São Paulo, 09 (AE) - Pode não ser um dos filmes, mas é, com certeza, um dos bons filmes do ano. "Claire Dolan" integrou a seleção oficial do Festival de Cannes do ano passado. Foi exibido fora de concurso. Se você é cinéfilo de carteirinha saberá o que se quer dizer com a afirmação: "Claire Dolan" é "Viver a Vida", de Jean-Luc Godard, refeita por um discípulo americano de Robert Bresson.
Godard foi o grande revolucionário do cinema francês nos anos 60. Fez "Viver a Vida" com sua mulher na época, Anna Karina, em 1962. Numa cena, dava sua definição célebre: uma galinha é formada de duas partes, interior e exterior. Tirando o interior, sobra o exterior. Tirando o exterior, não sobra nada.
Por meio desse jogo de palavras, Godard queria discutir o próprio ofício da prostituição, sugerindo que uma prostituta, forçada a fingir emoções que não sente, com homens que não ama (ou com os quais não tem prazer), esconde tanto sua vida interior que vive da representação de gestos externos.
É a idéia de Lodge Kerrigan. No seu filme anterior, o brilhante "Limpeza" (Clean Shaven), também exibido em Cannes, ele tentava mostrar o que se passava na cabeça de um desequilibrado mental. Desmontava os clichês do cinema de serial killer. Aqui, é como se seguisse o caminho inverso. A cabeça de Claire Dolan é um território ao qual o acesso é reduzido. Em compensação, o público vê tudo o que essa mulher faz - na cama, com os clientes, na solidão de sua casa. Claire é revelada mais pela representação dos gestos externos do que pelas emoções que oculta. Por meio dessa nova personagem, Kerrigan desmonta outros clichês - o da prostituição no cinema.
Diretor de Nova York, ele é um intelectual que não se confunde com a média da produção independente dos Estados Unidos. Por melhores e mais fascinantes que sejam certos filmes, o cinema independente americano é falastrão, verborrágico e um tanto preguiçoso. Não Kerrigan. As cenas iniciais valem como amostragem: fachadas de prédios, uma arquitetura urbana, quase sempre pós-moderna. Kerrigan, um pós-pós moderno? Ele cria um mundo clean, mas no filme anterior já nos ensinou a desconfiar dessa espécie de limpeza. Bebe na fonte do francês Bresson, não apenas pela austeridade de seus planos e encadeamento de cenas, mas também pela temática de que só na ausência de comunicação o homem consegue comunicar-se.
É um filme amargo, sobre os grilhões que aprisionam as pessoas: a prostituta explorada pelo gigolô, o homem por quem ela se apaixona, um fraco que quer possui-la. Um mundo de sentimentos intensos, mas tão reprimidos que a primeira impressão do espectador é a de que está ingressando por veredas muito árduas, áridas da natureza humana. Contra todo pessimismo, Kerrigan acredita na esperança, representada pela criança que está para nascer, no fim.

mockup