Na próxima quinta, a professora Nelly Novaes Coelho, 80, põe o ponto final num trabalho de duas décadas, ao lançar o ''Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras''.
Se não é o primeiro a enfocar a literatura feminina no Brasil, o dicionário da professora Nelly tem o mérito da extensão (são 1.401 autoras) e de ser o mais novo volume do gênero - do que supõe-se ser o mais atualizado.
A gênese do levantamento agora apresentado está em outra obra: foi elaborando o ''Dicionário Crítico de Literatura Infantil/Juvenil Brasileira'' (Edusp) que Novaes Coelho deparou com uma ''plêiade de novas escritoras de grande força, mas sem circulação entre o grande público''. Além de buscar aumentar esse público, o novo dicionário pretende servir de fonte a pesquisas na área universitária.
O critério para mergulhar num universo tão amplo foi limitar a seleção a ''ficcionistas, poetas, cronistas e dramaturgas'' que tivessem pelo menos um livro publicado uma peça representada. ''Foi um critério de natureza quantitativa, para dar limites materiais à pesquisa. Isso porque as ensaístas ou as escritoras que só publicaram em antologias, revistas, etc. são às centenas'', diz.
Como toda regra, deixa passar exceções: são autoras dos séculos 18 e 19 que não puderam editar livros e ''mulheres notáveis'' a ''homenagear'' - caso, por exemplo, de Chiquinha Gonzaga.
A autora frisa que não conseguiria ter compilado os verbetes se, além de usar outras obras de referência, não tivesse armado uma rede composta de colegas, que enviaram informações de todo o país, e de autoras, que manifestaram interesse em estar presentes.
Ao mesmo tempo que possibilitou o trabalho de fôlego, porém, o método, ao buscar primordialmente abrangência, fez com que o resultado se ressentisse da ausência de um crivo mais rígido a ditar a extensão ou mesmo a presença dos verbetes. Surgem, assim, discrepâncias.
Por exemplo, pode até ser que, à sombra vultuosa de Clarice, a menos famosa Elisa tenha acabado esquecida e deva ser defendida como vítima de idiossincrasias mercadológicas. Mas soa ligeiramente estranho que as irmãs Lispector mereçam o mesmo peso no volume. Do mesmo modo, parece esquisito que Márcia Peltier, notadamente uma jornalista, seja contemplada de forma semelhante a Ana Maria Machado, escritora reconhecida inclusive com prêmios internacionais.
Por outro lado, fica impossível saber se foi um efeito do método ou a vontade corajosa da professora a deixar de fora uma escritora badalada como Fernanda Young e privilegiar uma discreta, como Claudia Roquette-Pinto - da mesma geração que a algo punk Young, Roquette-Pinto é dona de uma poética sólida e ganha um verbete caprichado.
A suposta objetividade, vale dizer, resume-se ao aspecto macro do volume; no nível dos verbetes, a autora se coloca muito pessoalmente, alguns comentários ficando no plano da opinião, talvez respaldada pelos longos anos de carreira acadêmica.
Faltaria somar aos índices (alfabético e por origem) um que listasse as autoras por época - o que facilitaria a identificação de seu lugar na literatura brasileira.
Por fim, é preciso dizer que, críticas à parte, o trabalho é bem-vindo e se afirmará como o útil instrumento que ambiciona ser.
SErviço: Dicionério Crítico das Escritoras Brasileiras (1711-2001) De: Nelly Novaes Coelho. Editora: Escrituras (0/xx/11 5082-4190). R$ 89,50 (752 págs.).

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