Diário de bordo (Wilson Bueno)
Na noite morna de São Francisco do Sul, uma amiga nos conta uma história sublime lida num obscuro autor inglês que ela não consegue lembrar o nome.
A estória é a história do fimdo mundo e, assim, era uma vez.
Houve, um dia, um planeta cuja civilização se extinguia a cada dois mil anos, recomeçando tudo, então, do mesmo e complexo nada em direção a novo e impetuoso milênio, ao que se supunha sempre uma nova era.
A característica mais insolente deste planeta sem nome era que ele possuía dois sóis - o dia, nele, se constituindo só de um longo, infinito e fastidioso dia, pois enquanto um sol se punha, outro já todo alvorecia. Com canários e abutres cortando o céu do planeta sem nome.
Aterrorizada, toda a população do planeta sem nome esperou, com angústia, a hora final, o juízo, o fecho de um ciclo, os trâmites dos lutos, medos sufocados na garganta feito flores vivas e mutiladas.
Então, os habitantes do planeta fixaram os olhos no céu onde, desde sempre, brilhara o sol, e o mundo principiou a acabar - aqui e ali as réstias do sol vespertino, que era o segundo sol do dia, pareciam ser engolidas por uma ausência de luz que não era a exata metáfora das trevas, antes do equilíbrio e da doçura.
Silenciosa, preocupada, a população do planeta sem nome percebeu que o segundo sol parecia quase impossível pelo que lenta, em veludo, uma noite, a primeira da história, se insinuava sobre o planeta sem nome, e logo se fez inteira, jubilosa, uma noite assim de grande lua e estrelas.
E todos recolheram-se às suas casas, esperando pelo pior, mas ninguém se conformava de que o fim do mundo pudesse ser uma coisa tão bela e só três ou quatro noites depois, perceberam que tudo recomeçava, agora com os dias findos levando estrelas ao azul profundo.
E nada acabou e tudo persistiu numa grandeza cheia de esperança.Os zembras
Ah, meu amor, os zembras!
Recordo que lutam sem trégua contra o mal, como se fosse possível vencê-lo, a ele, o mal que se engasta na pedra igual que irremovível e deletério limo. Meu amor, os zembras!
Quase disformes, à primeira vista não possuem sistema defensivo a exemplo de garras, chifres, peçonha ou dentes. Os zembras contam exclusivamente com a força da persuasão, não pequena, com que a Natureza os dotou a fim de que não pereçam cá neste vale de lágrimas.
São porém frágeis ao extremo e dificilmente alcançam vencer quem os intente destruir.
Estes farrapos tocados pelo vento, vês?, são carcaças de zembras voando à solidão dos asfaltos desesperados, lembranças, espectros, meros papéis.Debret & a praga
O escultor Auguste Taunay deixou um diário com anotações sobre alguns aspectos do cotidiano da Missão Artística Francesa que veio ao Brasil em 1816 e, nele, no seu Journal des Tropiques, o que se destaca é o acabado misticismo do genial Jean Baptiste Debret, o pintor e desenhista francês que nos detalhou usos e costumes da primeira metade do século XIX.
Antes de qualquer desenho, sempre com modelos vivos, o artista solicitava que todos se ajoelhassem, e invocassem, numa prece, Notre Dame de Salette, com longas orações, em francês, que só ele, ao final, acabava rezando.
Auguste Taunay registra no diário a surpresa que estes verdadeiros happenings causavam na paisagem pacata do Rio colonial: de dez a quinze escravos, ajoelhados na rua, murmurando em banto ou angola, rezas de esconjuro contra o lunático francês que insistia que eles repetissem, a uma só voz, naquele idioma arrevesado, as invocações da santa, antes do início dos trabalhos.
De um lado, Debret tentando proteger-se, de todo o mal, em francês, e de modo ubíquo, concomitante, recebendo, sem sequer desconfiar, sobre a alma desprevenida, a impensável praga de escravos inquietos como cavalos.
Soubesse disso talvez não tivesse morrido, em 1848, na avançada idade de 80 anos, aquele tempo em que um quarentão já era por todos considerado um macróbio...





