Difícil, não linear e intrigante
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de julho de 2010
Claudio Yuge<BR> Equipe da Folha 
Cachalote é o nome do maior animal com dentes existente no planeta, uma baleia que pode chegar até 18 metros de comprimento. É também o nome de um álbum escrito pelo gaúcho Daniel Galera e ilustrado pelo paulistano Rafael Coutinho. O lançamento, uma produção ousada para mercado nacional, é da Companhia das Letras, pelo selo Quadrinhos na Cia., e vai intrigar o leitor das revistas convencionais normalmente publicadas nas bancas.
Bem, antes de mais nada, é preciso advertir que ''Cachalote'' não é uma leitura fácil e nem muito divertida. Nem se propõe a isso. O álbum é denso e as várias camadas de sua história dificilmente se diluirão com facilidade em uma primeira leitura. Por isso, se o leitor pretende uma coisa sem compromisso, como uma bela sequência de ação dos coloridos Vingadores ou da Liga da Justiça, é melhor se afastar.
Todo bom roteirista sabe que a regra número um da narrativa é contar histórias sobre um personagem que muda devido a algum conflito. Aqui, essa regra é propositalmente jogada no lixo. ''Os personagens que estão ali não vão mudar, não pelo menos no álbum. Alguma coisa aconteceu ou vai acontecer com eles depois'', despistou o escritor Daniel Galera, em recente lançamento em Curitiba.
E o jogo é justamente esse: é acompanhar os personagens, com curiosidade sobre o que vai acontecer, mas já sabendo que, no fundo, ninguém sabe para onde vão, qual será o destino de todos. O importante é saber que Galera, com a pouca, porém intensa experiência como literato, ama cada uma das suas criações. É difícil encontrar um protagonista e até mesmo julgar os coadjuvantes, pois todos têm uma construção tão rica e única que os torna verossímeis a ponto de serem inesquecíveis.
O decadente ator chinês Xu, acusado de participar do suicídio de um colega. O baladeiro Ricardo Aurélio, que é expulso de casa e se vê sozinho na Europa. O escultor Hermes, recluso e ranzinza, convidado a participar de um filme em que vive um papel próximo de sua própria vida. O escultor Vitório, que se vê em dificuldade de alimentar sua tara por mulheres amarradas ao se apaixonar por alguém tão frágil. E o escritor Túlio, deprimido, em seus encontros com sua ex-mulher, Vita, com quem tem uma pequena filha. Esse é o mosaico de ''Cachalote''.
Um mosaico que não se mostra fácil porque a narrativa, composta ao lado de Coutinho, tem cortes abruptos, começa devagar e silenciosa, e aos poucos vai ganhando velocidade, até a segunda parte do volume. O desenhista é bastante responsável pelas atmosferas, leva a momentos de introspecção e agitação, seja em uma piscina de onde sai uma cachalote, em um trecho da rua Augusta, em um boteco da Vila Madalena ou em um local qualquer da Europa. Tudo em traços precisos e sofisticados, baseados nas suaves e criativas linhas franco-belgas, sem hachuras ou cores.
A produção se mostra ousada para o mercado nacional porque normalmente esse é o tipo de quadrinho que o brasileiro importa, que as editoras tupiniquins trazem de fora para imprimir aqui. São quase 300 páginas em um volume com papel couché, em preto e branco, de uma história autoral e realizada em dois anos. Algo que não acontecia por aqui há dez anos e que, graças a esse material, que agora vai fazer o caminho inverso - será publicado lá fora em breve -, pode ser realizado com maior frequência em nossa cena.
''Cachalote'', uma produção dificilmente desenvolvida por uma editora brasileira, fala de várias pessoas, de seus conflitos, de seus destinos não resolvidos, de finais não definidos. Ou seja, não promete nenhuma conclusão e não responde a nenhuma pergunta. Apenas te leva a lugares intrigantes, onde você pode refletir sobre várias coisas a partir de personagens curiosos e solitários, como em um filme do David Lynch ou numa música do Radiohead. E, só por isso, é um dos grandes lançamentos do ano.
Serviço
Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho
Editora - Quadrinhos na Cia
Preço sugerido - R$ 45 (280 págs. no formato 21 x 27cm)


