Não sei se vocês lembram, mas houve uma Copa do Mundo em que a Globo teve exclusividade. Foi uma coisa relativa a negociações casadas: para transmitir a Copa precisava também ‘‘comprar’’ as Olimpíadas e as outras emissoras, parece, ‘‘comeram mosca’’ e ficaram fora. Assim, na época, havia só duas opções: ver pela Globo ou não ver. E o Brasil perdeu aquela Copa o que serviu, pelo menos, para solidificar a fama de pé-frio da Globo.
Agora as coisas são bem diferentes. Há opções aos montes. Na rede comercial, estão mostrando a Copa a Record (que conseguiu o direito nem se sabe como, depois do prazo), a Bandeirantes, o SBT e, claro, a Globo. No cabo, exibem os jogos o Sportv, a ESPN Brasil e a Manchete. Quer dizer, onde antes havia falta, agora temos excesso. E a questão para o espectador (quer dizer, aquele que quer ver futebol) é escolher o canal para acompanhar a Copa. Quem quer ficar fora disto, tem dificuldades. O negócio, no caso, é, como diz a propaganda, ter Telecine...
Mas se o assunto é a Copa, então o problema continua a ser o da escolha. Ver os jogos - principalmente os do Brasil - em que canal? Claro, existem os que gostam de todos, parece que tem bicho carpinteiro no dedo que mexe o controle remoto, mudam e mudam. Mas o meu entendimento é o de que o melhor é ver em uma só: a gente quer ver o jogo, acompanhá-lo. Então, tem de escolher.
Vou um pouco para o passado. Quando a TV começou a transmitir futebol, o problema era este: a narração. Quem gosta de futebol estava preso à transmissão radiofônica, movimentada, muitas vezes sequer ligada à realidade do jogo. Os narradores da TV não sabiam o que fazer: afinal, a imagem estava lá, qual seria seu papel? No começo, muitos preferiam tirar o som da TV e ligar o rádio, o que dava mais vibração à transmissão. Com o tempo, porém, foram surgindo os narradores de TV, o mais importante dos quais, sem dúvida, foi Geraldo José de Almeida. Vindo do rádio, ele se deu muito bem na TV. A gente lembra da Copa de 70 associada à narração dele, pela Globo.
Daí, vieram os outros, Luciano do Valle, Galvão Bueno, Silvio Luis, Luiz Alfredo, o filho de Geraldo José de Almeida. E os 4, aliás, estão aí, transmitindo para suas emissoras. De todos, gosto mais de Silvio Luiz que, de fato, inovou na transmissão esportiva. Ex-repórter de campo (quando o conheci, em 1959, fiquei encantado com sua simplicidade), ex-juiz de futebol, ele criou um estilo que me agrada até hoje. Ocorre que, nos últimos jogos que vi narrados por ele ficou a impressão de que o narrador está meio desgastado. Quanto aos outros, é difícil aguentá-los. Não narram, mais parecem histéricos torcedores a quem se deu um microfone. Ou então passam uma imagem de auto-suficiência que chega a ofender. E o elenco de comentaristas, então, o excesso de preciosismo, isto tudo está cansando. Pelo menos a mim.
Por isto é que, no meio de tantas opções, escolhi ver os jogos do Brasil pelo Sportv. Narração vibrante, mas sem bobagens, de Luiz Carlos Junior, um comentarista só (no primeiro jogo o ex-jogador Junior, contido e simples), nenhum excesso ou pretensão. Simples e eficiente. Claro, é uma questão de gosto. Tem quem continue a apreciar o Luciano, os que não abrem mão do Galvão, com seus repentes do ‘‘eu sabia’’, ‘‘acabou’’ e até os que ouvem Luiz Alfredo que, felizmente, não é reconhecido como filho de Geraldo José de Almeida. Na verdade, nem parece.
Sim, tem também o assunto da imagem. Mas, penso, isto não é mais importante. Diante da TV, coloco-me como um espectador no estádio, numa posição privilegiada. Atrapalham os ângulos diferentes, porque tiram a perspectiva natural. Para mim, imagem simples, acompanhando a jogada com abertura suficiente para ver bem o lance (como no segundo gol do Brasil, em que dava para ver a arrancada do Cafú e pressentir que a jogada deveria ser o lançamento longo, como aconteceu). Não precisa mais: uma boa imagem, um narrador que não ofenda nossos ouvidos, que não queira ser o torcedor número 1, nem o óraculo de Delfos. Comentaristas igualmente contidos, deixando que nós, o público, façamos nosso próprio juízo. Afinal, somos todos, ao menos em época de Copa, técnicos de futebol. Deixem-nos à beira do campo e não nos atrapalhem.

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