Curitiba
O ator Paulo Betti lembra-se de quando tinha seis anos de idade e ia com o pai para a roça do avô, num bairro de Sorocaba (SP). Os olhos arregalavam-se surpresos toda vez que passava ao lado de uma igrejinha erguida nas proximidades. ‘‘Era a misteriosa Igreja do Bom Jesus do Bonfim da Água Vermelha’’, diz com solenidade.
Tamanho encanto não foi em vão. O menino cresceu, abraçou a carreira de ator - bem-sucedido no teatro, cinema e televisão - e foi buscar no passado assunto para seu primeiro filme como diretor. O trabalho versa sobre o tropeirismo, iniciando no Rio Grande do Sul e terminando em Sorocaba, tendo no cenário a figura mítica e mística de João de Camargo, o criador da igrejinha da Água Vermelha.
O projeto está concluído no papel. A luta agora é a de conseguir patrocínio. ‘‘Entramos na fase de captação de recursos. Isso significa que vou ter que batalhar esse dinheiro’’, conta Betti. O orçamento gira em torno de R$ 4 milhões a R$ 4,5 milhões. A quantia é elevada - para os padrões brasileiros, quase nada se comparado aos orçamentos do cinema americano - pelos altos custos da produção: o filme é de época, haverá reconstituição de cidades do século passado e o diretor faz questão de imagens quase épicas, com os tropeiros deixando Viamão, no interior gaúcho, ‘‘em grande estilo’’, percorrendo os Estados de Santa Catarina e Paraná até chegar na feira de muares em Sorocaba.
Paulo Betti planeja distribuir a estrutura econômica do filme junto às iniciativas privadas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e região sorocabana. Pode ser que desloque uma parte da captação para a Bahia. ‘‘O culto que João de Camargo criou, curiosamente tem a ver com o do Bom Jesus do Bonfim’’, explica.
Para ter seu templo legalizado, João de Camargo estruturou o culto juridicamente através de uma associação espírita. ‘‘Então a gente acredita que tem a ver com os tambores que soam em Minas, na Bahia. Não é à toa que Sorocaba tem muitos tambores - eles vêm do batuque dos pretos. Do Carnaval à fanfarra é assim’’, afirma o ator.
Vídeo, filme A idéia de trabalhar com a figura de João de Camargo é antiga. Vem desde antes da montagem de ‘‘Na Carrera do Divino’’, espetáculo premiadíssimo que passou em branco na temporada curitibana, nos anos 80. ‘‘Queríamos contar a sua história, mas optamos pela cultura caipira mais generalizada’’, lembra Betti.
Há quatro anos, depois de fazer um curso de documentário nos Estados Unidos, Paulo Betti voltou influenciado pela cultura americana de gravar imagens da família. Procurou a mãe para fazer um vídeo dela, mas ficou sem graça e mudou o rumo para o túmulo de João de Camargo num cemitério secular da cidade.
Certa tarde estava na porta de casa com a mãe, quando recebeu a visita de um amigo, o também ator Adílson de Barros. Como a notícia do vídeo já estava correndo pelo meio artístico, o amigo foi direto ao assunto: ‘‘Que pobreza, isso é assunto para um longa-metragem, deve-se registrar uma coisa mais nobre’’. Foi um ‘‘conselho sábio’’. A partir desse momento teve início uma pesquisa mais profunda sobre o religioso.
João de CamargoO lendário João de Camargo nasceu em 1858 e morreu em 1942, sem nunca ter-se desvinculado da cidade. Viveu uma fase de grandes transformações ocorridas no Brasil e no mundo: o fim da escravidão, a descoberta da eletricidade, o surgimento do avião, do trem e do automóvel, a 1ª Guerra Mundial, a decadência do transporte animal. Tudo isso serve como pano de fundo da história.
Filho de curandeira, estava com quase 40 anos quando teve uma visão mística - do além vinha a ordem para ele realizar uma obra de cunho social e espiritual. Foi então que criou um culto africano sincrético. Com certeza era um lunático, mas aquilo que construiu mereceu tempos depois estudos do então estudante Florestan Fernandes, quando este ainda fazia o segundo ano de Sociologia na USP.
O livro ‘‘O Negro no Mundo dos Brancos’’, de Florestan, traz dois capítulos dessa investigação científica: ‘‘Os Tambores de Sorocaba’’ e ‘‘Contribuição para um Mito Carismático’’, que trata de João de Camargo. ‘‘Veja você: lá no quintal da minha casa, no caminho da roça do meu avô estava sendo gestada a nova sociologia no Brasil. Isso é muito engraçado’’, comenta Betti.
A feiraO ex-escravo acompanhou o auge da feira dos muares em Sorocaba, quando a cidade vivia durante quatro meses de fausto. Comerciantes de todo o Brasil centralizavam-se ali, onde chegavam a ser negociados até 200 mil animais. Foi com dinheiro dos impostos de uma dessas feiras que o Marquês de Pombal tirou os proventos para reconstruir a cidade de Lisboa, que tinha sido destruída por um violento terremoto, segundo os historiadores.
Pelos planos de Betti a velha Sorocaba será reerguida, para levar à tela a efusão dos dias de ouro. ‘‘Tinha teatro, jogadores, circos de cavalinho’’, uma população extra que invadia suas ruas, fortunas que circulavam pelo comércio local.
Trabalhando em cima da idéia há quatro anos, o diretor quer grandeza no seu trabalho. ‘‘Quanto maior o circo, mais bacana, né? E isso é um circo maravilhoso. Imagine o impacto dessa encenação numa cidade como Sorocaba, fazer a restauração dela no século passado, aqueles shows... Quero mobilizar a cidade inteira. Tem que ser uma coisa grandiosa’’.
O Paraná estará obrigatoriamente no filme, porque o diretor quer mostrar o longo percurso das tropas nos campos de um País ainda de campos extensos e inexplorados. A Lapa faz parte do roteiro. Uma de suas cenas mostra um grupo de coronéis deixando a sala do teatro onde acabou de ser apresentada a ópera ‘‘O Guarani’’. ‘‘O Teatro da Lapa é maravilhoso para filmar. Vai ficar lindo’’, antevê Paulo Betti.
Tudo foi pensado e está no papel - até mesmo uma cena com o algodoal em flor -, exceto o elenco, que será fechado mais tarde. Alguns nomes passam pela cabeça do cineasta. Um deles é Itamar Assumpção. A ficha técnica traz roteiro assinado por Clovis Bueno, que ajudará Betti na direção. Clovis Bueno foi diretor de arte em filmes como ‘‘Brincando nos Campos do Senhor’’ e ‘‘Pixote’’.
‘‘O roteiro que ele escreveu é brilhante, maravilhoso. Imagina como estou me sentindo com tudo isso’’, diz o empolgado Betti. Se tudo der certo as filmagens começam já em 1998, ou no mais tardar em 99. ‘‘Agora vou fazer umas coisas na televisão, para me manter’’, planeja, antes de posicionar-se atrás das câmeras.

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