Dicionário de Porto-Alegrês é sucesso de vendas na Feira do Livro
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quinta-feira, 04 de novembro de 1999
Por Ayrton Centeno 
Porto Alegre, 05 (AE) - Um livro que explica para todo o Brasil o significado de palavras e expressões como "parará", "empapuçar", "mumu", "cueca virada", "feito o carreto" e "chamar na chincha", entre muitas centenas, é o mais vendido na modalidade de não-ficção da 45ª Feira do Livro de Porto Alegre. Estes e outros termos figuram no Dicionário de Porto-Alegrês, de Luís Augusto Fischer. Na feira - considerado o maior evento do gênero em praça pública, no País, comercializando 20 mil livros por dia em seus 183 estandes - o dicionário de Fischer ultrapassou em vendagem os três best-sellers nacionais de Eduardo Bueno: "A Viagem do Descobrimento", "Capitães do Brasil" e "Náufragos, Traficantes e Degredados".
Começando com o sufixo "al" - que designa "grande quantidade de algo", como mulheral, dinheiral, barral etc - e terminando com "zulivre" -- disfarce de "Deus o Livre", mas agora como demonstração de alegria, o dicionário trafega por cerca de 1,4 mil verbetes. "Tentei ser meio cronístico", conta Fisher, um professor de literatura de 41 anos, autor também, entre outros títulos, de "Um Passado pela Frente", estudo sobre a poesia no Rio Grande do sul. "Foram 15 anos de juntação e dois de redação", lembra, relatando como chegou ao dicionário.
Humor - É um texto permeado pelo humor, que não vacila na hora de recorrer ao palavrão para detalhar o sentido de uma determinada palavra. Aliás, vários deles estão contemplados ao longo de suas 172 páginas. "Tem o caso do palavrão, que registrei sempre, sem pudor. Se tiver criança na sala, cuidado, porque minha idéia foi apresentar o que a gente fala mesmo", adverte na introdução. Na formatação do porto-alegrês, há contribuições das mais diversas. Desde as que vem de perto - o interior gaúcho, de vocabulário pampeano, mas bastante diverso daquele das cidades - e as de mais longe, caso do lunfardo, a gíria dos malandros do tango de Buenos Aires no começo do século.
"Cuiudo" é o primeiro caso, definindo homem valente. "Biaba" é o segundo, significando tapa, bofetada. E há os subsídios do mundo industrial que, muitos anos atrás, ajudou a batizar vaso sanitário e, por extensão, banheiro, de "patente". É que na louça do vaso vinha gravada a expressão "marca patente"... Há termos especialmente curiosos e de história não menos interessante. "Xumbrega", por exemplo, viria de Portugal. Existiu por lá um certo general alemão Schomberg, cujo nome teria dado origem a "xumberga" ou bebedeira. No sul, transformou-se em "xumbrega", adjetivo para coisas mal feitas ou desajeitadas. Seria, talvez, a origem remota do termo "brega", de igual significado, em uso no Brasil inteiro.
Não dá para esquecer algumas peculiariedades do porto-alegrês - um "dialeto" falado por cerca de quatro milhões de pessoas na capital e região metropolitana - que faz com que alguns vocábulos tenham sentido completamente diverso do restante do país. "Aqui a gente come negrinho", costuma ilustrar Fisher. Acontece que "negrinho" é como é conhecido em Porto Alegre o popular docinho brigadeiro. E, claro, o dicionário também contempla os clássicos "tri", "trilegal", "magro", "magrinhagem", "deu pra ti", emblemáticos da gíria da capital desde os anos 70. Sucesso - Fischer acha que uma das razões do sucesso da obra, além do tom coloquial, acontece pelo fato de que "as pessoas gostam de ver escrita a sua fala do dia-a-dia". Exemplos contidos no dicionário: Mumu - fácil Trique-trique rolimã - muito bom Piazada - bando de crianças Cuspir grosso - falar arrogantemente Engolesmado - bêbado Dar coice - reagir com rudeza Churra - currasco Tastaviar - escorregar Chispar - sair correndo Duro de queixo - resistente Quídi - sujeito bom no que faz A fuzel - muito bom Farroupilha - sanduíche de queijo e mortadela Chamechunga - sujeito importuno


