O escritor Dias Gomes, 75 anos, é o responsável por duas das quatro minisséries que a Globo exibirá em 1998. A adaptação da obra de Jorge Amado, ‘‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’’, abrirá a programação 98 e ‘‘Ninguém é de Ninguém’’ será gravada no início do próximo ano e exibida no segundo semestre.
‘‘Ninguém é de Ninguém’’ é uma análise do comportamento da geração de 68, daquela época e dos tempos atuais. A história começa durante uma festa dos formandos de uma turma de Direito de 68. ‘‘Esse foi um ano que mudou os costumes, com o lema é proibido, proibir, e que chutou tudo para o alto’’, explica o autor. A história dá um salto de 30 anos e os personagens se reúnem numa festa. Gomes assume que a personagem principal foi inspirada em Leila Diniz, a musa daquela geração.
Em 56 anos de carreira, Dias Gomes ficou consagrado por trabalhos no teatro (‘‘O Pagador de Promessas’’, também levado para o cinema e vencedor em Cannes) e depois por novelas como ‘‘Saramandaia’’, ‘‘O Bem Amado’’ e ‘‘Roque Santeiro’’. Apesar do sucesso na tevê, nos últimos anos tem preferido se dedicar a minisséries.
Como é completar 75 anos em atividade?
Dias Gomes - A sensação é de espanto. Nunca imaginei que chegasse a essa idade. Quando eu tinha 20, acreditava que não passaria de 24, como Castro Alves, que morreu tuberculoso.
Você acredita que conseguiu mudar a linguagem televisiva?
Dias Gomes - Pretensiosamente, acredito que sim. Meu projeto era buscar uma linguagem própria para a telenovela, que era muito radiofônica, teatral no mau sentido. Era um gênero popular novo e que precisava de uma nova linguagem. Precisava também reformular sua temática, até então de fantasia absoluta, e trazê-la para a realidade brasileira, criando um painel, ainda que cor-de-rosa.
Você já pensou, algum momento, em se aposentar?
Dias Gomes - O dia em que parar eu morro, pois ser escritor é como um cachaceiro, só se pára de tomar cachaça quando morre.
Depois dos dois grandes sucessos de sua carreira, ‘‘O Pagador de Promessas’’ e ‘‘Roque Santeiro’’, houve alguma cobrança?
Dias Gomes - Foram dois trabalhos bem-sucedidos que impulsionaram minha carreira. Só que quando um trabalho vai bem, só cobram outros trabalhos iguais de você. Mas eu nunca gostei de fazer trabalhos iguais, tanto que a peça que veio depois de ‘‘O Pagador de Promessas’’ foi completamente diferente. Durante toda a minha carreira, variei bastante em estilo e temática.
Qual a importância de possuir uma cadeira na Academia de Letras?
Dias Gomes - É a mesma coisa de pertencer a um clube. A Academia não é nada mais que um clube fechado. Ninguém fica melhor ou pior escritor nela. Tanto que há pessoas inteligentes e outras nem tanto.
Você pretende voltar a fazer novelas?
Dias Gomes - Pretender, eu não pretendo. Mas nunca podemos dizer dessa água não beberei. Prefiro continuar fazendo minissérie, que é o que me sinto melhor fazendo, me adapto melhor e é mais agradável.
Em sua última minissérie, ‘‘Decadência’’, havia a preocupação de retratar o Brasil. O que mudou de lá para cá?
Dias Gomes - Substancialmente eu acho que nada. Continuam a proliferação dos credos explorando a miséria, a crise ética e moral. A única coisa que mudou foi econômica, com a estabilização da moeda.

mockup