Diretor defende cota de produções nacionais
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de maio de 2008
Keila Jimenez<br>Agência Estado 
Em uma parede de sua produtora, a Lereby como a Let it Be dos Beatles pôsteres de blockbusters da Globo Filmes, que ele dirige. Em outra, espelhos se intercalam com dezenas de fotos de musas do cinema nacional e da TV. Daniel surge dando ordens, abrindo pacotes. Comprou um livro e dois DVDs durante o almoço. Quer logo começar a entrevista. Odeia posar para fotos, avisa.
Abre a conversa sem esperar por pergunta alguma, empolgado com sua volta à TV. Com Mudando de Conversa, (sábado, às 20h), programa de entrevistas que estreou recentemente no Canal Brasil, quebra um jejum de oito anos da TV. Atração que ele criou, produziu e em que dá toques de direção ao lado da amiga Maria Lúcia Rangel.
Em foco, personalidades de ponta, sempre em dupla, conversam sobre os mais variados assuntos. É um papo sincero entre pensadores modernos, define Daniel, já justificando que não há um comandante na atração.
Fama de mau, de conquistador, de trator... Tudo isso desaparece no terceiro minuto de conversa. Como bom diretor, Daniel Filho é divertido e gentil ao tentar conduzir um papo que muito lhe interessa.
Como surgiu a idéia do Mudando de Conversa?
A culpa é minha. Fui fazer um piloto nos extras do DVD do Primo Basílio e pensei em fazer algo diferente. Como eu e Glorinha (Pires) tínhamos trabalhado muito tempo juntos, me ocorreu que havia várias histórias que a gente nunca resolveu direito. Aí pensei em um papo entre nós em que cada um levasse oito perguntas. Sem um saber o que o outro iria perguntar, claro. Ficou legal e pensei: Isso daqui dá um programa. Fiz também o mesmo com o Wilker e a Sonia Braga para testar. Saiu uma coisa mais engraçada ainda. Pronto, temos um programa.
E você dirige sozinho o programa?
Não, a idéia é minha, sou responsável pela narrativa visual, faço as cabeças das entrevistas, mas chamei a Maria Lúcia Rangel para dirigir. Precisava de alguém com experiência jornalística para saber como tirar de um papo quase furado, que não tem ninguém ativando, algo bacana. O que torna o programa legal é que ninguém está tentando arrancar nada bombástico. O camarada não é obrigado a dizer nada que vá mudar o mundo, nem que será citado em sua lápide (risos). São pessoas com muito conteúdo, o que elas têm a dizer sempre interessa.
Falta dinheiro para produção independente na TV brasileira?
Falta. Antes de colocar o programa no ar, consegui uma liberação de ICMS para a produção. Posso receber um dinheiro de pessoas que pagam ICMS e que queiram investir no programa. Mas ninguém declara que paga isso (risos). Fui então bater na porta dos canais. O Multishow não tinha o perfil, e a verba era pouca. Prefiro não aceitar quando é assim. Eu mesmo banco. Tanto é que estou retirando meus filmes, Cazuza, A Partilha, de circulação, os contratos (com as emissoras de TV) estão vencendo e não estou renovando. Não compensa. Vou ver no que dá. As coisas estão mudando tanto, quem sabe eu vendo melhor para a turma do telefone que vem por aí? (risos)
Mas mesmo assim continua acreditando na produção independente?
Sou um apaixonando por produção, por cinema, por televisão. Eu deveria ficar afastado da TV, até tento, mas não quero. Quero ainda fazer uma segunda fase do Confissões de Adolescente, mas tudo depende de como o projeto será aceito pelo mercado, patrocinadores...
Você acha desleal a concorrência das séries norte-americanas e enlatados com a produção nacional?
Elas sempre existiram. Quando a gente fez Malu Mulher, Plantão de Polícia, Carga Pesada, quem estava no auge era o Kojak, o Hawaii 5.0, eram o 24 Horas da época. Agora só vejo as pessoas falarem de Sexy and the City... Não acho uma competição forte. As pessoas de TV estão entregando o jogo. Brasileiro gosta de ver brasileiro na TV, programas em português. Se for bem-feito, dá certo. Não quer dizer que você não queira ver Piratas do Caribe. Mas se for produção nacional bem-feita, ganha, ganha e ganha (bate com a mão na mesa).
Você é a favor de cota de produção nacional da TV paga?
Para os estrangeiros, sim. É canal fechado, utilizando dinheiro daqui. Eles têm de deixar algum dinheiro aqui. Tomara que haja pessoas competentes para essa abertura de mercado. Gosto dos franceses. Eles não deixam a grana sair de lá por nada. Nem dizem o nome do camarada direito, é em francês e ponto (risos).
Por que você ficou fora da TV por tanto tempo?
Fiquei porque estava em um período de geladeira, o tempo que eu não podia fazer TV. Parece que esse período acaba em junho.
Seu contrato prevê que não pode fazer TV?
Sou contratado para ser diretor da Globo Filmes, então não posso fazer nem dirigir programas em TV alguma.
E essa cláusula acaba em junho?
Não, a cláusula acaba em 2009, quando acaba meu contrato; em junho acaba a pessoa que me pôs na geladeira (risos).
E quem é?
A pessoa (não revela) sai do poder e a geladeira abre. Mas não volto para a TV Globo...
Em junho então volto para fazer uma matéria sobre seu retorno como diretor na TV aberta?
Aí você volta e me pergunta: É realmente obsceno o dinheiro que estão te pagando na TV? E eu direi: Sim, mas não estarei declarando no imposto de renda (risos).


