Pela capa, parece um livro bombástico, daqueles que trazem informações jamais reveladas sobre a temida máfia japonesa. Mas ‘‘Confissões de um Yakuza’’, que chega ao Brasil pela editora JBC, soa mais como um generoso volume de memórias de um ex-membro da organização do que propriamente um relato de dissidente.
O autor, Junichi Saga, é um médico que fez de seus pacientes os personagens da narrativa. No livro, conta a história de Eiji Ijichi, a quem atendeu em sua clínica na cidade de Tsuchiura (distante cerca de 1 hora de Tóquio de trem) e se transformou depois em seu confidente.
As 290 páginas resumem-se no depoimemto de Eiji, uma espécie de diário que começa aos quinze anos (‘‘quando as coisas começaram a dar errado’’) e termina com sua prisão quando é incriminado por omissão e cumplicidade no tráfico de entorpecentes. Sua entrada na Yakuza é precedida por envolvimentos em atividades ilícitas.
Na máfia, começa cuidando de serviços de limpeza. Aos poucos, Eiji conquista a confiança da alta hierarquia até atingir um posto entre os chefões nos negócios de jogos. Vai preso pela primeira vez ao prejudicar uma batida policial apagando a luz de um cassino, o que permitiu a fuga dos jogadores. Ao sair, é aguardado do lado de fora pelo chefe e por cerca de 70 membros da organização, que o saúdam quase como um herói.
Mais tarde, é convocado pelo exército para servir na guerra no norte da Coréia. Vai preso de novo, desta vez por arquitetar um plano de fuga com outros companheiros. Um ano depois é dispensado e volta para casa, sendo chamado logo em seguida para visitar um dos chefes da máfia, que estava doente. ‘‘Quando o Yakuza, membro da máfia japonesa, está em plena atividade, perde até o dedo mindinho se for preciso. Nesse mundo de trapaças e crimes, quem invade o território do outro perde até um de seus dedos indicadores’’ – diz ele num trecho do livro.
Ele próprio seria uma vítima da punição ao se mutilar para obter perdão dos chefes. O motivo era que havia contrariado as regras fugindo com uma garçonete por quem se apaixonara. A mulher era amante de um homens de confiança de Omiya, um dos chefões da região. Foi pedido para acabar com o namoro. Eije preferiu continuar. Pulando de cidade em cidade, o casal dormia ao relento em esteiras de palhas e no interior de igrejas. Mal tinha o que comer.
Inconformado com a situação, ele decide retornar à organização, não sem antes decepar a falange de um dedo. Acolhido de volta pela máfia, passa a participar de ações criminosas. Após assassinar um homem, cumprindo ordens, é detido mais uma vez e condenado a quatro anos de prisão. Mas pouco antes da Segunda Guerra, Eiji já está à frente dos negócios da organização. ‘‘Os bombardeiros aconteceram por todo o país’’ – conta ele. ‘‘Até navios vinham do sul para nos atacar. O mais lamentável é que enquanto os norte-americanos varriam nosso país com seus violentos ataques, nenhum dos nossos navios estava lá para responder à altura. A guerra logo terminou. Mas mesmo durante os ataques continuamos com o negócio do jogo’’.
Os negócios iam bem, até que ele se vê envolvido em outra atividade ilícita e acaba condenado a oito anos de prisão por cumplicidade no tráfico de entorpecentes. A essa altura, o leitor já esqueceu a quantidade de vezes em que ele visitou a cela. Algumas passagens de seu depoimento soam arrastadas, mas não são poucos os trechos contundentes que sua memória vai puxando ao longo das páginas de ‘‘Confissões de um Yakuza’’.
‘‘Confissões de um Yakuza’’. Autor: Junichi Saga. Editora JBC. Preço: R$18,50. Informações: 0800155026.

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