ReproduçãoSpike Lee transforma passeata em filme que as distribuidoras não acreditam que faça sucesso no cinemaJá está tornando-se um triste hábito. Filmes de diretores famosos, como Spike Lee, acabam sendo lançados diretamente em vídeo porque as distribuidoras não acreditam que tenham público para o cinema. Lee, o mais badalado dos diretores negros dos Estados Unidos, já tivera seu ‘‘Crooklyn Uma Família de Pernas para o Ar’’ colocado nas locadoras. Agora é a vez de ‘‘Todos a Bordo’’, outra obra marcadamente política do cineasta a ir diretamente para o vídeo.
Spike Lee estava em casa, doente, quando ouviu falar da convocação do líder religioso Louis Farrakhan para que os homens negros do país participassem de uma passeata que deveria reunir 1 milhão de pessoas em Washington. O cineasta não foi à capital, mas resolveu transformar o ato em tema do seu filme seguinte. O resultado é um estranho road movie, com 15 homens rumando de Los Angeles a Washington para participar de uma manifestação em defesa de direitos civis e, no meio do caminho, discutindo seus problemas pessoais, existenciais e políticos.
Um espaço fechado como microcosmo social: a idéia é antiga, mas sempre funciona. Já foi explorada pela genialidade de John Ford em ‘‘No Tempo das Diligências’’, obra-prima depois citada por Ettore Scola em ‘‘Casanova’’ e a ‘‘Revolução’’. Lee também coloca seus heróis anônimos no espaço fechado de um ônibus para mostrar a diversidade humana que existe, mesmo em condições nas quais se poderia esperar pela unanimidade, ou seja, numa marcha por direitos comuns a todos eles.
Em seu ônibus há estranhas figuras. Pai e filho que seguem algemados um ao outro por determinação judicial; um aposentado idoso, alto-astral e levemente desbocado; um policial mulato, que se assume como negro, mas é discriminado por outro passageiro; um candidato a ator, belicoso e neurótico; um casal gay que desperta a simpatia de uns e o preconceito de outros. A certa altura do percurso entra em cena outra figura, o motorista branco e judeu, que servirá de contraponto racial no interior do veículo. Lee gosta desses confrontos. É só lembrar da turma ítalo-americana da pizzaria em ‘‘Faça a Coisa Certa’’, até agora seu trabalho mais vigoroso.
‘‘Todos a Bordo’’ é um filme político por excelência, ou seja, visa a discutir temas controversos em termos das múltiplas relações de poder que costuram o tecido social: com as mulheres, com os brancos, com a autoridade. Analisa também até que ponto certo grau de confronto pode ser construtivo para uma sociedade multirracial. Isso significa que se trata de cinema falado. Defeito? Depende. ‘‘A Chinesa’’, de Jean-Luc Godard, pode ser considerada uma obra verborrágica. Mas quem negará a ela pelo menos o adjetivo de instigante? Paulo Emílio Salles Gomes dizia que, para apreciar ‘‘A Chinesa’’, era preciso, primeiro, gostar de falar muito e, segundo, interessar-se por política.
Não é muito diferente com ‘‘Todos a Bordo’’. Pede-se que o espectador tenha certa empatia com o tema do conflito racial nas sociedades ditas desenvolvidas. E sua curiosidade supere o desejo de entretenimento imediato que em geral guia quem procura uma fita na locadora. Vale a pena tentar. O filme desenvolve seus temas de maneira adulta e o espectador poderá ficar surpreso com a pouca complacência de Lee para com seus companheiros de luta. Isso porque é um artista lúcido, rigoroso e pouco chegado ao bom-mocismo, qualidades pouco comuns no mercado cinematográfico.

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