Diferenças cotidianas
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de maio de 2015
Anna Bittencourt<br>TV Press 
As novelas são um retrato do cotidiano. O objetivo principal delas é costurar tramas de relações interpessoais com uma história que cative o público. Por isso, é natural que as diferentes configurações familiares comecem a ganhar mais destaque. Apesar do preconceito ainda ser latente, a aceitação vem crescendo conforme os casais homoafetivos vão conquistando seus direitos na sociedade. Antes muito caricatos e estereotipados, os personagens gays aos poucos ganham ares mais naturalistas e passam a viver na mesma escala de tons de outros tipos, seja qual for a orientação sexual.
Atualmente, "Sete Vidas" e "Babilônia", ambas da Globo, contam com atrizes consagradas para desempenhar papéis homossexuais. Regina Duarte, no folhetim das seis, e Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, na trama das nove, reforçam o caráter natural dessas relações. "A novela levanta a bandeira da igualdade. Mas não queremos fazer de forma didática ou para ditar ensinamento e regra. O objetivo é retratar o cotidiano. Essas mulheres existem", defende Fernanda Montenegro, intérprete de Teresa em "Babilônia".
No caso das veteranas da novela de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, o beijo chamou mais atenção. Uma prova de que, além da sexualidade por si só, a sexualidade na terceira idade é um tabu ainda maior diante da sociedade. Desde o primeiro personagem gay da teledramaturgia defendido por Ary Fontoura em "Assim na Terra Como no Céu", de 1970 até hoje, a homossexualidade deixou de ser um assunto evitado ou tratado superficialmente para figurar em praticamente todas as produções televisivas. "Não acredito que seja uma espécie de cota, apenas os autores estão mais livres. No passado, havia muita rejeição por parte do público e esses personagens acabavam perdendo espaço", opina Aguinaldo Silva, responsável pelo roteiro da recém-finalizada "Império".
Assim como em "Babilônia", onde o beijo protagonizado por Teresa e Estela, de Nathália Timberg, causou estranhamento no público, em "Império", Paulo Betti também sofreu críticas devido à sua afetada leitura de Téo Pereira. "Claro que sempre vão haver resistências quanto ao meu olhar sobre o personagem. Isso é muito saudável, faz parte da polêmica. O problema é que todo brasileiro é meio técnico de futebol e saberia exatamente como interpretar um gay", brinca o ator.
Apesar de ser na Globo a maior frequência de aparição de casais do mesmo sexo, a emissora não é a única a levantar a bandeira da representatividade. Em "Amor e Revolução", novela de Tiago Santiago apresentada pelo SBT em 2011, Luciana Vendramini e Gisele Tigre protagonizaram o primeiro beijo entre mulheres da tevê brasileira. "Foi incrível a liberdade que tivemos para conduzir a cena e fazer com que fosse uma ação carinhosa e não necessariamente erótica", opina o autor. A Record, por ter um público religioso muito fidelizado, opta por não explorar muito as diferentes configurações familiares. No entanto, ainda que menor, há a participação de personagens homossexuais em suas tramas. Embora nunca em uma posição de destaque.
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