Diretor do Ballet de Londrina relata a solitária jornada de ensaios na pandemia

Dança da solidão

Marcos Roman - Grupo Folha
Marcos Roman - Grupo Folha

Atuando na dança há 27 anos, Leonardo Ramos já teve que se reinventar inúmeras vezes, mas nunca imaginou que um dia passaria pelos desafios que tem enfrentado por conta da pandemia de Covid-19. “Acho que todo artista é treinado para superar obstáculos de toda sorte. Porém, confesso que conviver com a solidão necessária ao isolamento social acabou me abalando”, diz ao lembrar da rotina agitada que mantinha na Escola Municipal de Dança.


O diretor do Ballet de Londrina, Leonardo Ramos, se conecta com os bailarino por videoconferência com os outros 13 integrantes do grupo
O diretor do Ballet de Londrina, Leonardo Ramos, se conecta com os bailarino por videoconferência com os outros 13 integrantes do grupo | Roberto Custódio
 

 

“Todos os dias eu chegava para trabalhar, ensaiava com o elenco do balé e convivia com o agito provocado por 280 alunos. Fiquei emocionado na primeira vez que vi a sala de ensaios e a escola vazias, pois me lembrei que por aqui passaram várias gerações de bailarinos e nesse mesmo ambiente nasceram diversos espetáculos que rodaram o país”, comenta o diretor do Ballet de Londrina. 



Diante do novo e solitário cenário, mais uma vez o coreógrafo teve que se reinventar. “No início da pandemia a gente parou as atividades imaginando que tudo voltaria ao normal dentro de uns 15 dias. Mas quando percebemos que a situação se prolongaria, buscamos uma forma de manter as atividades físicas para que os bailarinos não tivessem a performance comprometida”, relata. 

A solução encontrada foi continuar os ensaios virtualmente. “Eu fico sozinho na escola de dança e me conecto por meio de videoconferência com os outros 13 integrantes do ballet que estão cada um em sua casa. Dar aulas transmitidas pela internet é muito limitador, pois na dança a gente trabalha muito o coletivo e é imprescindível estar presente para conferir detalhes na maneira como os movimentos estão sendo executados. É muito complicado acompanhar o desempenho dos bailarinos pela tela do celular. Por isso, temos trabalhado apenas questões técnicas que garantam a manutenção do desempenho físico de todos e deixado mais para frente os ensaios das coregrafias do novo espetáculo que estamos montando”, diz. 

Além da questão da distância, Ramos afirma que o espaço físico também atua como um limitador durante os ensaios virtuais. “Quatro dos 13 integrantes moram em apartamentos de 29 metros quadrados, então, não há espaço suficiente para treinar determinados movimentos. E tem ainda o fato de que ao invés de ensaiarmos durante quatro horas de segunda a sexta-feira, como sempre fazemos, tivemos que reduzir esse tempo para duas horas e meia diárias, pois depois de um certo tempo a videoconferência acaba se tornando muito cansativa para todos”, explica. 

Ramos tem esperança de que o período de isolamento chegue ao fim rapidamente. “Estamos aguardando para ver se não haverá aumento dos casos de coronavírus com a semiabertura do comércio. Caso a situação se mantenha estável, estamos pensando em voltar com os ensaios presenciais. Se isso ocorrer, pretendemos dividir o grupo e fazer ensaios com a apenas quatro bailarinos por vez em dias alternados, o que garantiria a distância mínima entre todos”, conclui.  

 

SINFONIA DO SILÊNCIO


A Osuel durante apresentação na abertura do 38º Festival de Música de Londrina: músicos agora fazem encontros virtuais
A Osuel durante apresentação na abertura do 38º Festival de Música de Londrina: músicos agora fazem encontros virtuais | Divulgação
 

  

As atividades da Osuel (Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina) estão suspensas desde que o isolamento social foi adotado para evitar a disseminação do novo coronavírus. As apresentações mensais que aconteciam no Teatro Ouro Verde e os concertos didáticos que fazem parte da programação do grupo não têm data prevista de retorno. Já os ensaios que também estão paralisados podem voltar a ocorrer em breve, de forma virtual.  

“A gente pretende adotar aqui a mesma experiência que tem acontecido com outras orquestras do país. Na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo, onde atuo como assistente do regente, a gente tem feito ensaios virtuais, conferência pela internet para analisar detalhes da performance dos  músicos nas gravações de nossos concertos e conversas sobre o repertório e arranjos das obras executadas”, afirma o maestro Alessando Sangiorgi, regente titular da Osuel. 

Ele acredita que a paralisação causada pelo isolamento social não comprometerá o desempenho dos cerca de 40 instrumentistas que integram a Osuel atualmente. “Antes da pandemia, a gente ensaiava três horas por dia, de segunda a sexta-feira, no Teatro Ouro Verde. Não temos como propor a volta dos ensaios presenciais neste momento pois grande parte dos integrantes da Osuel faz parte de grupos de risco, seja pela idade avançada ou por apresentar comorbidades. Além disso, existem peculiaridades como o fato de quem toca instrumentos de sopro não ter como usar máscara. Mas acredito que todos os integrantes continuam realizando estudos individuais em suas casas neste período, pois nosso trabalho exige um domínio muito grande da capacidade psicomotora. Por isso, a gente não para de se aperfeiçoar treinar nunca”, ressalta. 

Na avaliação do maestro, o hiato provocado pela quarentena pode acabar rendendo bons frutos para o trabalho da Osuel. “Acredito que aqui também aconteça o que mesmo que tem acontecido em São Paulo. As conversas virtuais têm promovido uma interação entre os músicos que eu nunca havia presenciado em 35 anos de profissão. Em meio à correria diária acabamos não tendo tempo para falar com calma sobre detalhes do processo de trabalho e de fazer análise das gravações dos nossos concertos. Isso tudo é muito enriquecedor. Sou da opinião de que as crises geram novas oportunidades”, destaca. 

 À ESPERA DE SÃO JOÃO


Os integrantes da Orquestra Bravi continuam ensaiando de suas casas
Os integrantes da Orquestra Bravi continuam ensaiando de suas casas | Fabio Alcover/Divulgação
 

 

Pioneira no processo de gravação com músicos a distância, a Orquestra Acadêmica Bravi contabiliza cerca de 35 mil visualizações do vídeo que reúne imagens dos 19 integrantes do grupo tocando de suas casas a obra “Two Elegiac Melodies”, do compositor norueguês E. Grieg. “O vídeo lançado no início da quarentena acabou viralizando”, afirma o coordenador musical Jhonatan Santos. 

Ainda isolados, os músicos agora ensaiam para lançar uma das músicas que integram o repertório de um concerto que conta apenas com músicas típicas das festas juninas. “Estamos ensaiando a distância pela internet, mas ainda não sabemos quando iremos lançar um novo vídeo pois esse processo de sincronizar todos os vídeos é bastante trabalhoso e demorado”, explica Santos.



Enquanto aguardam a volta aos palcos, os integrantes da Orquestra Bravi continuam ensaiando de suas casas. “Ensaiar pela internet não é o ideal, mas neste momento é a nossa única alternativa”, conclui o coordenador musical do grupo.  

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Continue lendo


Últimas notícias