O espetáculo cênico-musical ''Nazareth e...Ernesto'', em turnê pelo Paraná, resgata uma parte inventiva da história musical brasileira. O Brasil retratado ainda não flertava com a modernidade. Os compositores Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga maceraram seus talentos na pobreza. A dupla contribuiu para imprimir a digital brasileira na música, num período em que a colonização cultural sufocava qualquer tentativa de abrasileiramento.
''Nazareth e...Ernesto'' insere o público no enriquecedor universo musical brasileiro, reunindo talentos locais e dialogando com artistas com visões de mundo também desbravadoras. Desta vez, a proposta de amalgamar música, balé e teatro suplantou a experiência anterior - ''Carmina Burana'' - da Vivarte Produções Culturais. Mas ainda percebe-se que a cena - teatro e dança - se mostra serva da música, esta com um peso e representatividade maior. Logo, espetáculo musical-cênico seria a denominação mais apropriada.
O espetáculo se iniciou com a música ''Chão de Estrelas'' e um noticiário de rádio, num interminável e desnecessário black out. A opção do diretor Marco Antonio de Almeida recaiu por fazer um espetáculo didático e nostálgico. Musicalmente, ''Nazareth e...Ernesto'' presenteia o público com interpretações arrebatadoras e sensíveis, tanto do pianista Marco Antonio de Almeida, como da orquestra, sob a batuta de Roberto Gnattali.
Com o repertório apresentado, com pérolas pinçadas em centenas de composições, e a partitura rítmica precisa e irrepreensível, pôde-se conferir um espetáculo em que a sensualidade, a festividade e descontração imperam. O roteiro musical procurou elevar ainda mais a obra dos compositores homenageados, notadamente nas músicas ''Brejeiro'' e ''Corta Jaca'', somando-se a inusitada ''Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro'', de L.M. Gottschalk.
O Ballet de Londrina, coreografado por Leonardo Ramos, se limitou a ilustrar pelo movimento os novos padrões de comportamento dos casais de um Brasil recém-saído da monarquia. Para situar no tempo-espaço a dupla de desbravadores musicais, a forma encontrada por Marco Antonio de Almeida foi a enciclopédica, detalhando cronologicamente os fatos mais importantes das personagens, que ora eram apresentados por um narrador (Remir Trautwein), ora eram contados pelos personagens Ernesto (Genézio de Barros) e Chiquinha (Lívia Oliveira). Acontece que a vida era bem menos formal na capital carioca, ainda mais para quem nasceu no morro do Nheco, como Nazareth, e o formalismo cênico imperou.
Ao optar pelo alijamento da construção dramática numa obra biográfica, a encenação propiciou um efeito desilusionante das personagens em foco. Esse formato limitou a parte cênica, com o potencial dos atores com diminutas chances de ser explorado, apesar de que Genézio de Barros estava visivelmente deslocado em seu personagem e no palco, tropeçando nas palavras por várias vezes, durante as apresentações de Londrina.
Com a confluência das vertentes artísticas a que se propõe o idealizador de ''Nazareth e...Ernesto'', a música assume uma outra ressonância, pois a proposta insiste na integração das percepções visuais e auditivas. Vale ressaltar, a heterogênea platéia de ''espectouvintes'' nas apresentações de Londrina, que pôde acompanhar tantos talentos em torno da música popular brasileira.
• O espetáculo ''Nazareth e..Ernesto'' será apresentado amanhã no Teatro Marista de Ponta Grossa e no dia 11 de outubro, em Cascavel, na Praça da Catedral.

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