Diretor do filme diz que descobriu 'um outro planeta'
Desafiando Nelson Rodrigues, a mídia francesa e internacional no 55º Festival de Cannes foi unânime e nada burra na calorosa acolhida a Cidade de Deus. O que variou foi somente a distribuição do espaço destinado às críticas elogiosas. Naturalmente com a agenda complicada depois do sucesso que cercou as exibições do filme exibido hors concours, como convidado especial, o diretor Fernando Meirelles e a co-diretora Kátia Lund receberam a Folha na ensolarada cobertura do Hotel Savoy para uma entrevista exclusiva.
Qual foi sua reação ao ler o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins ?
Fernando Meirelles - Um verdadeiro choque e uma revelação, o que me fez adquirir os direitos em 1998. Lins descreve um aspecto do Brasil do qual eu tinha pouco conhecimento. Sou paulista e classe média, e então descobri um outro planeta. O autor cresceu na Cidade de Deus, e seu romance é povoado por personagens que vem e que vão, que se encontram e se desencontram. Ele nos oferece uma visão do apartheid brasileiro, da favela em estado bruto. Graças a ele, pela primeira vez na história, se ouve a voz dos vencidos.
Foi difícil adaptar o original?
Fernando Meirelles - Sim, porque são ao todo 360 personagens! O livro se divide em três capítulos e tem a mesma unidade de tempo. Era mais simples contar esta história por etapas e por épocas. A primeira parte, situada nos anos 60, mostra o começo do conjunto Cidade de Deus e o surgimento dos pequenos delinquentes, por assim dizer, românticos. A segunda parte, situada nos anos 70, evoca a metamorfose desses bandidos inocentes em verdadeiros assassinos e agora já traficantes de drogas pesadas. E marca o início da luta pelo poder nos limites dessa geografia. O filme termina no começo dos anos 80, em plena guerra de bandos, quando surgem as organizações estratificados em falanges. E como você bem sabe, temos a Vermelha, o Terceiro Comando e outros grupos menos cotados, que dividem as favelas.
O filme foi mesmo realizado dentro da Cidade de Deus?
Fernando Meirelles - Seis meses antes de iniciar o longa metragem, Kátia e eu tínhamos feito um curta no local. E sempre com dificuldade em cima de dificuldade. Porque sempre tínhamos que negociar tudo com o chefe do tráfico, que tem amplo domínio sobre todas as coisas. Tudo, mas tudo mesmo está na mãos da organização que manipula a droga. A primeira vez que pus os pés na Cidade de Deus fui acompanhado por um traficante, que estava lá para me proteger. Ele afinal conseguiu arranjar tudo, e este foi meu batismo naquele universo descrito pelo Paulo Lins.
Kátia, como foi o recrutamento e a preparação deste grupo de jovens atores não profissionais? Houve algum método especial para se obter um resultado assim tão expressivo?
Kátia Lund - Eu já tinha uma experiência precedente sobre o tema. De 1996 a 1999, fiz um documentário, Notícias de uma Guerra Privada, todo realizado na favela de Santa Marta, no Rio. Um filme sobre a guerra da droga, sobre a repressão policial, sobre a falta de uma política social para os garotos que vivem num verdadeiro caos, sob o fogo cruzado dos bandos. Ali já tinha feito contatos. E também tenho amigos. Trabalhamos com um ator, Guto Fraga, que há 15 anos dirige o Nós da Favela, grupo de teatro do Morro do Vidigal. De um grupo inicial de 2 mil jovens pré-selecionados, ficamos com 200, preparados durante seis meses em exaustivos laboratórios. O que é intessante contar é que nenhum dos jovens atores leu o roteiro por completo. Eles trabalhavam em cima de uma linha geral traçada para os personagens e também tinham liberdade para improvisar.
A pergunta é inevitável. Vocês agora têm responsabilidade para com esses jovens para quem foi revelada uma outra realidade, um outro mundo. O que vai ser, ou já está sendo feito por eles?
Kátia Lund - Todos eles estão frequentando escolas fora da favela. Assim podem se localizar em território neutro, sem se preocupar com as diferentes facções a que pertenciam. Todos os sábados, os integrantes da equipe de Cidade de Deus, cada um na sua especialidade, dão aulas de cinema para esses jovens. Que, a propósito, já estão preparando para muito breve dois curtas-metragens.





