A atriz Dina Sfat (1938-1989) já havia sido homemageada com uma exposição fotográfica. A mostra reconstituía sua trajetória através de imagens reunindo cenas de filmes, interpretações na TV, capas de revistas e até figurinos usados em seu último espetáculo no teatro. Instalados em Curitiba, em 1998, os painéis iconográficos percorreram posteriormente diversas cidades brasileiras enfatizando o princípio de valorização e preservação da memória cultural do País.
A tarefa do curador e produtor da exposição, Antonio Gilberto, ganha agora a perenidade do livro com o lançamento do álbum ''Dina Sfat Retratos de uma Guerreira''. O volume faz parte da Coleção Aplauso, publicada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo sob coordenação do crítico de cinema Rubens Ewald Filho. A coleção já conta mais de 50 títulos em catálogo abrangendo perfis, depoimentos, pesquisas históricas, roteiros cinematográficos e registros iconográficos.
Os lançamentos chegam às prateleiras em pacotes semestrais. O novo lote traz 14 volumes divididos entre as séries ''Perfil'', ''Cinema Brasil'' e ''Teatro Brasil''. O livro dedicado a Dina Sfat integra a série ''Especial'', que se diferencia pelo formato grande de suas edições, já que a maioria dos livros tem tamanho ''de bolso''. Dina ressurge em fotos pessoais de infância, em flagrantes de suas atuações profissionais e em entrevistas para diversas publicações.
Notem a atualidade de um depoimento que ela concedeu em 1980: ''Eu adoro uma frasezinha que o Millôr Fernandes soltou no meio de uma entrevista e que vivo citando: 'A gente tem de criar uma ética mínima, senão acabaremos todos batedores de carteira'. E é isso que está acontecendo no Brasil atualmente. As pessoas roubam, humilham, chantageiam, torturam com cara-de-pau, sem-vergonhice, porque não está existindo um código mínimo de decência. Hoje, as pessoas não se dão mais ao trabalho de justificar suas mentiras, e eu acho isso totalmente degradante e pernicioso''.
Em outro depoimento compilado para o livro, a atriz exalta as virtudes de seu ofício: ''É a sociedade do Ocidente que condena uma pessoa pela idade dela. Na minha profissão, a gente trabalha com todos os elementos da infância, da adolescência, da juventude e da velhice. Quando chega a velhice, a gente conhece porque estudou personagens velhos. É a única profissão em que o velho, o muito jovem, o maduro, podem conviver com essa harmonia. Você pega qualquer texto de dramaturgia e não existe o velho sem o novo, sempre um está em referência ao outro. É essa profissão que salva a gente. Então a gente pode dizer que tem 40 anos numa boa, porque as melhores personagens femininas são personagens maduras. Os grandes autores escreviam diretamente para as atrizes que admiravam. Para elas seram admiráveis, já tinham de ter 20, 30 anos de profissão. Então, grandes personagens femininas foram feitas por mulheres de 40, 50, 60 anos. Não é uma profissão maravilhosa?''.
Diferentemente do que muitos pensam, a carreira de Dina Sfat não começou na televisão, mas no teatro, em 1962. Aliás, no ano de sua estréia no palco, ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival Estadual de Estudantes, em Campinas, como protagonista da peça ''Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não'', de Bertolt Brecht. Como profissional, estreou ao lado de Ruth Escobar no espetáculo ''Antígone América'', baseada na tragédia de Sófocles.
A peça, de autoria de Carlos Eduardo Escobar, tinha direção de Antonio Abujamra. Depois trabalhou no Teatro de Arena atuando como atriz ou produtora em mais de 20 montagens, entre elas ''Eles Não Usam Black-Tie'', ''Arena Conta Zumbi'', ''Hedda Gabler'' e ''A Irresistível Aventura''. Em outro depoimento garimpado para o volume, o crítico Yan Michalski ressalta uma qualidade rara da atriz: a auto-exigência.
''Como nenhuma outra de nossas atrizes, parece-me que ela, sempre, mas sempre mesmo, só se interessou em participar, no palco, de realizações que tivessem ambição, que fossem autênticas propostas, quer num sentido ideológico ou artístico, quer pela concepção de encenação ou pela importância do texto, ou ainda pelo desafio que o papel podia colocar diante dela como intérprete. Pelo menos de memória, não localizo um só trabalho seu que fosse mero exercício de artesanato ou, muito menos ainda, uma mera concessão comercial. Nesse sentido, a sua carreira, lucidamente construída, me parece exemplar: ela revela uma opção ética diante do teatro, uma atitude de respeito para com o teatro, que causa a mais incondicional admiração''.
Dina protagonizou vários personagens também no cinema. Fez 19 filmes, entre eles ''Macunaíma'' (de Joaquim Pedro de Andrade), ''Tati, a Garota'' ( Bruno Barreto), ''Os Deuses e os Mortos'' (Ruy Guerra) e ''Das Tripas Coração'' (Ana Carolina). Na televisão, trabalhou nas emissoras Tupi, Excelsior e Globo revelando seu talento em novelas como ''Selva de Pedra'', ''Gabriela'', ''O Astro'' e ''Bebê a Bordo''. Como cidadã, foi uma mulher politizada engajando-se em causas como a descriminalização do aborto e o movimento Diretas Já. Morreu vítima de câncer no dia 20 de março de 1989, meses antes de completar 51 anos.

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