" num livro intitulado "Aqui Ninguém É Burro".
Há tempos Boal iniciou sua biografia. Porém, interrompeu o trabalho ao perceber que escrevera mais de 200 páginas e ainda não saíra da primeira infância. No entanto, ao retomar o trabalho, parece não ter mudado muito esse estilo inicial. O leitor folheará muitas páginas até chegar ao nascimento de Boal. Isso porque ele conta em detalhes a muito especial história do encontro entre seus pais. O pai imigrou para o Brasil para "fazer a vida" deixando sua namorada em Portugal com a promessa de buscá-la em breve. Passaram-se anos e, quando ele finalmente se sentiu seguro o suficiente para constituir uma família, voltou à terrinha.
Nesse ínterim, sem notícias, sua amada desistira de esperar e, noiva, estava prestes a casar-se. Determinado, ele a reconquista, casam-se, e juntos viajam de volta ao Brasil. Como lutar contra um homem tão determinado? Boal não foi capaz de fazê-lo quando seu pai pôs na "caixola" que o filho - nascido em 1931 no subúrbio da Penha, no Rio - seria doutor. Em 1955, Boal formou-se em engenharia química e dramaturgia pela Universidade de Columbia, EUA.
Durante o período em que esteve na universidade, sempre que solicitava suas notas na secretaria, Boal divertia-se com a surpresa estampada no rosto da atendente, que julgava ter havido algum engano. Ele estudava a um só tempo plásticos e drama moderno, petróleo e Shakespeare. De volta ao Brasil, recusou um emprego na Petrobrás, mas aceitou feliz o convite feito pelo crítico teatral do jornal "O Estado de S.Paulo", Sábato Magaldi, para ser um dos diretores do Teatro de Arena, de São Paulo. No Arena, criou o sistema coringa - atores que se revezavam em vários papéis - e espetáculos importantes numa época marcada pelo engajamento político: Arena Conta Zumbi, Arena Conta Tirandentes e Revolução na América do Sul.
Preso e torturado em 1971, exilou-se na Argentina, onde desenvolveu as técnicas do Teatro Invisível, as primeiras de muitas outras que integram o chamado Teatro do Oprimido. Aperfeiçoou sua criação teatral durante os 15 anos de exílio em Paris, onde até hoje mantém sua sede, o Centro do Teatro do Oprimido, subvencionado pelo governo francês. Atualmente existem 19 livros traduzidos em 21 idiomas sobre o Teatro do Oprimido, além de mais de 200 sites na Internet e Boal é, sem dúvida, o diretor brasileiro de maior reconhecimento internacional. O padeiro português está, com certeza, orgulhoso de seu doutor.

mockup