DIFERENÇAS SECULARES À VISTA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de março de 2001
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
A Virada do Século é o título da nova exposição que está aberta no Museu Paranaense. Trata-se de uma mostra que reúne objetos, mapas, textos e fotografias, retratando as estruturas da sociedade nos séculos 19 e 20. Segundo a curadora da instituição, Zulmara Posse, as mudanças na sociedade foram lentas e graduais e muitas pessoas ainda vivem como seus antepassados. Muitas estruturas antigas ainda convivem com a era industrial e tecnológica, explica Zulmara. Por isso, o Museu realiza essa mostra que propõe suscitar a reflexão simultânea sobre as transformações e as permanências que se encontram no nosso cotidiano.
As transformações ocorridas no século 19 no atual território paranaense delinearam um novo perfil para o século 20. Se de um lado ocorreu a redução do território, resultado do movimento do Contestado, por outro grupos de migrantes ocupavam as regiões do norte pioneiro e, depois, o sudoeste, norte e oeste do Paraná antes da metade do século.
No andar térreo do Museu Paranaense, o público poderá ver uma coleção cartográfica de mapas do Paraná do século 19. O primeiro data do ano de 1836 quando o Estado ainda englobava parte de Santa Catarina (antes de o Contestado). Naquela época a região era povoada por índios e caboclos, cujos costumes permanecem até hoje. Em muitos locais não há luz nem água, o fogão ainda funciona à lenha e são os lampiões os geradores da iluminação. É como um retorno ao passado, época em que a maior parte do Estado era habitada por índios como os Botucudos, Caigangues, Guaranis e muitos outros. Parte dos objetos utilizados hoje por moradores de alguns municípios ainda é proveniente da cestaria indígena.
Mais adiante, o visitante verá o contraste do moderno Porto de Paranaguá, de onde escoa grande parte de nossa produção, com o tropeirismo que ainda acontece nas terras paranaenses, e que incrementava as correntes migratórias e as frentes de expansão extrativista, agrícola e pastoril.
As mudanças nas estruturas da sociedade só começam a ser vistas no final de cada século, explica Zulmara. É inevitável que haja a convivência com velhas estruturas, que vêm sendo praticadas há tanto tempo. Um exemplo disso são as ferrovias, criadas no século 19 e que ainda são utilizadas para o escoamento da produção, embora hoje existam centenas de estradas de rodagem e que convivem também com os antigos carros de boi que ainda circulam em muitas regiões do Estado.
Apesar do grande desenvolvimento industrial, o paranaense possui uma grande produção de produtos artesanais, como compotas e sucos caseiros. A erva-mate, grande responsável pela economia do Estado no século 18, é também uma produção contemporânea. Das antigas marcas como Júpiter, Zacarias, Primavera, Mate-Leão, Chimarrão Gaúcho, algumas ainda permanecem no mercado. Isso porque a erva-mate sobrevive junto com a Araucária, árvore nativa do Paraná.
Na metade do século passado, o Paraná vê crescer sua malha rodoviária. As estradas alcançam novos municípios que vão se delineando no Norte e Sudoeste do Estado, complementando o desenvolvimento da década de 40 quando aconteceu a chamada grande entrada do café. O processo, embora benéfico para a indústria, acaba por prejudicar grandemente a mata nativa. As pastagens do planalto começam a ser transformadas em campos agrícolas. Nessa época os grupos étnicos como poloneses, italianos, alemães, ucranianos e russos iniciam sua interação. Vão se integrando e alterando a face do Estado. As fotos expostas no Museu são bastante representativas desse processo.
Por meio da cartografia, o espectador da mostra verá claramente o desaparecimento da mata nativa do Paraná de 1890 a 1990 e pode ver ainda as diversas rochas que compõem o solo dos três planaltos da região como o quartzito, argilito, calcário, diabásico, o milonito e o famoso basalto, que caracterizou a região chamada de Terra Roxa, assim conhecida pelo derrame do basalto, abundante naqueles locais.
A economia se diversifica, as usinas hidrelétricas se multiplicam. Madeira, café e algodão e todas as demais culturas extensivas implicaram no devassamento da cobertura vegetal. Vilarejos transformam-se em cidades de médio e grande porte e a capital, Curitiba, incrementa o seu processo de urbanização.
Esse processo urbano pode ser visto visualizando-se os quatro mapas de Curitiba que abrangem o período que vai de 1830 a 1980. Primeiro, vemos retratos do antigo Palácio do Governo do século 19 com suas belas grades trabalhadas em ferro, delineando contornos típicos da época. Depois, as antigas arandelas externas das moradias, iluminadas a gás, na década de 50 do século 19. Fotografias e recortes de jornais delineiam imagens antigas da cidade como o quadro urbano da Rua XV de Novembro, em 1903. Casas de madeira só eram permitidas fora do centro. Por isso, a maioria das fachadas das ruas centrais era feita de tijolos, enquanto o resto da casa continuava a ser de madeira. Havia então a Rua da Imperatriz (Rua XV de Novembro), a Rua do Imperador (antiga Marechal Deodoro). No Passeio Público eram lançados balões, manobrados por aeronautas aventureiros, como Maria Aida, a primeira mulher a fazer essa tentativa no Brasil.
Em 1912, começa a construção da Universidade Federal do Paraná, cuja cúpula redonda foi modificada em 1914, substituída pelas atuais colunatas gregas. Os primeiros automóveis convivem com o bonde puxado a burro, com as carroças, os cavalos e até carregadores de água. As roupas femininas começam a sofrer mudanças. Um painel comparativo do final dos dois séculos retrata as grandes diferenças ocorridas na moda, instrumentos, transporte, iluminação nos dois últimos séculos. Antigos anúncios mostram a grande atuação dos caixeiros-viajantes. As óticas vendem, além de óculos, os famosos pecenez (óculos de um olho só) e relógios importados da Alemanha.
A Virada do Século retrata ainda a criação do famoso parque industrial do Paraná, hoje Cidade Industrial, cuja criação iniciou-se na última década de 60 e as praças centrais da cidade em seus diversos períodos como a Tiradentes, a Osório, a Rui Barbosa, o Passeio Público e o Alto de São Francisco. Com as mesmas bases mostradas nessa exposição, a sociedade paranaense transporta-se do século 20 para o 21, finalizou Zulmara.
Exposição A Virada do Século, no Museu Paranaense, à Praça Generoso Marques s/n. De hoje até julho, de terça a sexta-feira das 9h30 às 17h30; sábados e domingos das 13h30 às 17h30; segunda-feira das 13h30 às 17h30. Informações: (41) 323-1411


