Dicionário Amoroso 2, versão teatral
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de agosto de 1998
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Ainda não foi desta vez que Londrina conseguiu um prêmio no Festival de Gramado. Anunciados os vencedores da Mostra Super 8, os Kikitos - de chocolate, à primeira vista uma idéia divertida, mas que não deixa de manifestar descaso oficial para com a bitola - ficaram com produções do Rio Grande do Sul. Mas Final Feliz, de Caio Julio Cesaro, teve boa acolhida entre os 13 concorrentes e deve representar o ponto de partida para novas realizações de um núcleo superoitista que começa agora a funcionar na cidade.
Com certeza esta é a mais econômica edição do Festival nos últimos anos. O enxugamento - alguns preferem saneamento - promovido pela comissão organizadora - atinge indiretamente o comércio local, que lamenta a ausência de nomes famosos, que por sua vez atraem nomes anônimos de toda a região, que por sua vez fazem a roda-vida das compras, enchem restaurantes, bares e lanchonetes e dão ares de prosperidade ao cenário da serra gaúcha. Celebridades por aqui só as que pertencem aos elencos dos filmes da programação oficial, ou quem é alvo de homenagens e premiações.
Quem viu e gostou de Pequeno Dicionário Amoroso, de Sandra Werneck, tem bons motivos para criar expectativas otimistas em cima de Amores, de Domingos de Oliveira. Apresentado na quinta noite da mostra competitiva, o filme é uma comédia contemporânea sobre a possibilidade - difícil, mas viável - do final feliz. Os personagens são um escritor em crise, vivido pelo próprio diretor, e a filha livre em excesso; um casal que luta para ter um filho e põe em risco o casamento; um atriz semifracassada que se apaixona por um pintor bissexual e portador do H.I.V. A base para o roteiro foi o texto teatral homônimo, encenado com sucesso durante temporada de um ano no Rio. Escritos a quatro mãos por Domingos de Oliveira e Priscilla Rozembaum, a peça e o roteiro parecem uma coisa só, e isto fica mais ou menos evidente logo no início do filme. Ainda que o autor-roteirista-ator-diretor insista em dizer que na tela a origem teatral dispersa-se totalmente, não é isso que se nota, e é disso que Amores se ressente, dessa involuntária prisão a uma estrutura espacial de teatro e às vezes ao formato dramático do sketch televisivo - a recordar as fortes e determinantes ligações de Domingos de Oliveira com a dramaturgia encapsulada da telinha. O problema mais significativo de Amores parece estar não no que se conta, mas na forma de contar. E o problema menos significativo de Amores é que o que se conta já foi contado - Confissões de uma Adolescente, Comédias da Vida Privada, Pequeno Dicionário Amoroso , isto é, o filme resulta em material reciclado. Engraçadinho, com elenco afinadinho. Mas reciclado.
A paixão pelo futebol, aquilo que alguns chamariam obsessão, é o tema central que une três vidas distintas no filme chileno Historias de Fútbol, de Andrés Wood, dividido em dois tempos normais e uma prorrogação. O primeiro episódio trata do suborno na terceira divisão, na capital, Santiago. O segundo, numa região desértica do interior, um garoto vende seu bem mais precioso - uma bola - para ajudar nas despesas da casa. E no último, na longínqua ilha de Chiloé, um jovem acaba dividindo sua fixação pelo futebol com a fogosa sexualidade de uma mulher madura. Esta parte final é a mais bem-sucedida da trilogia, mas de modo geral o filme peca pela falta de originalidade.
Mas o que compromete o filme irremediavelmente aos olhos do júri é a cópia projetada no Palácio dos Festivais, tão estropiada que envergonharia qualquer cinema-poeira que ainda resiste no interior. Falha operacional grave, que pode arranhar o prestígio que o Festival vem lentamente conquistando nos arredores continentais.
Subsídio cultural para a campanha de nossos candidatos ao Governo do Paraná. A Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul anuncia hoje à tarde aqui em Gramado várias medidas que constituem o primeiro passo para a concretização do Pólo de Cinema do Rio Grande do Sul. O principal anúncio é o lançamento do Prêmio RGE/Governo do Estado de Longas-Metragens, que vai distribuir R$ 3 milhões e 300 mil para três roteiros de filmes gaúchos. É o maior prêmio-estímulo que se oferece no momento no País. Na mesma cerimônia vai ser criada ainda a Fundação Cinema RS para a coordenação das ações do Pólo de Cinema.


