São Paulo, 07 (AE) - Não ficaria mal dizer que Pedro Almodóvar é o mais afiado analista da nova desordem amorosa. O que vem a ser isso? Talvez o rescaldo da liberalização dos costumes dos anos 60, entrando em choque com o neo-moralismo pós-aids. O balanço desse choque de caminhos contrários mostra uma revolução que não se cumpriu combinada com uma regressão que não se realizou. Ou seja, uma confusão danada, pelo menos na aparência.
Almodóvar é intérprete de uma vertente libertária, porém sofrida, da experiência sexual humana. Por ter consciência do caos - mas também por ser um grande cineasta - consegue, como ninguém, traduzir para os comuns mortais o que se passa na esfera confusa da sexualidade de fim de milênio. Essa, digamos assim, clarividência de artista torna plausíveis algumas das mais improváveis situações.
O espectador sensível não irá estranhar que um travesti como Lola (Toni Canto) seja pai amoroso de duas pessoas, ou tenha sido casado com uma mulher tão feminina quanto a enfermeira Manuela (Cecilia Roth) e amante de uma irmã de caridade (Penelope Cruz). Ou que a diva Huma Roja (Marisa Paredes), estrela da peça "Um Bonde Chamado Desejo", namore e brigue com a atriz com quem contracena. Ou que a mais caridosa das criaturas da história seja outra travesti, Agrado, interpretada por Antonia San Juan.
O mesmo espectador sensível e inteligente irá perceber outra coisa. Por baixo dos escombros da moral clássica, Almodóvar detecta a estranha permanência de uma noção tida por ultrapassada, a de família. Se você abstrair de Lola o fato de ele ser um travesti, verá que se comporta como um clássico pai culpado, desleixado com sua cria e, por isso, cheio de remorsos. Manuela age como a mãe típica, não importando a origem do filho ou a opção sexual do marido. O mesmo pode ser dito de Agrado, Huma e as outras personagens. São figuras "quase" convencionais.
E esse "quase" faz toda a diferença. Almodóvar percebe que tudo muda e tudo permanece o mesmo. Porque há um movimento frenético de superfície e uma resistência obstinada da estrutura. Os papéis se redistribuem, mas a família tradicional continua. Não continua do mesmo jeito. Essa pequena mudança é o que a vaidade humana chama de progresso.

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