Diretor de "Boleiros" mergulha na vida de São Paulo com "O Príncipe"
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quarta-feira, 15 de setembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 16 (AE) - Há quem o acuse de ser paulista demais. Pois Ugo Giorgetti prepara-se para um mergulho ainda mais profundo em São Paulo. O cineasta consagrado de "Festa", "Sábado" e "Boleiros", todos premiados pela Associação Paulista de Críticos de Arte (os dois primeiros na categoria de melhor direção, o terceiro, como melhor roteiro), busca recursos para seu novo filme. Chama-se "O Príncipe". Não tem nada a ver com Maquiavel, mas não ignora o clássico da ciência política que a maioria das pessoas cita de ouvir falar (é um dos livros mais comentados e menos lidos de todos os tempos). "Há uma piada sobre o assunto", diz Giorgetti.
Se dependesse de Giorgetti, ele começaria a filmar agora. Mas ainda está na difícil fase da captação. O mercado não está fácil, reconhece o diretor. Definindo-se como um tanto cético, ele inicia o corpo-a-corpo, que vai de agora até o fim do ano, quando as empresas definem o imposto a pagar e podem fazer seus investimentos na área cultural, por meio da renúncia fiscal. Giorgetti já tem um investidor definido. É a agência W Brasil, que participa da produção por meio da Lei Mendonça.
Giorgetti pode captar até R$ 500 mil por meio da Lei Mendonça. Mas ele explica: "É uma captação mensal, por meio da retenção de 20% do ISS devido." É um valor que oscila e há meses em que ele até não capta nada. O grosso da captação virá por meio da Lei do Audiovisual. "O Príncipe" está inscrito e aprovado na lei, mas Giorgetti ainda não captou nada. "São tempos difíceis", avalia. Ele sentiu uma facilidade maior na época da captação de "Boleiros", mas reconhece que, lá, o tema do futebol favorecia a adesão ao projeto. Pela Lei do Audiovisual, Giorgetti poderá captar até R$ 2,4 milhões. O orçamento total do filme é de R$ 2,7 milhões.
Não é preciso ser fã de carteirinha de Giorgetti para reconhecer as qualidades do seu cinema: é um hábil dialoguista, um seguro diretor de atores e um narrador conciso. Não são virtudes pequenas. Ele tentará exercitá-las novamente em "O Príncipe". É a história de um intelectual brasileiro que volta ao País depois de viver 20 anos em Paris. Ele vem para ver um sobrinho que enlouqueceu. Encontra a cidade de São Paulo e o País, como um todo, mudados. Reencontra as pessoas sem identificar os amigos do peito do passado. "Será um filme sobre a memória", define Giorgetti.
Ele promete viajar por uma São Paulo que não existe mais
mas anuncia que o filme não terá imagens de arquivo. "Não há um flash-back sequer." O passado é referido verbalmente. Locais importantes na geografia da cidade nos anos 70 serão lembrados por meio de diálogos: o cine Coral, no centro da cidade, que virou loja; a livraria Partenon, que sumiu.
A intenção é ver as coisas pelos olhos desse cara que vem de fora para tornar mais violento o choque das mudanças ocorridas nas últimas duas décadas. Embora tenha sido aluno de Fernando Henrique Cardoso durante dois meses na Filosofia, Giorgetti nega que o príncipe do título seja uma referência ao presidente. "Apesar de sua atitude principesca, até mais naquela época, não tem nada a ver", conta.
Há uma brincadeira assumida com o príncipe de Maquiavel, mas Giorgetti acha que a ironia maior é com o próprio protagonista - um sujeito que se destacava por sua inteligência, charme e beleza e vira um desterrado, sem renda nem nada. Será, até por causa disso, um filme crítico sobre a realidade nacional. Um motivo a mais para dificultar a captação: os investidores, em geral, preferem filmes menos comprometidos, socialmente.
Se conseguir captar o dinheiro na virada do ano, Giorgetti espera rodar em abril do ano que vem. Ainda não definiu o ator que fará o protagonista. Diz que é a última coisa em que vai pensar, quando já estiver com o problema do orçamento acertado. "Não dá para acertar com um ator sem saber quando vou rodar; quem garante que, na época, ele não estará comprometido com uma peça ou novela?" Cita o caso de Sábado. Ele já tinha contrato e tudo com Irene Ravache, mas quando o filme foi feito a mulher do elevador foi Interpretada, muito bem, aliás, por Maria Padilha.
Para o cineasta paulistano por excelência, "O Príncipe" não deixa de ser uma forma de observar a deterioração urbana de São Paulo. "Será um filme sobre uma cidade que não existia, porque feita de memória, e que não existe mais em lugar nenhum." Dito assim, parece nostálgico e triste, mas Giorgetti garante que não é. Quem conhece seus filmes anteriores sabe que o humor cortante é uma das características do diretor, mesmo que
num filme como "Boleiros", seja colocada a serviço de uma reflexão sobre o tempo, que volta agora como matéria-prima de "O Príncipe".
Interessados em participar do projeto devem contatar a produtora SP Filmes pelos fones (11) 815-8396 e 815-8432.


