Diretor espanhol seleciona grupos brasileiros para festival de Cádiz
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terça-feira, 08 de junho de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 09 (AE) - Com uma tradição cênica de mais de um século na família, o diretor de teatro espanhol José Bablé Neira, o Pepe, passou as últimas semanas em platéias brasileiras. Sua missão: selecionar grupos nacionais para o Festival Iberoamericano de Teatro de Cádiz, no qual o Brasil é o principal convidado deste ano.
Já estão escolhidos três grupos para a mostra, que vai de 15 a 24 de outubro na pequena cidade espanhola de cerca de 150 mil habitantes: o Centro de Pesquisas Teatrais de Antunes Filho, a companhia Pia Fraus e o grupo de dança Primeiro Ato. Também irão representantes das áreas de música, artes plásticas e gastronomia, selecionados por curadores brasileiros.
Cádiz é uma das mostras mais significativas da Europa. Cerca de 140 jornalistas estrangeiros estão credenciados para a cobertura. "O festival tenta abarcar todo o espectro cultural de um país", contou Neira, em visita ao Grupo Estado na manhã de terça-feira. "Até 1992, a Espanha esteve de costas para a tradição latino-americana e estamos tentando refazer esse elo", diz o organizador, que também é diretor do grupo de teatro de bonecos Tia Noria, um dos mais tradicionais da Espanha - escolhido pessoalmente certa vez por García Lorca para uma adaptação de seus textos.
Os últimos países representados na mostra foram a Colômbia, o México, Porto Rico, Cuba e o Caribe. Cádiz convida em média 22 grupos para cada jornada cênica e tem um custo médio de US$ 400 mil. Este ano, como o Brasil é o convidado, Pepe Neira firmou parcerias com o Ministério da Cultura e a Funarte para a realização da mostra.
Há também um esforço para abranger, além do Brasil, os países do Mercosul, de onde virão convidados, como o grupo La Tropa, do Chile. Cádiz, assim como Londrina, no Paraná - que está completando 32 anos de existência - não tem tantos espaços assim para encenar peças. São apenas três teatros. Mas o festival habilita espaços não convencionais e as ruas são tomadas pelas artes cênicas, o que muda o cotidiano da cidade durante os dias da mostra.
Pepe Bablé Neira nasceu numa família de atores. Aos 18 anos, ganhou o Prêmio Nacional de Interpretação. Desde 1983, dedica-se exclusivamente ao teatro de títeres (bonecos), uma das artes mais tradicionais da Espanha, que tem grandes nomes desse gênero - como o catalão Jordi Bertran. O mais recente espetáculo de seu grupo, "La Tia Norica - El Sainete", é um texto do século 19 que teve estréia em Cádiz no dia 1º de maio.
O espetáculo de Neira também estará no festival - e é pouco provável que chegue brevemente à América Latina. "É muito caro", diz Neira. Além disso, tem uma estrutura pesada: cinco toneladas de material de cena e 13 pessoas na equipe técnica.
Cádiz receberá a nova montagem de Antunes Filho, "Fragmentos Troianos", antes mesmo de sua estréia no Brasil. Os cenários do espetáculo seguirão diretamente de Shizuoka, onde Antunes se apresenta este mês, para a cidade espanhola. Outra intenção, ao escolher dois espetáculos com base em Nélson Rodrigues ("Flor de Obsessão", do Pia Fraus, e "Beijo...", do Primeiro Ato) foi dar uma amostra da dramaturgia brasileira aos espectadores europeus.
Deverá ser convidado ainda um grupo de teatro do Rio de Janeiro. A curadora da parte de artes plásticas, Isabela Salgado
já escolheu duas artistas para a mostra: a ceramista Leda Rabelo, de Belo Horizonte, e Inês Vieira, também mineira, só que de Uberlândia.


