Dillinger, gangster fora dos padrões
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Dizem que tempos desesperados exigem medidas desesperadas. Em meados da Grande Depressão, década de 30, os Estados Unidos estavam mergulhados no caos financeiro atrelado à criminalidade, uma combinação que de certa forma retomava a mentalidade do velho Oeste e recriava aquele estado de espírito tão fértil como celeiro de mitos e lendas. E em nenhum outro cenário este panorama era mais sólido e propício do que em Chicago.
Mesmo com Al Capone acuado pelos impostos sonegados e outros criminosos notórios como Bonnie & Clyde e Ma Baker metidos até o pescoço em assaltos, tiroteios e fugas, a América ainda encontrava espaço para dividir com inimigos públicos que eram uma espécie de lenitivo para o desespero. Na verdade, muito mais públicos do que inimigos no imaginário popular, ávido de sublimações para suas dores e penas.
Mas naquele momento nenhum nome afligiu, irritou e enfureceu mais o jovem diretor do FBI, J. Edgar Hoover, do que John Dillinger - e é exatamente este personagem jovial, populista e perturbador, sensação mediática de seu tempo, que está no centro de ''Inimigos Públicos'' (veja a programação de cinema na página 2), filme que é um relato criminal cool, contemplativo e nada comum assinado por uma das poucas reservas de qualidade que ainda fazem valer a pena lançar a Hollywood um olhar de respeito e consideração.
Quando o espectador encontra o já famoso ladrão de bancos (Johnny Depp), ele está entrando na prisão, em Indiana. Alguns minutos depois, a fuga (em sequência de puro estilo do diretor Mann), providenciada pelos comparsas Homer Van Meter (Stephen Dorff), John ''Red'' Hamilton (Jason Clarke) e Harry Pierpont (David Wenham). Enquanto a quadrilha promove uma onda de assaltos pelo meio Oeste, Hoover (Billy Crudup) obtém a ajuda de Melvin Purvis (Christian Bale) para colocar um ponto final na trajetória de Dillinger.
Michael Mann volta em grande forma ''à cena do crime'', retoma este balé entre a lei e os fora-da-lei que tão bem coreografou em ''Fogo Contra Fogo'' e ''Colateral''. Embora sua opção tenha sido uma recriação impressionista do último ano de vida do mais notório ladrão de bancos da história dos EUA, Mann não abriu mão de estudada dosagem de adrenalina que sabia necessária para envolver o ''outro'' espectador, aquele mais afeito à superfície das narrativas.
Trabalhando com câmeras de alta definição, Mann e seu iluminador, Dante Spinotti, criam uma atmosfera inteiramente plausível e quase documental que transcende a típica história de gangsters. O filme se converte então numa experiência insólita: somos todos parte das correrias de Dillinger, e não há como evitar este processo.
Mann se dá ao luxo de acelerar, de explorar até os derradeiros limites a intensidade de seu elenco. E a resposta é simplesmente deslumbrante, em especial o duelo de carismas de Depp e da francesa Marion Cotillard (''Piaff''). ''Inimigos Públicos'' foge do lugar comum das cinebiografias, é cinema de ação sem afetação, inquietante e rico em matizes.


