Entre a dor e o esquecimento, William Faulkner (1897-1962) preferia o Jack Daniel's. O uísque é onipresente na visita do escritor americano ao Brasil, entre 9 e 14 de agosto de 1954. Arredio aos compromissos, Faulkner era o mais esperado do I Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo, um dos eventos para comemorar o IV Centenário da cidade. Uma das versões conta que ele andava com o cabelo empapado de água para amenizar a bebedeira.
Essa estada é o tema do romance de estréia do carioca Antônio Dutra, vencedor do prêmio Meet 2008, 'Dias de Faulkner'. ''Havia uma decepção com o papel dele nos trabalhos do congresso'', diz Dutra. Tudo o que envolvia o escritor americano parecia caminhar para o fracasso. A má vontade de Faulkner aumentava se as perguntas fossem sobre literatura - dizia que um ficcionista não deve ler muito pois pode perder a originalidade. O importante é escrever, sem pensar no sucesso que pode resultar da obra literária.
Afirmava que um escritor fala nos livros, e não em entrevistas, sobre as coisas do mundo. ''E quando Faulkner toca no tema das relações raciais nas Américas, é interessante observar que as perguntas seguintes dos jornalistas passaram a ser sobre os livros favoritos dele.''
O escritor americano, prêmio Nobel de 1949, ambientou sua ficção no Sul dos EUA, tendo os conflitos raciais como tema incontornável. O debate sobre racismo parecia irrelevante naquele momento para os brasileiros. Em sua ficção, Antonio Dutra revela o desconhecimento mútuo, entre brasileiros e americanos, embora o contexto fosse o da Guerra Fria. ''Faulkner seria importante elemento de sedução, havia uma simpatia da intelectualidade brasileira pelos comunismo.''
O comportamento do autor de Som e Fúria muda a partir da quarta-feira (dia 13), após reuniões com o serviço diplomático americano. Ele se tornou acessível e bem-humorado, disposto a visitar os lugares. Mas nem essa mudança de atitude apagou a impressão que Faulkner deixou. O jornalista Lúcio Cardoso o via como um homem miúdo, mal vestido, maltratado. Na últimas entrevistas, ele dizia que o escritor não podia abrir mão de uma coisa somente: a busca da verdade. Para buscá-la, afirmava que o coração devia estar na ponta do lápis. Apesar da imagem de homem áspero e intratável, havia certa beleza no sofrimento de William Faulkner.

SERVIÇO

- Dias de FaulknerAutor - Antônio Dutra
Editora - Imprensa Oficial
Página - 136
Quanto - R$ 25

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