Diário da criação reciclada
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de novembro de 1997
Francelino França Londrina 
Mário CésarFernando Augusto:
ensaio sobre
o processo
criativo através
do fazer
do cotidianoO artista plástico e professor de desenho e pintura da Universidade Estadual de Londrina Fernando Augusto dos Santos Neto faz o lançamento hoje do livro Diário de Passagem. O trabalho é resultado de um projeto de mestrado em Comunicação em Semiótica na PUC de São Paulo e uma reelaboração da dissertação, numa linguagem mais acessível aos leitores. Segundo o artista, os desenhos contidos na obra foram realizados entre 1990 e 95.
Diário de Passsagem pode ser considerado o melhor trabalho de edição da Editora da UEL, apesar de parte da confecção do livro ter sido terceirizada. A obra foi impressa em papel cuchê, contendo 130 páginas e 20 reproduções em cores em pequenos e grandes formatos. É o resultado de um ano e meio de trabalho, segundo contabilizou Fernando Augusto, envolvendo a elaboração do texto, escolha das imagens e projeto gráfico.
A idéia é promover uma reflexão sobre o processo criativo, sintetiza o autor. A ênfase do livro é sobre o fazer artístico, sobre a descrição do processo criativo. Fernando Augusto oferece uma conversa em primeira pessoa a todos os interessados em desenho, pintura e criação artística, direcionada mais especificamente aos mais jovens.
Em suas pesquisas no âmbito da semiótica, Fernando busca compreender a criação artística como sistema de signos. Na parte teórica, o autor conceitua o desenho como processo, a poética da matéria e da técnica, além de fazer considerações sobre as fontes que o influenciaram nessa etapa de sua carreira artística.
Cartas, telegramas, lembretes, anotações, envelopes,
extratos bancários, tíquetes, bilhetes e notas fiscais
serviram de base para desenhos rápidos de Fernando Augusto
Diário de Passagem é uma auto-reflexão, pautada pelos desenhos, dividida em duas partes. A primeira é um trabalho de reelaboração da mensagem a partir de correspondências engavetadas, cuja finalidade é uma construção visual. Ele acredita que esse seria o material mais apropriado para pensar o mundo. É uma aventura pelo transitório, afirma o autor.
Entre o destinatário e o remetente existe uma história que se perde no tempo. Existe uma atitude de abandono nas cartas depois de lidas as mensagens. O que chamou a atenção de Fernando Augusto não foi o conteúdo dos papéis, mas a quantidade, o volume desses materiais. A superfície trabalhada pelo artista plástico possuía uma mensagem. No entanto, afirma Fernando em seu livro, os textos tinham sentido de provisoriedade.
Outro suporte trabalhado por Fernando Augusto foram as capas de diário escolar da UEL. Os diários de frequência dos alunos deixaram de ter uma posição descartável. Se o material não for mais usado, qualquer coisa a acrescentar pode ser interessante, acrescenta. Fernando interferiu nesse material trabalhando os croquis - desenhos rápidos sem muita correção - sem preocupação com resultados. É o desenho direto sobre papel, sem estudos prévios, nem fins específicos.
O traço como propósito de investigação, resume. Fernando se valeu de um material diversificado como caneta, guache, nanquim, colagem, no intuito de atender sua urgência expressiva. A satisfação e o prazer de criar deram-me a convicção necessária para mergulhar num processo pessoal e simples do desenho. (...) Descobri o instante artístico como momento de iluminação, por meio do qual o homem faz a sua própria integração, teoriza o artista. Posteriormente, Diário de Passagem será lançado em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Manaus.


