Nova York _ Diretores da Petrobrás me processam por US$ 110 milhões. Alegam que o programa ‘‘Manhattan Connection’’ é mostrado nos Estados Unidos, no canal 10, e isso os difama junto aos americanos. ‘‘Manhattan Connection’’ não é exibido em canal algum dos EUA. O canal 10 é a CNN em Nova York. Nunca mostrou nada nosso. Os burocratas, esses são pessoas totalmente desconhecidas nos EUA.
Petróleo deles

Hoje, sabemos que os ‘‘árabes’’ usaram as companhias de petróleo. Deram-lhes sociedade enquanto foram necessárias para a prospecção, e, à parte o golpe da Opep em 1973 e 1979, terminaram comprando tudo. O petróleo, sim, é deles... Num país com a costa grande do Brasil é provável que haja petróleo. Mas não temos capital e tecnologia para prospectá-lo. Juarez Távora, um dos idealizadores da Petrobrás, confessou essa inadequação num discurso memorável em 1953, pré-criação da Petrobrás, que Gilberto Paim cita na íntegra no seu livro definitivo sobre a origem e desvãos da Petrobrás. Analistas como Roberto Campos, ou anônimos, em publicações como VEJA, já demonstraram irrefutavelmente o quanto é contraproducente a Petrobrás. O capitalismo de Estado, que é a ideologia nacionalista brasileira, é um fracasso econômico. A URSS, com recursos e poder infinitamente superiores aos nossos, desabou em plena paz, quando politicamente dominava metade da Europa, parte da África e Ásia e até aquela Hacienda espiroqueta, Cuba.
Lobby ameaçado

Parece que já 60% dos brasileiros favorecem a privatização da Petrobrás. É um palpite feliz, porque sabemos tanto de privatização quanto sabíamos de moeda estável pré-real. O vexame da telefonia é diário. Os Banespas estão em toda estrutura estatal. Milhões de brasileiros vão aos EUA e Europa experimentar o que é uma economia de mercado. Entregam seu real numa bandeja aos gringos.
Vai chegar um momento em que o real só sobreviverá se se livrar da carga morta do Estado. Um presidente com 54% dos votos, simpatia geral pela sua personalidade, que é de Primeiro Mundo, deixou tudo de lado para se reeleger. Corporativismo e estatismo estão de mãos dadas, direita e o que passa por esquerda no Brasil. Qualquer empresa multinacional cria mais empregos do que qualquer estatal. Cria democraticamente, isto é, pela oferta e procura de mão-de-obra, ao contrário das estatais, cabides de empregos de apaniguados civis e militares. Tudo isso é óbvio.

Bisonhice

O Brasil reclamou de tarifas contra nossas matérias-primas, no caso o suco de laranja. Que tal propor uma coisa qualquer em troca da abertura para nossos produtos? Negociar é isso.
Talvez não se deva pedir muito de Fernando Henrique. A única vez que deu certo, politicamente, foi quando se elegeu presidente e por motivos estranhos à sua índole e idéias. Foi beneficiado pela situação que Antônio Carlos Magalhães descreveu: ‘‘Entre Lula e uma alternativa, a maioria vota na alternativa.’’ O Plano Real foi idéia de técnicos, os dois Gustavos, me dizem, Franco e Loyola, que copiaram Menem, que tinha liquidado a inflação com uma âncora cambial. E Menem, como Fernando Henrique, tinha um enorme prontuário de nacionalismo chinfrim, nada mais nada menos do que Juan Perón e los panchos, montoneros, etc.
O Nafta foi feito para nos excluir, porque excluímos a economia moderna. Somos bons devedores. Paul Volcker disse num almoço a que fui que os banqueiros estão satisfeitos de emprestar dinheiro ao Brasil. Nada de investimento produtivo numa economia fechada pelo estatismo e pelo corporativismo. Os banqueiros particulares preferem ficar recebendo juros ad perpetuum. E, se o coreto balançar, tiram o dinheiro correndo, como fizeram com o México.

Natal e 31

Estarei em Paris quando esta for publicada. Pretendo assistir a uma missa na Sainte Chapelle, se for em latim, porque, em francês, bato mesa. A liturgia de Trento, da Contra-Reforma, é lindíssima. A Sainte Chapelle é a homenagem dos monarquistas a Maria Antonieta, decapitada em 1792, na Revolução Francesa. Fica na Conciergerie, prisão em que a ex-rainha e ex-rei esperaram seu fim. O lugar é belíssimo. É destas coisas: fui com um amigo que me falava o tempo todo da justiça do ato revolucionário contra os Capetos, Luís e madame, mas ao entrar na capela ficou mudo, pálido, e mal segurou as lágrimas. Não se pode ser racional o tempo todo. A mulher era sem charme, meio idiota (representou ‘‘Bodas de Fígaro’’, de Beaumarchais, em Versalhes), e, provavelmente, sem ela, Mirabeau teria feito um arranjo, antes que os radicais como Danton tivessem oportunidade de tomar o poder. Mas ainda assim morreu bem. A Sainte Chapelle, com a licença poética, perdoa seus pecados e ressalta sua fragilidade de mulher, a profunda ofensa que sofreu como mãe. Pagou suas contas. ‘‘Se recebêssemos o que merecemos, quem de nós escaparia do chicote’’? Muitos escapam... quando se lê uma obra da densidade de ‘‘O Ancien Régime’’, de Le Roy Ladurie, é difícil reter a visão simplista da plena justiça da causa revolucionária e da vilania absoluta da aristocracia. Nenhum revolucionário analisou o que aconteceu com a urbanidade e sabedoria de Alexis De Tocqueville.

Evitando Mitterrand

Acho que Mitterrand e seu catamita cultural Jack Lang fizeram estragos culturais em Paris, horrores como a nova Ópera, é o Arche de la Defense, que parece um gigantesco gol de hóquei. Mitterrand faliu a França, também. Mas Paris ainda tem ecos da época de Proust, Rimbaud, Joyce, Beckett, Breton, em que Picasso, Matisse e Cézanne disputavam o cetro de ouro. Paris tem uma atmosfera que cidade alguma tem, porque é história de quarteirão a quarteirão, apesar da fedentina dos automóveis, de Le Drugstore, McDonald’s, etc. Uma vez fui a Salpêtriere e passei horas entre momentos de Janet e Charcot. No La Perouse se encontram traços de Zola e Proust. Foi lá que Beckett um dia leu Schopenhauer, a quem considerava ‘‘Uma justificação intelectual da infelicidade’’. Houve uma época em que todo mundo, de Henry James a Trotski, tinha de ir a Paris. Nenhuma outra cidade atraiu tanto talento, tantas idéias, tanta sensibilidade. Aldous Huxley dizia que os poetas franceses nasciam sabendo versificar. Era genético, pré-Derrida, Foucault e Barthes, coveiros da alma francesa. Alguns eflúvios ainda pairam no ar, ectoplasmas...
Nova York por aí

  • Lendo policiais. Ruth Rendell. Acontecem coisas concretas. Morte é sempre concreta. Assassinar é concreto. É o charme do ‘‘Thriller’’. Permite enredo, o que num romance moderno joga o autor num círculo vicioso de relativismo que termina dominando tudo o mais e colocamos de lado, porque já esgotamos a paciência para qualquer retórica ou emoção. O policial, não. Toda morte é diferente.
  • Wittgenstein lia X-9. Bertrand Russell, Agatha Christie. Edmund Wilson se ninava com bourbon e Sherlock Holmes. Queremos uma história que não nos faça duvidar a cada instante da motivação das pessoas, que nos faça propor variantes e que termine com a punição de quem cometeu crime.
  • John Updike escreve um louvor ao ‘‘Fowler’s’’, que nos ensina como usar inglês, sem par.
  • Fui ver ‘‘Chicago’’, que vi na estréia, com Gwen Verdon, 20 anos atrás. Agora, Bebe Newirth, muito pneumática, dança Bob Fosse como deve ser dançado, uma espécie de movimento sexual perpétuo.
  • ‘‘Adeus às Armas’’, de Hemingway, vem em filme aí com o título de ‘‘No Amor e na Guerra’’, com Sandra Bullock, na enfermeira, que na versão anterior era Jennifer Jones. O livro vive da descrição da retirada de Caporetto. Como reproduzi-la em opulenta mas muda fotografia.
  • O último sucesso de Wood Allenn foi ‘‘Hannah e suas Irmãs’’. Agora, ele está sendo elogiadíssimo no seu musical, ‘‘Todo mundo diz que você me ama’’.
  • Em janeiro, cinco balés.
  • Navegar é preciso, viver não é preciso.
  • Temos agora Orson Welles nos falando do túmulo, por assim dizer, com um compêndio de suas mágicas... Sim, mágicas, Nostradamus, bola de cristal, etc. O crítico Stanley Kauffman, do New Republic, escreve que Welles é um gênio, grifando o é. Mas será que alguém não sabe? Eu diria que ninguém que use os olhos e a cabeça sabe. Escrevo esta nota depois de ter visto em seguida trechos de ‘‘Macbeth e Othelo’’, dirigido e interpretado por Orson Welles. Não sabe dizer o verso shakespeariano. Faz caras em vez de interpretar os papéis. É interessante sem dúvida a atmosfera semipré-histórica que alguém criou para ‘‘Macbeth’’. Mas a fúria homicida do general e sua mulher, neca, ducinéca. Em ‘‘Othelo’’, ele não parece ter atração sexual por Desdêmona. Está mais interessado em expor sua imensa figura às câmeras com o olhar charlatão do mágico profissional.
  • O bom de Welles nunca foi registrado em filme. Uma encenação que fez em Londres de ‘‘Moby Dick’’, de Melville, em que o Capitão Ahab era recriado com sua voz tonitruante e havia um grande impacto melodramático na sugestão da baleia e dos oceanos. Welles é tão admirado pelos críticos de cinema por ser falso, falso em escala de Falstaff (sua melhor interpretação, menino devasso que comeu demais, um auto-retrato), porque o cinema deu em nada, e o próprio nada precisa de um talismã qualquer para marcar sua presença, sua passagem na história, antes que se tornasse de arte de massas em apêndice de televisão.
  • ‘‘A civilização acabou’’, Paul Valéry ao ver seu primeiro filme. ‘‘Jesus, it ain’t possible’’, William Faulkner, ao ver o seu primeiro...
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