Arquivo FolhaO disco mostra um certo Tom Jobim sem estilo musical definidoPara homenagear Antonio Carlos Jobim (1927-1994) no ano em que ele completaria 70 anos, a gravadora Revivendo opta por resgatar o lado mais obscuro do maestro, compositor e cantor que co-inventou a bossa nova no final dos anos 50. ‘‘Meus Primeiros Passos e Compassos’’ reúne o que a gravadora afirma serem as 23 primeiras gravações de canções compostas pelo artista, antes da explosão da bossa.
O próprio Jobim só aparece como arranjador e/ou acompanhante, ofícios que de início ele exercia, ainda incógnito, em gravadoras como a Continental, ainda dominadas pelos medalhões da canção popular tradicional. O produto é prova documental de que, não só pela atividade de compositor que ele começava a exercer, fermentavam-se, desde o início dos anos 50, os fundamentos que comporiam logo depois a bossa nova.
Assim, o CD apresenta canções de Jobim -já com parceiros que seriam habituais (Vinicius de Moraes, Billy Blanco, Newton Mendonça, Luiz Bonfá) e com outros nem tanto - em vozes como as de Nora Ney, Dick Farney, Lúcio Alves, Sílvia Telles e Dóris Monteiro, todos expoentes do momento pré-bossa nova.
Essas eram as vozes que fixavam um novo modelo de interpretação, que recusava o arrebatamento e o exagero das grandes vozes de outrora - Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Silvio Caldas, Isaura Garcia, entre outros - agora sob a inspiração alienígena de Frank Sinatra e quetais.
Momentos como ‘‘Tereza da Praia’’ (1954), bossa-repente com Lúcio Alves e Dick Farney, flagram vozes masculinas que poucos até hoje superaram no Brasil, e que Tom bem soube captar para a nova fase que se abria.
Antologias e desastresHá também o inusitado. Antes da fama e da bossa, Tom foi cantado por sumidades da velha canção sobre a qual já se armava a tempestade da revolução. A rainha do kitsch Angela Maria canta ‘‘A Chuva Caiu’’ (de 1956), a então hegemônica Dalva de Oliveira interpreta ‘‘Teu Castigo’’, emblemas da velha guarda como Elizete Cardoso, Emilinha Borba e Jorge Goulart participam do monumento à grandiloquência que é a desastrada ‘‘Sinfonia do Rio de Janeiro’’ (1954), parceria com Billy Blanco que se prolonga por 16 minutos.
Alguns momentos são antológicos, como o quarteto de canções interpretadas por Roberto Paiva para a peça teatral ‘‘Orfeu da Conceição’’ (1956) - os sambas pouco conhecidos ‘‘Eu e o Meu Amor’’, ‘‘Mulher Sempre Mulher’’ e ‘‘Lamento no Morro’’ e a hoje clássica ‘‘Se Todos Fossem Iguais a Voc꒒. De voz que parecia só estar esperando a chegada de João Gilberto, Paiva é dos nomes do meio-termo entre velha guarda e bossa nova que os anos foram apagando e o CD da Revivendo ajuda a salvaguardar - Mauricy Moura, Ernani Filho, Dora Lopes, Cláudia Morena, entre outros
Esdrúxulo, o CD recupera composições de quando a música ainda era popular, feita para o morro, à adoração massiva dirigida a ídolos como Marlene, Emilinha, Nelson Gonçalves ou Cauby Peixoto. Tom procurava se inserir nesse contexto, compondo sambas de fato, que no entanto já destoavam da humildade do gênero. Só quando, depois, assumiu para si a missão de deslocar a canção popular aos domínios da classe média, Tom Jobim mostrou a que vinha. Aí, embora não se soubesse, a MPB já havia virado establishment.

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