‘‘Apenas um subversivo’’. Deste modo, modestamente, Dias Gomes se refere a si próprio na autobiografia publicada pela Bertrand Brasil.
Existem os que gostam de biografias e os que não gostam. Quanto às autobiografias, estas ainda enfrentam um certo tipo de preconceito até porque quem conta sua própria história corre o risco de não ser tão fiel, de tentar se mostrar melhor ou maior do que foi. Ademais, a impressão de alguns é a de que evidencia um certo cabotinismo este negócio de contar a própria vida, o que por si dá a idéia de que o autor se considera personagem importante, com coisas a revelar.
Quanto a mim, gosto de biografias quase tanto quanto de romances porque ajudam a conhecer personagens que, de um ou de outro modo, marcaram (ou marcam, quando ainda vivos) o seu tempo. Quanto às autobiografias igualmente considero válidas, mesmo que o autor seja, apenas, um escritor. Adorei ler a vida de Agatha Christie, que foi ‘‘só’’ uma grande escritora de livros policiais. Foi interessante acompanhar sua carreira, saber como surgiram personagens do tipo Hercule Poirot.
O caso de Dias Gomes é diferente. Ele não é só um autor, um escritor, um dos melhores dramaturgos que o Brasil conhece. Ele vivenciou uma fase importante da história brasileira, tanto no teatro quanto no rádio e na TV, mas também foi partícipe da vida política da época. Sua autobiografia não é uma sequência de auto-elogios, mas mostra a caminhada de um brasileiro lúcido, de uma pessoa que queria, com sua arte, com seu talento, fazer mais do que contar histórias.
E o livro que escreveu acaba sendo um romance, com personagens reais, cheio da vida do Brasil nos anos duros da ditadura Vargas, da repressão pós-64, rememorando fatos que precisam ser contados e mantidos vivos, parte da memória nacional na luta pela principal das liberdades, a de expressão.
Para muitos, Dias Gomes é só um autor de textos teatrais, de novelas da TV. Se fosse só isto, já valeria a pena conhecer sua vida, ter contato com suas lutas, saber como e por que escreveu as obras que encantaram e encantam até hoje. Todavia, o baiano Alfredo Dias Gomes é mais que isto: um lutador, um idealista, um homem de convicções que enfrentou a repressão da ditadura em defesa da liberdade.
Nas 365 páginas do livro, Dias Gomes se revela por inteiro, de modo simples e firme. Fala de suas peças, de suas novelas, explica inclusive a motivação de muitas delas, revela fatos de uma vida rica, não foge dos erros, abre o coração e se expõe. E com isto, mostra que não é, como ele tão modestamente escreve, ‘‘apenas um subversivo’’. Na verdade, é simplesmente, um gênio.

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