Diário da Corte / Paulo Francis
Nova York - O pretexto para adiar a privatização da Vale é que ouro foi descoberto, o que obrigaria a uma reavaliação da empresa. Alguém com QI superior a 0,5% acredita nisso? Toda vez que a Petrobrás quer tomar mais do Tesouro anuncia descoberta de petróleo. Nunca aparece, mas o Tesouro morre no que ela quer.
Vale desastre
A Vale é a elefantíase e inépcia personificadas. Recebendo da bolsa popular US$ 3 bilhões por ano, retorna 0,8% sobre o dinheiro. Um simples certificado de depósito bancário rende mais de 1.000% desse retorno. Não duvido de que haja muito minério indescoberto no Brasil. Se o País fosse aberto à prospecção, certamente o rendimento nos enriqueceria. Carajás foi descoberta por acidente: uma pane de helicóptero jogou geólogos em cima dos minérios...
A Vale tem, claro, uma corriola de empresários com que partilha o bolo da nossa miséria. Essa gente ataca o Brasil desde os tempos de João Charuto.
Riqueza real
A Coréia do Sul tem um terço do Produto Nacional dos EUA, cerca de US$ 2 trilhões. É um naco de terra, separada da Coréia do Norte, que é uma ditadura socialista, em que parte da população morre de fome. A Coréia do Sul tem participação decisiva em sete setores-chave da economia mundial. O Brasil, em nenhum.
Potemkin
Fernando I. O rei está nu? Bem, não precisamente, mas o Real é um Potemkin. Este, primeiro-ministro de Catarina, a Grande, da Rússia, ex-amante dela, etc., ao saber que a imperatriz ia visitar o interior da Rússia, mandou instalar fachadas douradas diante de todos os casebres. Catarina ficou encantada. Kandir é apenas um deslumbrado a mais. Seu sorriso me lembra o de uma ex-primeira-dama dançando com Omar Shariff, foto em Veja que entrou para nossa memória visual. À sua maneira suburbana, brancaleone, Kandir saca mais do que Potemkin.
Corrupção
As eleições últimas dos EUA custaram cerca de US$ 1 bilhão. Cerca de US$ 250 milhões são resultado de deduções permitidas na declaração de imposto de renda. Mas o resto é doação de grupos, lobbies, e até de países estrangeiros. Clinton tem uma caixinha de cerca de US$ 600 milhões, a maior parte vinda da Indonésia, Taiwan e outras economias emergentes da Ásia. Quem diz isso é Dick Morris, arquiteto da reeleição de Clinton em 1996. Disse à prostituta Sherry Knowlson, de quem era freguês fetichista e anal-erótico, que gravou a conversa.
Berço e democracia
Clinton é de família pobre, de gente que só começou a ter o direito de votar na primeira metade do século passado. Lembra certos senadores do nosso sertão, que fazem poços de água para lavar cavalos, negando-a aos flagelados, ou compram votos para os filhos por R$ 5,00 per capita. Mentalidade raspa-barril. Antigamente, nos EUA, só votava quem tinha propriedade e berço. Daí de Platão a Henry Adams se preferir uma república oligárquica à democracia representativa, que, inevitavelmente, nivela por baixo.
Júlio César, que era um populista operacional, vinha de uma das mais antigas famílias romanas, era um patrício e membro da ordem equestre, o clube mais exclusivo de Roma. Até os tarados Nero e Calígula eram ultrabem-nascidos, ainda que às vezes fruto de incesto, que acontece nas melhores famílias. O Império Romano durou 2 mil anos.
Os ingleses sempre reconheceram a importância do dinheiro e do privilégio ancestral da nobreza. Os poderosos, pelo que Marx chama de superestrutura e Freud de superego, ganhariam consciência de que era necessário fazer alguma coisa pelos destituídos. Uma a uma as barrerias ao sufrágio universal foram caindo, de 1832 a 1918, neste último quando deram o voto até à mulher com mais de 30 anos. O primeiro governo democrático, sem nobres ou grandes investidores, foi o de Clement Atlee, líder trabalhista, eleito em 1945. Enterrou o império britânico.Poder e mau cheiro
Cerca de 40% dos americanos têm investimentos na Bolsa. Nos dois últimos anos, o rendimento desses portfólios foi entre 20% e 30%. Os EUA cresceram 13% desde 1992; 13% de US$ 6 trilhões são US$ 780 bilhões, mais do que o PIB da maioria dos países do mundo. É bestial, como dizem os portugueses. Mas, se você vê a televisão ou jornais nacionais dos EUA, diria que aqui só há gente miserável e em conflito, racial, sexual, etc. A mídia hoje é o xexéu da festiva.
Pensadores
Dante coloca Aristóteles no limbo entre os pagãos virtuosos, que, por não conhecerem Cristo, que os redimiria, não podem ir para o céu. Mas Dante diz que Aristóteles é O mestre dos que sabem.
Temos o ensaio de Olavo de Carvalho sobre Aristóteles, que é uma introdução competente ao filósofo para quem nunca o leu. E leio que um diplomata inglês descobriu na Grécia os escombros do que era o Liceu onde Aristóteles ensinava aos aristocratas o que é a vida.
Aristóteles foi batizado por Santo Tomás de Aquino, porque considerava corpo e alma uma entidade só. Aristóteles deu a Aquino o pé para justificar um dos pilares do cristianismo, a ressurreição do corpo. Aristóteles, bem entendido, nunca disse que a alma era imortal, apenas que ela e o corpo eram indivisíveis. Aristóteles estudou zoologia. Deu mancadas, claro. Foi acusado, maldosamente, de inventar a chamada geração espontânea, motivo de piadas mil. Havia muito pouca pesquisa no seu tempo, apesar de Tales ter já criado o princípio de unificação científica, ao dizer que a Terra era toda água. Errou no varejo, acertou no atacado. Os marxistas admiram Aristóteles, porque, como Bacon, é um dos raros filósofos da Antiguidade a considerar a evolução material tão importante como a espiritual. Os conservadores gostam do seu conservadorismo. Aristóteles acreditava que a magnanimidade e a virtude, bens supremos, precisavam suporte de capital.
Aristóteles tem pensamentos impalatáveis hoje em dia. As mulheres seriam concebidas quando o ato sexual é menos intenso. Achava que muitas pessoas têm vocação para escravo. Os planetas e estrelas se movem por amor de Deus. Deus é o pensamento pensando em si próprio, uma definição que sugere o gnosticismo futuro. Bertrand Russel escreveu que ele foi o mais influente filósofo dos últimos 2 mil anos. Foi o maior intelectual, ponto.
Juventude
No balé, com um humor cão, sou interrogado em português sobre isto e aquilo. A voz é educada e respondo educadamente. No intervalo conheço Alexandre Kawakami, 22 anos, mineiro de Belo Horizonte, advogado, estudante do último ano de faculdade, já advogando. Veio a Nova York por dez dias para ouvir música, ver arte, comprar livros e CDs. É bem-humorado, gosta de um bom papo, ouve Cole Porter, assiste também a shows populares. Faz observações agudas sobre o balé que estamos vendo, é freguês do Grupo Corpo de Belo Horizonte. Tem um bom ouvido musical. Tornamos a nos encontrar num outro espetáculo e terminamos jantando juntos. Alexandre foi um choque de adrenalina no meu moral. Pensei que o jovem brasileiro fosse exclusivamente seguidor do imbecilismo de massa que tem tanto destaque na nossa mídia. Por que me ufano do meu país...
Mãe madrasta
Quando bateu zero grau, as pessoas foram à rua de sobretudo aberto, desafiadorras, só faltando dar o grito de Tarzã. Um dia foi a 4 e multidões caudalosas apareceram, muita gente dizendo É verão. Nova York, durante uma semana oscilou entre -10 e -20. Às vezes chovia, chuva é odioso, ponto, ao diabo com a lavoura. Telefono a um amigo no Rio. Está 40. Ligo para São Paulo. Chove tanto que quem fala comigo não pode pegar o carro e ir para casa. Como é mesmo aquela história de que conquistamos a natureza? Rutherford partiu o átomo, em 1904, dando-nos o instrumento para destruir o mundo e a nós próprios. Ecologistas adoram a natureza como os seguidores de Khali, a deusa sanguessuga. Somos apenas uma sombra que anda, que se pavoneia e se agita na nossa vez no palco e de que depois ninguém mais ouve falar...
Intelectual de bem
Antonio Callado, editor e repórter de jornal de altíssima qualidade, escritor de romances como Quarup, tentando compreender nossa herança índia, e de peças como Pedro Mico, sobre o velho Rio malandro, morreu. Conheci-o em 1955. Nem mesmo nossas divergências políticas afetaram de leve minha admiração e estima por ele.
Hitler e Stalin
A idéia de excluir dinheiro e tráfico de influência de política é infantil, como se política fosse uma fé religiosa, uma vocação de bons samaritanos. Havendo democracia, haverá corrupção. É por isso que radicais como Marx, ou Proudhon (pai do anarquismo, como Bakunin), consideravam eleições intrinsecamente reacionárias. Marx propôs uma ditadura do proletariado que limpasse a vida pública. Resultou, na prática, numa ditadura burocrática, sem nenhuma das limitações que se aplicam a políticos democráticos. Hitler, sem o item de exclusão racial e papagaiada alemã, deveria ser mais simpático à nossa esquerda. Afinal, nacional-socialismo, ou capitalismo de Estado, é o que prega, dia e noite.
Nova York por aí
qqBarbosa Lima Sobrinho fez 100 anos dia 22 e Nelson Hoineff fez um documentário sobre a vida dele. Houve um momento no regime militar que ele e Alceu Amoroso Lima, no Jornal do Brasil, eram nosso consolo da humilhação constante de ser censurado.
qqAltri tempi.
qqErnest Junger, escritor alemão, fez 101 anos e, como Barbosa Lima, continua forte e sacudido. Mentalidade militarista, em quem, suspeito, Yukuo Mishima se inspirou para suas fábulas marciais, antes de se suicidar. Junger lutou na 1ª Guerra Mundial, 1914-1918, foi ferido 14 vezes e ganhou a maior condecoração alemã, Pour le mérite. Na 2ª , foi do estado-maior das forças alemãs que ocuparam Paris. Gosta de lutar. Muitos homens gostam. Mas saiu de moda dizer isso, na efeminada sociedade atual. Junger produziu uma obra crítica: Despenhadeiros de Mármore, e, mais acessível, Tempestade de Aço, sobre a 1ª Guerra, jubiloso pelo sangue derramado. Muitos homens acreditam que guerra é a quintessência de expressão de personalidade e virilidade e morrer em campo de batalha é a única maneira digna.
qqJunguer achava Hitler um cabo-de-esquadra vulgar. Odiava o populismo do nazismo. É a posição típica da aristocracia alemã daquele tempo. Mas nunca se opôs a Hitler.
qqO marquês de Queensberry chamou Oscar Wilde de sondomita. O n é a graça. Uísque nos converte teleologicamente em gosto de madeira. Não teologicamente.
qqKathie Roiphe, autora de A Manhã Seguinte (The Morning After), um clássico satírico sobre o feminismo das universidades do Leste dos EUA, em que as moças desfilam no câmpus cantando Give us back the night. Devolvam-nos a noite, que lhes teria sido roubada pelos estupradores à sua espreita. Que devolução, pergunta Roiphe, um chuchu? São todas virgens desgrenhadas, de uniforme maoísta, que homem algum quereria de graça. Quase lincharam Kathie. Agora, ela está na Esquire de fevereiro, escrevendo sobre a necessidade psicológica de muitas mulheres de ter um homem que cuide delas e as proteja. Conta que saiu com um homem a primeira vez. Quando veio a conta, ele assumiu. Ela ficou, como direi, azeitada. Não quer, bem entendido, abandonar sua carreira. Quer a carreira e a vida de mulher antiga, teúda e manteúda. Contou isso a sua mãe, feminista de passeata, Annie Roiphe, autora também, que ficou horrorizada.
qqKathie Roiphe é uma estrela não por gozar as feministas, mas porque escreve bem.
qqTennessee Williams escrevia mal. Simon Blow, no Spectator, diz que Mary McCarthy, aquela ardente feminista de uma era pré-feminista, atacou Um Bonde Chamado Desejo com veneno de desequilibrada. Mary McCarthy não era feminista. Desprezava feministas. É só ler O Mundo de Mary McCarthy, sua biografia por Carol Brightman. Criticou a peça de Tennessee Williams por ser mal-escrita. Põe Williams no ridículo, dizendo que o problema de Stanley Kowalsky, Marlon Brando, e Blanche du Bois, Vivien Leigh, é que a casa dos Kowalsky tem um banheiro só. Stanley chega sujo e cansado do trabalho, quer fazer pipi, e Blanche está ocupando o banheiro, tomando banho de banheira, cantando.
qqBlow cita frases de Blanche como Às vezes - há Deus - tão depressa. Blow acha duca... Mary McCarthy escreveu que Tennessee Williams e Arthur Miller, os dois dramaturgos americanos que emergiram depois de Eugene ONeill, eram como meninos que levavam deveres à escola com um bilhete de desculpas de suas mamães pelos erros gramaticais e de sintaxe dos filhos. Mary só errou em não perceber que Williams tinha um senso de estrutura teatral considerável. Tudo que escreve é teatro. É excitante, mas analisado, desmorona. Mary McCarthy (1912-1989) foi romancista, ensaísta e crítica. Ave Maria.





