A última coluna de Paulo Francis chegou à Agência Estado incompleta. Quando a enviou, na manhã de terça-feira, o jornalista já sentia fortes dores, o que provavelmente o atrapalhou na operação de transmissão, de que ele sempre cuidou pessoalmente. Em respeito à sua memória, dado o rigor com que cuidava do texto, publicamos a primeira nota truncada, exatamente como foi enviada pelo jornalista.


Ilustração: JotaNova York ... seus olhos azularam. É televisão inglesa. O Jaguar é para ajudar a exportação inglesa de automóveis, que não é o que poderia ser, porque a mecânica dos carros é mais complicada do que a de outros países. Quase todo inglês tem olhos azuis. Já foram chamados de demônios de olhos azuis por muitos escuros colonizados. Morse gosta de Mozart, Callas, os poetas certos e, sendo inglês, é perdoável que admire alguns corais pátrios, música de igreja. John Thaw representa Morse. Para grande irritação dos fãs, Colin Dexter revelou que o primeiro nome de Morse, nunca antes enunciado, é Endeavour. Seu sargento, Lewis, é bem menos instruído do que o chefe, obediente, atento e alvo de comentários sarcásticos de Morse sobre seu misto de filistinismo e ignorância. Mas Lewis paga sempre a cerveja dos dois no botequim inglês. O ator é Ken Whateley. Desde que vi a primeira história, uma campainha tocou muito baixinho na minha memória. Os dois parecem com alguém da nossa infância. Em tempo, quem apareceu misteriosamente na minha memória. ‘‘O Gordo e o Magro’’. Stan Laurel e Oliver Hardy. Thaw é o gordo, sempre reclamando, Whateley é o magro, sempre mulher-de-malandro. Mas a série depende imensamente da química dos dois.

QUEM MATOU?
Há sempre um caso de Morse, na televisão americana. É sempre surpresa quando as personagens aparecem, de classe definida, ambíguas, sem beleza-vogue, ou feiúra de cartum, mais idosas que 30 anos, em suma, diferentes do fino trivial americano. Segue-se uma certa dormência, inevitável em thrillers, porque as personagens são estereótipos, mesmo quando bem-feitas, e não mudam de atitude interiormente, como nos dramas reais. O importante é sempre a trama, quem matou quem. Essa fórmula é um eterno problema para o escritor de thrillers, que quer ser artista. Só Simenon conseguiu plenamente. Me pergunto se as confusões ocasionais de Raymond Chandler, o melhor estilista de todos, não são uma tentativa semiconsciente de escapar da fórmula. Mas Morse vale hoje, em televisão, pelos filmes B de Hollywood da minha adolescência. Cinema hoje nos EUA é F & F. Luta & fufuque. Colin Dexter escreveu 11 livros. Todos foram ou estão sendo adaptados para a televisão. Que bom escrever numa língua universal e num país em que televisão não visa a platéias de 6 anos mentais.
MACONHA
Fede. Em algumas pessoas, dá um bode, um mal-estar enorme. Mas álcool também não cai bem em muita gente. O ‘‘Jornal de Medicina’’ da Nova Inglaterra publicou um editorial, semana passada, aprovando o uso de maconha para doentes com dor. Na Califórnia, maconha para paciente foi aprovada num plebiscito. Mas a resistência é grande. Em parte é de pessoas que consideram drogas maléficas e diabólicas, uma possessão do demônio em forma química. Na maior parte são as burocracias, imensas, de justiça e polícia, que recebem suas verbas enormes para combater o uso de drogas. Não combatem bem, para dizer o mínimo. Em qualquer esquina de cidade grande nos EUA, há um traficante provando a versatilidade da livre empresa.
Maconha fede. Só dá um torpor, leva-nos à introspecção. Não é uma droga sociável, como cocaína, em que o tomador trinca os dentes e fala pelos cotovelos. O duque de Windsor, ex-rei da Inglaterra, que abdicou do trono para se casar com uma comum, Wallis Simpson, no fim da vida estava com uma bronquite dos diabos. Foi ao médico, que lhe disse que parasse de fumar. O duque reclamou da perda do vício delicioso. O médico recomendou maconha. O duque disse que não podia a essa altura da vida virar maconheiro. Ibrahim Sued, de quem li essa história, aprovou o comportamento do duque.
Droga devia ser legalizada. Com os devidos controles para crianças, que, de resto, existem para álcool e cigarros. Não há vício de drogas. Há viciados. Conheço gente que não pode tomar droga porque não pára mais. Mas há muito mais pessoas que tomaram drogas de toda espécie, pararam, ou continuam vez por outra, e nada acontece com sua capacidade de funcionar. Maconha é das mais inofensivas.


SADOMASOQUISMO
Em ‘‘Suspeita’’, romance de Anthony Berkeley, dos anos 30, uma mulher rica e bem-nascida se apaixona por um playboy glamouroso, mas ordinário, que quer só seu dinheiro. Casam-se. Ele começa a envenená-la. Ela suspeita. Finalmente, percebe que vai morrer. Deixa-se matar, mas numa carta denuncia o marido, explicando que permitiu o crime porque o amava muito. O nome disso é masoquismo. O clássico de sadomasoquismo é ‘‘História de O’’, de Pauline Réage. Uma jovem, conhecida como O, se deixa torturar sexualmente para obedecer a seu amante, que diz amá-la tanto quanto ela a ele. O adora o sofrimento. Floresce como mulher. Soube-se há pouco tempo que Réage, que muita gente supunha ser pseudônimo de Jean Paulham, da academia francesa e admirador do maquês de Sade, era, na verdade, amante de Paulham. Quando ele começou a se desinteressar por ela, Réage, uma Xerezade masoquista, escreveu a ‘‘História de O’’ para diverti-lo.
Se se tem alguma experiência social, é fácil perceber que boa parte das relações afetivas entre as pessoas tem fortes componentes sadomasoquistas, em geral negadas pelos participantes da boca para fora.
INCESTO
Santo Tomás de Aquino escreveu que o amor entre irmão e irmã é tão delicioso que deve ser proibido a bem da nossa alma, que não deve ser escrava de paixões. Descendo vários degraus, no filme de Louis Malle ‘‘Souffle au Coeur’’ (‘‘Sopro no Coração’’), a mãe jovem, Lea Massari, tem uma relação sexual com o filho adolescente. Muito civilizadamente diz a ele que foi bom, mas nunca se repetirá e não deve mencionar a ligação a ninguém. Incesto é tabu imemorial. Deve ser muito mais frequente do que se imagina e simplesmente não declarado para não causar escândalo. Um exemplo mais espetacular é o de Edith Wharton, escritora célebre. Deixou nos seus papéis, impublicado, um relato de um pai fazendo sexo oral numa filha menor, ambos se deliciando. R. B. Lewis, seu biógrafo, publicou-o sem comentários.
PEDOFILIA
É pura especulação, mas deve haver mais sexo de adulto com crianças, que é consentido, que não é molestação. Falo de países civilizados. Nos não civilizados esse tipo de sexo é rotineiro. Civilização consiste em proibir tudo isso, legalmente. Se permitido, sobreviviria a anarquia instintiva que existe submersa em todos nós e nenhuma sociedade seria estável. Basta ver os tumultos incessantes que a legalização do aborto trouxe aos EUA, assim como movimentos pela legalização do homossexualismo, que mais e mais provocam ressentimento dos religiosos. Nos grandes centros americanos, o aborto já era legal antes da decisão da Corte Suprema tornando-o direito constitucional (1973). E homossexualismo, particular, sem a pretensão de criar uma sociedade uranista, é tolerado tranquilamente há decênios.


NOVA YORK POR AÍ
q ‘‘American Pastoral’’ é o novo livro de Philip Roth, não-ficção, sobre os anos 60, tão copiados e suspirados pela geração de hoje, que pouco sabe do assunto, a julgar pelas imitações que vejo.
q ‘‘Shabbath’s Theatre’’, o último romance de Roth, é literatura superior, mas difícil para o leitor que quer tudo empacotado em clichês, principalmente o que deve sentir. Todo o entretenimento e comunicação de massa é altamente simplificado e pasteurizado. É uma forma de totalitarismo cultural, que não é obrigado a ser consumido, ou seja, não tem o componente policial dos totalitarismos políticos, mas a maioria das pessoas consome e tem sua cabeça feita por esse troço.
q Roth precisa de um best seller. É muito divertido em pessoa e escreveu alguns artigos satíricos memoráveis no NYRB.
q Uma editora modesta de Nova York descobriu um inédito de Salinger, ou seja, uma novela esquecida. Vai publicá-la e lavar a égua. Vende tudo em meia hora. O último conto dele publicado no ‘‘New Yorker’’ (pré-Tina Brown, bem entendido) fez a revista desaparecer das bancas em minutos. ‘‘Um Dia Perfeito Para Peixe Banana’’ é uma obra-prima modernista. O que não é dito é o que é importante. Todo mundo seguiu Hemingway, cujo exemplo clássico é o conto ‘‘Assassinos’’. O suicídio de Seymour Glass, em ‘‘Um Dia Perfeito Para Peixe Banana’’, ilumina a obra, como a morte do Sueco em ‘‘Assassinos’’. Nenhuma explicação.
q Ouvindo Bach algumas horas se conclui que é sobre nada ou, melhor, é sobre música e sentimos um arrepio de horror pelo romantismo de Beethoven e Wagner, digamos. Mas, se vamos a Beethoven e Wagner, aos poucos eles nos persuadem a ouvi-los con amore, mas não fica esquecida a idéia de música sobre música de Bach.
q O grande modernismo é essencialmente alusivo e sua forma é seu conteúdo, auto-enclausurado. Doente? É magnífico, mas não é a guerra? Eliot acha que isso é fruto da dissociação entre intelecto e emoção que começou no século 17.
q Derek Jacobi, Amanda Root e Prunela Scales são atores excelentes. Harold Pinter é famoso como dramaturgo, mas é também um ator característico de primeira ordem. Ter toda essa gente junta numa peça, ‘‘Breaking the Cole’’, (‘‘Decifrando o Código’’), que, em inglês, dá um trocadilho com quebrar convenções, é um privilégio dos ingleses. Vi a peça no palco, em Londres, e, agora, está em TV. É sobre Alan Turing, um grande matemático, que se suicidou em 1954, em desespero. Era homossexual, e, se flagrado ou confesso, era crime passível de cadeia em 1954, na Inglaterra. Não foi preso porque Winston Churchill, primeiro-ministro, admirava seu trabalho em decifrar o código ‘‘Enigma dos Alemães’’, na 2ª Guerra. Mas ninguém está acima da lei na Inglaterra, desde a Carta Magna, de 1215. Turing foi obrigado a se tratar medicamente do homossexualismo. É uma improbabilidade, claro. Nos anos 50, foi considerado ‘‘risco de segurança’’ porque homossexuais comunistas em altos postos foram descobertos. Um golpe mortal no seu orgulho e honradez. Turing conceituou o computador. Não explicam como na peça. Matemático, Turing era seguidor de Bertrand Russell, mas admirava as especulações de Wittgenstein. Sugeriu colocar numa caixa, máquina, tudo que pudesse ser provado matematicamente. É o protótipo intelectual do computador. Era um gênio.
q Aspen, Colorado, estação de esqui no belo mas primitivo Estado do Colorado, foi moda até que Claudine Augier, atrizeca de ‘‘James Bond’’ e filmes parecidos, matou seu namorado, a rifle, quando o rapaz disse que ia abandoná-la. Era mais moço do que Claudine. Foi absolvida, todo mundo achando que é culpada de assassinato. O assunto trouxe tais lentes de aumento das revistas de escândalo a Aspen que o recanto quase faliu, por deserção dos habitués. Veio Hollywood. Saiu quando o Colorado, em referendo, negou direitos especiais a homossexuais. Mas é tão bonito que os turistas preencheram o vácuo. Brasileiros, 5 mil por semana. Somos hoje os maiores turistas do mundo, à parte tetracampeões de futebol. Se importássemos toneladas de neve, Dornelles imporia tarifa proibitiva?
q ‘‘Vim muito tarde para um mundo muito velho.’’ Alfred de Musset.

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