Toda vez que falamos em técnica, já estamos usando uma técnica para falar, ou para falar dela. (‘‘para dizerem milho, dizem mio/ para melhor, mió/ para pior, pió./ para dizerem telhado, dizem teiado./ E vão construindo telhados’’ Oswald de Andrade). Seria a técnica, então, uma ação ‘‘artificializadora’’ em relação à ‘‘espontaneidade’’ orgânica da natureza? Toda a vida dependeria, cada vez mais, do uso de tecnologias para ser mantida?
A questão da eugenia, clone, criação de um ser à imagem e semelhança do próprio homem, por exemplo, só pode ser pensada a partir de um sistema de crenças que desloca a responsabilidade colocada em Deus sobre a criação voltando-a para o próprio ser humano. Hoje é possível a criação de simulacros. Inventar novas realidades. Projetar novas ‘‘naturezas’’. ‘‘A artificialidade não é uma característica que denota a origem fabricada do objeto por oposição à espontaneidade produtora da natureza’’, diz Gilbert Simondon. Se a idéia de Deus foi relativizada pelo espírito científico a partir de Descartes, então parece que uma nova concepção começa a ser gestada dentro da chamada de realidade virtual, pois a realidade mesmo passa a ser muito mais real do que ela pode ser. Já não é preciso mais a concepção para a reprodução. O domínio da seleção genética define não só a forma, mas até novas espécies de criaturas. Vivemos a era da neogenia.
Tal tipo de domínio tecnológico certamente tem a ver com ideologia e poder. Porque qualquer uso de técnica é poder. A própria palavra o é. A gente diz que tais pessoas não possuem cultura, mas como não? Desde que falem, que se comuniquem por exemplo, já estão fazendo uso da cultura, portanto alguma forma de poder está em jogo e disto não há como fugir. Quando damos um nome a uma coisa, uma banana, por exemplo, ela deixa de ser uma cobra, um revólver, uma maçã, ou outra coisa qualquer. Quando desconhecemos o que é uma banana, bem, ela pode ser venenosa, não? Pode ter um sabor estranho e exótico demais. Quanto mais sabemos desta fruta mais podemos apreciá-la e contextualizá-la. Do mesmo modo uma obra de arte, ou um carro (pra que serviria um carro para quem não sabe dirigir?). Assim, uma imagem nunca é pura. Ela é recheada de referências, símbolos, metáforas. Ela nunca pode ser subtraída do mundo sem que parte deste mundo também se perca. Como uma espécie de ave, de planta, de animal, por exemplo.
Podemos dizer com isto que não é a superação da racionalidade que está em causa, mas a busca de uma supraracionalidade que consiga dar conta da inclusão de opostos, do irracional, do subjetivo, porque quanto mais desenvolvem-se as tecnologias de conhecimento, mais a relação homem-mundo se torna vasta diante de nossa ignorância. E é desse estado de coisas que surge a figura do pajé, o primeiro técnico de uma fase anterior à racionalidade operacional dos instrumentos, como nos mostra Simondon: ‘‘Podemos denominar esta primeira fase de mágica, tomando a palavra no sentido mais geral, e considerando o modo de existência mágico como aquele que é pré-técnico e pré-religioso, imediatamente acima de uma relação que seria simplesmente aquela do ser vivo com o seu meio.’’ E o que faz o primeiro técnico? Produz algo novo no diálogo entre homem, cultura e natureza.
Assim sendo, desde tempos das cavernas criamos mitos e arquétipos para um mundo onde as forças da natureza se mostram sempre acima de nossa pretensa determinação de domesticá-las, e quanto mais parecemos caminhar para um processo artificializador da natureza mais dela dependemos, de modo que a linguagem se torna nosso instrumento único de orientação em um mundo em que até a crença faz parte para nele nos situarmos.

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