Garotas direitas não posavam nuas no começo dos anos 50. Quando se soube que a estrela em ascensão Marilyn Monroe, contratada pela 20th Century Fox, eternizara seu corpo nu sobre veludo vermelho numa série de fotos tiradas por Tom Kelley, o mundo caiu. Essas fotos nunca mais deixaram de criar polêmica e, no próximo dia 22, uma quinta-feira, serão leiloadas no site eBay (www.ebay.com) pelo filho de Kelley.
Na verdade o que vai ser leiloado é o contrato padrão que ela assinou em 1949, cedendo os direitos de uso das fotos. Para Kelley Jr., de 50 anos e também fotógrafo, quem arrematá-lo vai poder usar as fotos como quiser, para qualquer fim comercial ou não. Porém, os detentores dos direitos de imagem de Marilyn Monroe dizem que isso violará seus direitos e que irão contestar a propriedade nos tribunais.
O site eBay vai realizar o leilão via Internet e simultaneamente com um leilão tradicional em Los Angeles. A empresa espera que a venda atinja níveis semelhantes aos das mais altas do gênero. Gente especializada no assunto diz que as ‘‘fotos do veludo vermelho’’ e o contrato assinado por Marilyn (que usou o nome Mona Monroe) valem pelo menos US$ 700 mil.
Mas a CMG Worldwide Inc., que nos últimos sete anos representou o espólio de Marilyn e vetou produtos como as camisinhas Marilyn Monroe, planeja uma ação legal para impedir qualquer uso comercial das fotos.
A CMG está protegendo seu lucrativo uso da imagem de Marilyn; a empresa representa também celebridades como Sophia Loren e a falecida princesa Diana. Marilyn, que não teve filhos, deixou o uso de seu nome e imagem para seu professor de interpretação Lee Strasberg e para o instituto psiquiátrico Anna Freud Center, de Londres. A viúva de Strasberg e a instituição continuam a deter os direitos. Por meio da CMG licenciaram nome e imagem da atriz para empresas como a General Motors, a companhia aérea Iberia e os cartões Hallmark. A briga promete ser boa.
Na época das fotos, Marilyn tinha 23 anos e achava que estava ficando para trás. Afinal, Elizabeth Taylor, com apenas 19, era uma grande estrela. Resolveu apostar as fichas num agente, Johnny Hyde, que explorou os 30 segundos que ela aparecera no filme ‘‘Loucos de Amor’’ para lançá-la como símbolo sexual. No filme, desfilando sua porção popozuda, ela passa por Groucho Marx, que a olha da maneira mais safada possível e pergunta: ‘‘Qual é o problema?’’. A resposta: ‘‘Não sei por que, mas os homens insistem em me seguir o tempo todo’’.
Hyde sabia do que falava quando disse a Marilyn que ela seria uma grande estrela: Lana Turner fora descoberta sua e ele administrava as carreiras de Rita Hayworth, Esther Williams e Betty Hutton. Teve um caso com Marilyn e conseguiu para ela um contrato de sete anos com a Fox, por US$ 750 semanais.
Era uma fortuna para a estrelinha que pouco antes concordara em ser fotografada nua por Tom Kelley, que fazia um calendário de garotas bonitas e desinibidas para a gráfica Western Litograph, por US$ 50, dinheiro que ela precisava para pagar a prestação de um carro. Kelley disse ao biógrafo de Marilyn, Maurice Zolotow, que ela era ‘‘tão graciosa como uma lontra, movendo-se sinuosamente com total naturalidade. A sua timidez desapareceu no mesmo momento em que despiu suas roupas’’.
Segundo ele, Marilyn Monroe ‘‘tem mais vibrações sexuais do que qualquer outra mulher que já fotografei’’.
Certamente, Marilyn pensou que posaria para Kelley, o calendário sairia e ponto final. Porém, três anos depois, o escândalo explodiu. Marilyn estava à beira do estrelato, fazendo o filme ‘‘O Inventor da Mocidade’’, ainda como coadjuvante. Executivos da Fox entraram em pânico quando a história do calendário veio a público em 1952.
Falaram em cancelar o contrato dela e retirar de cartaz o filme ‘‘Só a Mulher Peca’’, em que ela aparecia. Procurada pelos repórteres, a atriz caiu em prantos e disse que só fizera as fotos porque precisava do dinheiro para pagar o aluguel. Com a boa interpretação de Marilyn, a história triste pegou e acabou se transformando em publicidade positiva.
Enquanto isso, o calendário era disputado a tapa. Na verdade, a história da jovem pobre forçada a posar nua foi armada por seu amigo relações-públicas Sidney Skolsky, agentes de publicidade do estúdio e uma repórter da United Press, Aline Mosby, a primeira a divulgar as declarações de Marilyn.
Logo o calendário estava em toda a parte, as ‘‘fotos do veludo vermelho’’ impressas em bandejas de coquetel e em copos. Sua imagem pelada se tornara uma ‘‘instituição nacional’’, exatamente o que ela dissera não querer.
No começo de 1953, um dono de uma loja de máquinas fotográficas foi preso por ter pendurado o calendário na vitrine, onde garotos se juntavam para vê-lo. Os Estados da Geórgia e da Pensilvânia proibiram o calendário. Marilyn agradeceu publicamente as autoridades, mas a folhinha reapareceu, embrulhada em renda preta.
Três anos mais tarde, como as vendas não paravam, os correios americanos declararam-no obsceno. Entretanto, em dezembro de 1953, uma das fotos - comprada por US$ 500 por um jovem desconhecido, ex-redator da Esquire, chamado Hugh Hefner - surgiu nas páginas do primeiro número de sua revista Playboy. Marilyn também aparecia na capa, vestida. Dentro, em todo o esplendor de sua nudez, ela era a primeira Playmate do Mês (na época, Namoradinha do Mês).
Mais do que o calendário, com o sucesso de Playboy Marilyn se tornou o símbolo sexual americano por excelência e a imagem de seu corpo sinuoso sobre o fundo de veludo vermelho foi um ícone da revolução sexual que estava chegando. Somando mais valor às imagens que vão a leilão no dia 22 deste mês.

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