Nova York - A privatização da Vale do Rio Doce vai ser adiada, me dizem, em troca da passagem da emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Será verdade? Os precedentes deste governo são de tergiversação e recuo. É o Brasil que mais e mais se adia, sine die.

Cadinho de Miller

O filho de Artur Miller é o produtor (25% dos lucros) de ‘‘The Crucible’’, ‘‘O Cadinho’’, e a filha de Miller, Rebeca, se casou com Daniel Day-Lewis, o protagonista. A família que trabalha unida, etc.
Winona Ryde pega no pipiu de Lewis duas vezes. Não é erótico, mas é o que há de novo no filme que estreou. John Proctor continua solidamente honrado (e chato, e falando em pedregulhos), mas pecaminoso, porque conheceu biblicamente Abigaill (Winona), mas se recusa a abandonar a mulher, solidamente honrada, Joan Allen, pela amante pequerrucha, que aí se vinga difamando-o e à mulher.
Por que essa história de ‘‘o céu não conhece fúria igual à de uma mulher rejeitada’’ é tida pelas esquerdas ocidentais como paradigmática da perseguição aos comunistas de Hollywood, ao que chamam de macarthismo? Robert Warshow, comentando a peça em 1953, notou que era mais pertinente aos expurgos stalinistas na Checoslováquia, em que toda a liderança do PC, todos judeus, falando nisso, foi liquidada depois de fazer confissões falsas de serem agentes do sionismo ou do intelligence (vilões favoritos de Stalin). Há um filme francês, de Costa-Gavras, ‘‘Os Cegos’’, com Yves Montand, contando a história (razoavelmente, porque há apelos à suposta pureza de Lenin). Nunca interessou às esquerdas ocidentais.

Bruxas e comunas

Dezenove mulheres foram enforcadas como bruxas nos 1600, em Massachusetts, terra dos puritanos. Qualquer desvio religioso era punível cruelmente por esses calvinistas. É argumentável que, apesar da piada, bruxas não existem. Comunistas existem, ainda que cada vez mais anêmicos. Seu propósito é derrubar a ordem capitalista dos EUA e estabelecer a ditadura do proletariado americano. Seus defensores afirmam que nunca tentaram fazer isso. Então eram falsos comunistas, ou incompetentes, ou festivos, apenas. Lembraram nossos professores de sociologia. Nossas universidades estaduais e particulares estão lotadas de tipos assim, todos se dizendo machistas e, se perderam a coragem de pregar o stalinismo, depois da dissolução do império soviético, em 1989-1991, ao menos são contrários à entrada do Brasil na economia de mercado e favoráveis à manutenção das onerosas e ineficientes estatais que impedem que a grande maioria do povo brasileiro tenha acesso a empregos, a uma economia de oportunidades.

Delações

Não era delação propriamente que se exigia da testemunha dócil à Comissão de Atividades Antiamericanas. Era que se reafirmasse que alguns comunistas manjados eram mesmo do partido e potenciais subversivos.
No Brasil, o equivalente seria denunciar Prestes como comunista. Não seria uma revelação sensacional.
Arthur Miller ficou chocado com a atitude de Elia Kazan de se prestar a esse autêntico auto-de-fé perante o Congresso, de se jogar abjetamente aos pés dos parlamentares como os condenados pela Santa Inquisição. Ele escreveu a peça por isso. Nojo à delação. Kazan, que tinha dirigido os maiores sucessos de Miller, Todos os ‘‘Meus filhos’’ e ‘‘Morte de um caixeiro-viajante’’, fez o filme ‘‘On the waterfront (Sindicato de ladrões)’’, tirado de uma história de outro comunista arrependido, Budd Schulberg, louvando a delação de Marlon Brando, estivador, de um sindicato corrupto e assassino, que Schulberg e Kazan equiparam ao Partido Comunista.
Miller escreveu outra peça contra a delação, ‘‘Panorama visto da ponte’’. Mais uma vez sexo é misturado com moralidade. Um jovem imigrante ilegal italiano é denunciado porque namora a sobrinha de um velho que está incestuosamente apaixonado por ela. A questão é exclusivamente moral.
Nova York por aí


qq Por US$ 43 mil, você pode comprar o carro ideal, o Austin Saloon inglês, o táxi negro. Amigos meus aqui ficaram excitados. No Brasil custaria os olhos da cara. Deve haver um contrabando legítimo que drible o pombalesco e osiriano Dornelles.
qq A Saks está oferecendo dois Mercedes-Benz. As vendas no varejo cresceram 11,8%. Há um jogo de xadrez, em que as pedras se movimentam com a qualidade de grão-mestre. Em miúdos, um pato descarado, mexendo em botões pode acionar movimentos de jogador de primeira categoria. Algumas combinações, presumo, somente. Há um componente em xadrez, que é sempre novo, improvisado, que máquina alguma pode reproduzir.
qq Na Califórnia, ressuscitaram as carpideiras com mil e uma atividades. Está triste por que teu borogodó brigou contigo? Vá para a praia e contrate uma pessoa para chorar por você. Preocupado com o emprego? Por um tutuzinho, alguém rói as unhas em teu lugar.
qq Natal é triste e mais e mais tirânico. Ou se fica humilhado por não poder prover benesses a quem amamos, ou ficamos assoberbados com o número de obrigações. Não é nem o fato de que se tem de gastar algum dinheiro, como agradecimento sincero, prova de estima, ou esforço para não aumentar as tensões sociais. É a imensa chatice de se ter de parar tudo que nos interessa para fazer listinhas.
qq Leio no Sérgio Augusto que a velha Atlântida vai ressuscitar suas chanchadas e produzir novas. É uma chance de o cinema brasileiro se tornar pelo menos uma força econômica interna. Há público para a comédia grossa no Brasil, comédia, de resto, às vezes, muito engraçada. Os comediantes da Praça Tiradentes, como Oscarito, Colé, etc., eram muito divertidos, ainda que seu teatro tivesse de ser qualificado de velho. O cinema pretensamente de elite brasileiro é que ainda não deu sinal de se tornar comercialmente viável, apesar de bocas-ricas estatais, como a Embrafilme, e agora a isenção até US$ 6 milhões para o audiovisual. O que deve haver de nota fria na praça não está no gibi.
qq Vi na DBS ‘‘ Stealing love’’, com Liv Tyler. A menina vale uma missa, fisicamente, mas o tempo que fica na tela é excessivo. Não há substituto para talento. É por isso que Julia Roberts, Demi Moore e Michele Pfeiffer estão entrando em ocaso.
qq Já pensei seriamente em escrever um livro sobre predestinação, de São Paulo, a Santo Agostinho, Calvino, a Pascal, Karl Barth.
qq Sem predestinação, religião é inacreditável, digo a religião tingida de humanismo. A crueldade da vida com os fracos, incompetentes, inferiores, crianças, etc., levou Ivan Karamazov a devolver a Deus sua entrada no mundo.
qq A predestinação é uma loteria misteriosa. Um ato de graça divino, arbitrário, inexplicável, salva a uns e condena a outros.
qq Melville fala no ‘‘Mistério da iniquidade’’. Kant se diz incapaz de compreender O mal radical. Karls Jaspers sugeriu a Hannah Arendt a banalidade do mal e ela a imortalizou em ‘‘Eichmann em Jerusalém’’. Iago? Seus objetivos são banais. Sua personalidade, waal.
qq ‘‘Não há bem ou mal. Thinking makes it so. Assim é se lhe parece.’’ Shakespeare & Pirandello.

mockup