Diretor diz que faz "traduções para a tela"
São Paulo, 06 (AE) - Volker Schlondorff fala de Berlim, pelo telefone, com a reportagem da Agência Estado. Diz que é sua primeira entrevista por telefone para o Brasil em 33 anos de carreira, iniciada em 1966 com "O Jovem Torless". Mas acrescenta que se corresponde com amigos brasileiros. Cita Carlos Diegues. Exulta ao saber que "Orfeu", em duas semanas de exibição no País, já passou dos 400 mil espectadores. "Agora que viramos a velha onda, é bom saber que pelo menos um de nós faz sucesso", brinca.
"O Guardião da Floresta" não foi bem de público nem de crítica na Europa. As melhores críticas e as reações mais efusivas do público vieram dos Estados Unidos. Schlondorff fala sobre o filme que adaptou do romance de Michel Tournier, "O Rei da Floresta". Agência Estado - Você tem em seu currículo nada menos de 11 adaptações literárias. Não gosta de trabalhar sobre roteiros originais? Volker Schlondorff - Nunca me ofereceram roteiros originais; talvez me interessassem, mas a verdade é que eu, pessoalmente, não consigo escrevê-los. Já tentei. Uma vez passei diversos anos debruçado sobre um projeto original meu e não consegui concretizá-lo. O roteiro não saía, não criava forma. Gosto das adaptações porque, em geral, já possuem uma estrutura dramática definida. Às vezes posso até mudar essa estrutura para adaptar o filme ao que quero dizer. Pois a verdade é essa. Meus filmes não são meras recriações de livros. São traduções para a tela que expressam a minha visão, não necessariamente a do autor. Isso vale tanto para Gunther Grass, de quem adaptei "O Tambor", como Proust (Um Amor de Swann). Também acho importante destacar que cada filme que adaptei corresponde a um momento meu, tem a ver comigo numa época de minha vida. AE - E o que o livro de Tournier tem a ver? Schlondorff - "O Rei da Floresta" me trouxe de volta às minhas memórias de guerra. Não da época da guerra, diretamente, mas do imediato pós-guerra, quando os alemães enfrentavam uma ressaca moral. Há toda uma tentativa de interpretação do nazismo que diz que foi um movimento de alienação coletiva, que o povo alemão, acostumado a obedecer, foi arrastado por Hitler e seus asseclas. Não é verdade. Era criança (nasci em 1939), mas as minhas lembranças desta época são as de que havia uma grande euforia no ar. O povo alemão abraçou o nazismo com alegria, não obrigado. Foi, aliás, uma das objeções que os críticos alemães me fizeram: disseram "Lá vem esse Volker com essas canções e encenações no nazismo; não sabe quanto é perigoso mexer com velhos fantasmas?" AE - Você recria esse aspecto espetacular do nazismo: a encenação com o fogo, os hinos guerreiros, o culto da juventude geneticamente perfeita. O que você queria mostrar - o perigo da sedução do totalitarismo? Schlondorff - A idéia é justamente mostrar que o totalitarismo não tem de ser necessariamente horrível. O mundo não se divide em bem e mal. É mais complexo que isso. O totalitarismo pode ter
e na maioria dos casos tem, um aspecto sedutor muito forte. De outra maneira não se explicaria o fundamentalismo, seja ele alemão ou árabe. AE - O protagonista, Abel, não é um herói. Schlondorff - Não queria, sob hipótese alguma, contar a história de um herói de guerra. Pelo contrário, a história de Abel Tiffauges é a de um gigante simples, um ogro faminto por amor, com pouca visão, embora visionário. Abel não cresceu. Seu traço mais característico é a imaturidade. Foi isso que me atraiu. AE - Você fala em história, mas o livro não tem uma estrutura muito clara, muito definida. Como trabalhou com o roteirista Jean-Claude Carrire? Schlondorff - Jean-Claude é um parceiro fiel desde "O Tambor". Trabalhei com ele como sempre: deixando que ele criasse a estrutura dramática. Jean-Claude é perfeito nisso, veja o que ele fez com a adaptação de Milan Kundera (A Insustentável Leveza do Ser). Ninguém, como ele, sabe pegar um material disperso e dar-lhe uma unidade. AE - Encontrei no arquivo do meu jornal uma entrevista de Tournier em que ele diz que, se um dia ele fosse adaptado para a tela, gostaria que o diretor fosse Sergio Leone. O que você acha disso? Schlondorff - Vou ligar hoje mesmo para ele (rindo). O traidor sempre disse que eu era seu diretor preferido neste projeto. AE - No Brasil, o filme se chama "O Guardião da Floresta" (o título original é O Ogro). Schlondorff - Prefiro o título brasileiro. Não sabia que era este. Invoca o culto da floresta, que é importante em Tournier e na cultura alemã. A alma alemã, carregada de romantismo, cultua a floresta por seus aspectos místicos e sobrenaturais. (L.C.M.)





