Ele não diz se encontrou ou não o Shangri-la, mas deve ter passado perto. Waldemar Niclevicz (foto), alpinista paranaense, esteve no teto do mundo no ano passado, quando escalou o K2, no norte do Paquistão. Somando todas as expedições que realizou no país, cada uma com cerca de três meses, Niclevicz ficou aproximadamente um ano em solo paquistanês. Para se aclimatar e se preparar para a escalada, conheceu muito bem o país onde pisou. Ele conta que o Paquistão foi o primeiro país muçulmano que conheceu. Mesmo para ele, que é formado em turismo e já viajou para muitos destinos exóticos, os costumes islâmicos causaram impacto. ''As túnicas que os homens vestem, o manto das mulheres, tudo atrai a atenção'', comenta.
Niclevicz conheceu as principais cidades paquistanesas, a estrada Karakorum Highway, e esteve até na fronteira com o Afeganistão. ''Existem por lá lindas mesquitas'', relata. Os viajantes que para lá seguem, diz ele, não devem esperar conforto. A falta de hotéis e restaurantes, a sujeira, pouca conservação dos monumentos e precariedade das estradas se constituem em problemas, mas não tiram o encanto do país.
Pobreza é o que não falta, continua Niclevicz, mas sobra hospitalidade, se o paquistanês confiar no estrangeiro. Para isso, deve-se seguir as regras e, melhor ainda, contratar um guia. O alpinista recomenda que homens e mulheres não devem usar roupas curtas, como bermudas. Dispensar sempre um tom respeitoso às mulheres é imprescindível para não arrumar confusão, orienta Niclevicz. As mulheres estrangeiras que porventura forem para o país não devem viajar sozinhas. Os paquistaneses, no mínimo, vão estranhar.
Poucos deles já ouviram falar do Brasil, que é ignorado em sua localização, economia, geografia e história. Brasileiros precisam tirar antecipadamente os vistos de entrada na embaixada do Paquistão, em Brasília. Os vistos não são concedidos no aeroporto. Passaportes têm que estar sempre à mão.
É sempre bom seguir as ordens das placas que estão na frente de prédios estatais ou instalações militares estratégicas e não fotografar, explica Niclevicz. É preciso obter no país uma permissão para usar laptop e câmera digital.
A comida é muito simples, como os hábitos dos paquistaneses. ''Come-se chapat, uma espécie de pão sírio, acompanhada do dal, que é um arroz com creme de lentilha''. A galinha também é um prato muito apreciado, diz ele. Outro conselho: o estrangeiro deve considerar a intensa religiosidade da população. ''Admiro neles a fé inabalável em Alá (Deus, em árabe).''
Deve-se viajar para lá no verão, orienta o montanhista, quando dá para os amadores pelo menos verem de longe as montanhas mais selvagens do mundo. A imponência, segundo Niclevicz, é o grande atrativo.
O anúncio de uma guerra na região fez com que Niclevicz adiasse a viagem que faria no ano que vem ao Paquistão. Ele acha que o turismo e o esporte vão perder, caso haja realmente ataques no Afeganistão. ''Conheci muitos afegãos''. O paranaense teme pelo destino dos amigos que deixou em território paquistanês, em cada expedição que empreendeu. A viagem de volta não tem data marcada, mas Niclevicz espera que seja breve o encontro com a montanha. Da próxima vez, quem sabe, ele pode conquistar também o desafio de chegar às portas da mítica Shangri-la.

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