São Paulo, 26 (AE0 - Nove da noite em Paris. Erick Zonca conversa pelo telefone com a reportagem da AGÊNCIA ESTADO. O assunto é seu filme "A Vida Sonhada dos Anjos", que estréia amanhã em São Paulo, depois de integrar a 1ª Mostra do Cinema Francês, em julho. De onde surgiu a inspiração para o relato sobre as duas amigas que vivem vidas paralelas e, às vezes, conflitantes em Lille? "Da vida", responde o diretor. Foi um filme que ele fez baseado no seu conhecimento sobre as pessoas. "Coloquei em cena tudo o que aprendi observando o mundo, as pessoas."
Ele se define, por princípio, como um observador. "Gosto de olhar o que se passa ao meu redor; é uma fonte permanente de inspiração", ele diz. Pergunta inevitável é sobre as atrizes do filme: Élodie Bouchez e Natacha Régnier, tão boas que dividiram o prêmio de interpretação feminina no Festival de Cannes do ano passado.
Zonca admite que esteve sempre de olho em Élodie. Queria filmar com ela desde que a viu em Rosas Selvagens, de André Techiné. "Ela tem um aspecto meio selvagem, a frágil que, de repente, pode ser uma forte", define. Some-se a isso um dado que, aos outros, talvez não pareça importante, mas para ele foi fundamental. "Recebi um prêmio de curta-metragem pelo filme Éternelles e foi Élodie quem me entregou o troféu." Ela virou para ele um símbolo de sorte, um talismã.
Mas não foi fácil convencer a atriz a assumir o projeto. "Disse-lhe que precisava dela, da sua generosidade, do seu brilho, mas havia um problema: Élodie não gostava de sua personagem, Isa." Foi todo um trabalho paciente de convencimento da atriz que, no fim, comprometeu-se a fazer o filme. Ficava faltando a intérprete de Marie. "Testei muitas atrizes", conta Zonca. O roteiro previa uma personagem morena, de olhos doentios. Zonca procurava e não achava a atriz para o papel. Um dia cruzou com Natacha. "Ela era o oposto do que eu havia escrito: loira de olhos claros." Mas ele sentiu que ela poderia ser a Marie perfeita. Por que não tentar?
Não se arrepende. O prêmio em Cannes foi o primeiro de uma série de reconhecimentos que "A Vida Sonhada dos Anjos" obteve. Na França, teve apoio do público e críticas ótimas. "Só Libé (o jornal "Libération") não gostou", diz o diretor. E a tradicional Cahiers du Cinéma? "Gostou médio, o que, vindo deles, é um cumprimento", acrescenta.
Dois destinos - Por que Isa e Marie? "Porque elas são as representantes francesas de uma juventude sem amanhã", diz Zonca. Há muitas como elas na vida. "Isa, com seu jogo de cintura para sobreviver num ambiente hostil; Marie, mais soturna
com a sua dificuldade de adaptação." Foi assim que elas foram surgindo e desenvolvendo-se no roteiro escrito pelo diretor, em parceria com Roger Bohbot. No filme, há um crédito de colaboração artística para Virgine Wagon. "Sua ajuda foi inestimável", diz Zonca. Isa e Marie seguem destinos opostos no desfecho. Para uma, é o fim do caminho. A outra, adapta-se. O filme termina com a personagem numa fábrica, uma entre incontáveis funcionárias que executam tarefas mecânicas. "É uma imagem triste e, ao mesmo tempo, bela", diz Zonca. "Ela perde em liberdade, mas ganha em responsabilidade, em cidadania; torna-se mais madura."
É um filme sobre o difícil caminho para a maturidade e a mais difícil ainda perda das ilusões. No começo, o espectador pode pensar num Eric Rohmer mais com o pé no chão. Encontros fortuitos, amizades, um vaivém da câmera, uma certa idéia do acaso regendo os destinos individuais. Mas Rohmer é logo esquecido. A fonte de referência é outra. "Meu mestre assumido é Maurice Pialat", diz o cineasta. É fácil entender o porquê.
Com Pialat, Zonca compartilha o gosto por um cinema de embates físicos, de corpos que se desgastam no duro exercício da vida cotidiana. "Um cinema onde há uma certa violência, uma violência real que oprime e brutaliza as pessoas", ele acrescenta. Tudo isso é colocado na tela com inteligência e capacidade de observação. Como Zonca diz, ele conhece aquelas pessoas. Fredo, o gordo, era um personagem que obcecava o diretor desde os seus tempos de curta-metragista.
"Queria fazer um filme com aquele personagem; o filme não saía, mas eu o guardei e agora consegui colocar em cena." O novo filme chama-se Le Petit Voleur e foi feito para a rede de TV Arté, que deve exibi-lo em janeiro ou fevereiro. De novo um olhar sobre personagens um tanto marginalizados. Filmes com poucos personagens, com pequenas equipes. "É melhor; o entrosamento é maior e a possibilidade de sermos mais densos, também", resume Zonca.

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