Direto para as locadoras
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de abril de 1998
Luiz Zanin Oricchio Agência Estado 
ReproduçãoSpike Lee transforma passeata em filme que as distribuidoras não acreditam que faça sucesso no cinemaJá está tornando-se um triste hábito. Filmes de diretores famosos, como Spike Lee, acabam sendo lançados diretamente em vídeo porque as distribuidoras não acreditam que tenham público para o cinema. Lee, o mais badalado dos diretores negros dos Estados Unidos, já tivera seu Crooklyn Uma Família de Pernas para o Ar colocado nas locadoras. Agora é a vez de Todos a Bordo, outra obra marcadamente política do cineasta a ir diretamente para o vídeo.
Spike Lee estava em casa, doente, quando ouviu falar da convocação do líder religioso Louis Farrakhan para que os homens negros do país participassem de uma passeata que deveria reunir 1 milhão de pessoas em Washington. O cineasta não foi à capital, mas resolveu transformar o ato em tema do seu filme seguinte. O resultado é um estranho road movie, com 15 homens rumando de Los Angeles a Washington para participar de uma manifestação em defesa de direitos civis e, no meio do caminho, discutindo seus problemas pessoais, existenciais e políticos.
Um espaço fechado como microcosmo social: a idéia é antiga, mas sempre funciona. Já foi explorada pela genialidade de John Ford em No Tempo das Diligências, obra-prima depois citada por Ettore Scola em Casanova e a Revolução. Lee também coloca seus heróis anônimos no espaço fechado de um ônibus para mostrar a diversidade humana que existe, mesmo em condições nas quais se poderia esperar pela unanimidade, ou seja, numa marcha por direitos comuns a todos eles.
Em seu ônibus há estranhas figuras. Pai e filho que seguem algemados um ao outro por determinação judicial; um aposentado idoso, alto-astral e levemente desbocado; um policial mulato, que se assume como negro, mas é discriminado por outro passageiro; um candidato a ator, belicoso e neurótico; um casal gay que desperta a simpatia de uns e o preconceito de outros. A certa altura do percurso entra em cena outra figura, o motorista branco e judeu, que servirá de contraponto racial no interior do veículo. Lee gosta desses confrontos. É só lembrar da turma ítalo-americana da pizzaria em Faça a Coisa Certa, até agora seu trabalho mais vigoroso.
Todos a Bordo é um filme político por excelência, ou seja, visa a discutir temas controversos em termos das múltiplas relações de poder que costuram o tecido social: com as mulheres, com os brancos, com a autoridade. Analisa também até que ponto certo grau de confronto pode ser construtivo para uma sociedade multirracial. Isso significa que se trata de cinema falado. Defeito? Depende. A Chinesa, de Jean-Luc Godard, pode ser considerada uma obra verborrágica. Mas quem negará a ela pelo menos o adjetivo de instigante? Paulo Emílio Salles Gomes dizia que, para apreciar A Chinesa, era preciso, primeiro, gostar de falar muito e, segundo, interessar-se por política.
Não é muito diferente com Todos a Bordo. Pede-se que o espectador tenha certa empatia com o tema do conflito racial nas sociedades ditas desenvolvidas. E sua curiosidade supere o desejo de entretenimento imediato que em geral guia quem procura uma fita na locadora. Vale a pena tentar. O filme desenvolve seus temas de maneira adulta e o espectador poderá ficar surpreso com a pouca complacência de Lee para com seus companheiros de luta. Isso porque é um artista lúcido, rigoroso e pouco chegado ao bom-mocismo, qualidades pouco comuns no mercado cinematográfico.


