Após sete meses de andanças pelo Norte e Nordeste do Brasil, e mais de 5.500 km percorridos por rios, trilhas e estradas, os londrinenses Tyago Yoshida e Rodrigo Ferracini, ambos de 25 anos, retornaram à cidade. Eles iniciaram no dia 24 de janeiro a ''Expedição Redescobrir - Um Sonho em Movimento'', que percorreu 12 estados brasileiros. Yoshida, que concluiu sozinho o trecho final até Salvador, chegou a Londrina no final de agosto e esteve na Redação da Folha para contar a experiência.

A dupla, que iniciou a aventura em Porto Velho (RO), se separou em Fortaleza no dia 15 de julho, quando Ferracini precisou retornar ao Rio de Janeiro para prosseguir a faculdade - estuda Jornalismo. Ele não concluiu o percurso de bicicleta porque a viagem demorou mais que o previsto, em virtude de problemas no Maranhão, quando ficaram um mês esperando pela chegada de equipamentos.

Com isso, Yoshida, que é designer gráfico, encarou sozinho o desafio de percorrer os 1.389 km que ainda restavam entre Fortaleza e Salvador - o ponto de chegada da expedição. Ele terminou a aventura dia 24 de julho e sentiu na capital baiana a agradável sensação do ''dever cumprido'', agradecido pelo ''aprendizado de vida'' que teve ao longo do caminho. Ele ficou 19 dias em Salvador e mais duas semanas percorrendo o interior da Bahia. Na bagagem, trouxe histórias, relatos surpreendentes e imagens exuberantes da floresta, dos mangues, do sertão, do cerrado, das dunas e do rico litoral brasileiro.

A viagem levou sete meses porque o propósito da expedição, segundo Yoshida, não era fazer o trajeto ''com pressa'', mas sim observar o modo de vida do caboclo, do sertanejo e do índio a partir da convivência diária com estes povos. A expedição contou com apoio de empresas de Londrina (Vzan, Point 700 e Multipel).

Ponto de partida - Para chegar a Porto Velho, ponto de partida da expedição, a dupla viajou 48 horas de ônibus desde Londrina. Na capital de Rondônia, tomaram um barco que levou quatro dias para chegar até Manaus (AM). ''Durante o trajeto, pelos rios Madeira e Amazonas, confirmamos a tese de que a melhor forma de se conhecer a Amazônia é indo de barco, observando os hábitos do povo e seus costumes. Porque quando você cai de avião direto em Manaus a coisa é totalmente diferente'', comparou Yoshida.

No percurso, ficaram chocados ao ver as pessoas e o próprio zelador do barco jogando toda espécie de lixo no rio. ''É um povo que depende totalmente do rio para sobreviver. A água que tomávamos banho e a que é usada para a limpeza e para fazer a comida no barco é tirada do rio, mas o povo não tem consciência da preservação'', lamentaram.

Em Manaus, os londrinenses ficaram 15 dias na casa de uma família local, visitaram órgãos de pesquisa e aos poucos tiveram que assimilar a mudança na alimentação. O ''arroz, feijão e salada'' deu lugar à farinha de mandioca com peixe e frutas. ''Comi lá tanta fruta e muitas eu nunca tinha visto, como pitomba, taperebá, tucumã, pupunha e cupuaçu'', relembrou Yoshida.

Na capital amazonense foram ao Instituto de Pesquisa da Amazônia (Inpa), ao Instituto de Permacultura (IPA) e também à Universidade Federal do Amazonas (UFAM) para conhecer projetos de catalogação de plantas medicinais e de autosustentabilidade na floresta. ''Visitamos ainda uma ecovila dirigida por venezuelanos (Abra-144) onde trabalhamos por quatro dias em troca da comida que nos ofereceram'', contou.

De Manaus foram de navio até Belém (PA), uma viagem de quatro dias na 3 classe, onde dormiam em redes. ''A cena que mais me marcou naquele trecho foi quando estávamos no Estreito de Breves, próximo à Ilha de Marajó, e de repente vi as pessoas do navio atirando na água sacolas com roupa e comida. Era para o povo indigente daquela região, que chegava a encostar as canoas no navio em movimento para pegar os pacotes. Foi uma cena assustadora'', lembrou Yoshida.

Pelo Nordeste - Em Belém é que os aventureiros iniciaram o trajeto de bicicleta, percorrendo primeiro a Ilha de Marajó. Depois pegaram ''uma carona'' de ônibus até São Luís (MA), onde seguiram com as bikes. Daí até chegar em Salvador os caminhos foram os mais surpreendentes e reveladores, pois a preferência foi por pedalar à beira-mar, pela Costa.

Dia após dia foram percorrendo praias. Fizeram primeiro a travessia dos Lençóis Maranhenses até Jericoacoara (CE), passando pelo Delta do Rio Parnaíba, no Piauí.

Depois se separaram em Fortaleza e o solitário Yoshida prosseguiu caminho rumo a Mossoró e Natal (RN). Descendo a Paraíba, resolveu deixar o litoral em direção do interior para vivenciar as duas festas de São João mais tradicionais do Brasil: de Campina Grande (PB) e de Carauru (PE). ''Pedalando pelo Nordeste e ouvindo o povo, vi que cada Estado tem os seus traços próprios. Todos lá sabem claramente a diferença entre um paraibano, um pernambucano e um alagoano''.

Um trecho marcante foi a passagem por Porto de Galinhas (PE), quando contraiu uma dengue que o deixou de cama por duas semanas. Semanas depois, após dias e noites pedalando sozinho, dormindo de favor em casas ou pousadas, quando chegou a Salvador teve a sensação não apenas de alívio, mas de realização. ''Assistindo ali ao pôr-do-sol no Farol da Barra, tive uma certeza. Não importava estar ali. O que importou mesmo foi cada ação ao longo do caminho'', relatou.

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