Nova York - Uma empresa no Brasil paga em média 60 impostos. Muitos empresários abrem uma caixa 2. A canga do Estado é tal que o jeito rentável é sair pela chamada economia informal, o ‘‘porforol’’. Herdamos o amor pela burocracia do francês e a desconfiança do português.Balofo


A obesidade improfícua do Estado, no Brasil, é refletida pelo INSS, que expropria o contribuinte em nome de uma pensão expurgada de quase todo o valor, que é o maior proprietário de imóveis do Brasil, que não pagam sequer sua manutenção. Lula mamou R$ 2 mil e 100 e picos. É pouco para uma vida compensatória em São Paulo e Rio. Mas é muito pela média ‘‘bem-sucedida’’ brasileira. Jesus...
Meritíssimo

O desembargador que deu o voto contra a liberação de ‘‘Estrela solitária’’ de Ruy Castro, na ditadura de facto que é o Brasil, disse que o autor representava Garrincha como homossexual. No livro, Garrincha teria feito quando criança troca-troca, o que, no Rio, se chamava meia. Brincadeiras sexuais de garotos. Ao ver a primeira mulher, Garrincha investiu como um touro miúra e não parou mais, o que inclui a paternidade de várias meninas, que, de resto, parece, processaram Ruy, ou foram levadas a isso por advogados de porta de xadrez. O livro foi liberado. Justiça, à carroça, como é de praxe na terra.

Nulidade

Rui Barbosa, muito gozado porque não largou o baralho na Conferência de Haya, 1907, tem, como sucessor na Corte Mundial de Justiça, José Rezek, do Supremo Tribunal Federal. Quem souber de alguma obra desse senhor favor me mandar que pago com ingressos para algum filme brasileiro.
Rezek, como ministro do Exterior, achava que era meio-dia às 2 da tarde. Estava sempre historicamente defasado. Conseguiu polpudos empregos públicos, apesar de ser motivo de piadas de farsa francesa, em Brasília, que eu, que raramente vou a esse vestíbulo do inferno, ouvi logo ao pisar lá.
Ruy era um intelectual, um polemista brilhante, ainda que sua influência na Constituição de 1891, em matéria de retardo mental (ele copiou a dos EUA pré-Guerra da Secessão, em 1861-1865), só seja superada pela de Ulisses Guimarães, na Constituição de 1988. É verdade que a Corte Mundial de Justiça raramente julga alguma coisa, e, quando julga, não é acatada. Pode-se dizer, portanto, que o nulo Rezek foi nomeado para uma nulidade, pela maioria dos votos desse bumbum-da-mãe-joana que é a ONU. É dinheiro que sai do bolso de quem paga impostos.

Flores para
los muertos

Sérgio Stalin-Motta mandou flores para Erundina. Deveria se inscrever no PT.

Rombo

O Banespa, dizem, será federalizado e privatizado. Um ano e meio atrás isso poderia ter sido feito. O custo ao contribuinte foi de US$ 40 bilhões, o maior rombo bancário da história desde que os holandeses inventaram o dinheiro nota.

Chantagens

Nos EUA, 61% das mulheres teriam sido molestadas por homens nas forças armadas. Não haveria sexo consentido, consensual? Sim, fica sugerido (apenas) no New York Times e no Washington Post. É proibido, claro, sexo entre soldados. Mas é possível impedi-lo entre gente jovem, no mesmo lugar, convivendo dia e noite? Mas nem essa pergunta é feita. Pede-se a punição dos homens. E o que dizer do valor de um soldado que se deixa estuprar?
Na Texaco, diretores fizeram algumas piadas sobre negros. Numa reunião particular a portas fechadas. Um alto funcionário descontente grampeou seus superiores. É invasão de privacidade, que viola a 6ª Emenda da Constituição dos EUA. Viola também, em última análise, a 1ª Emenda da mesma Constituição, que garante total liberdade de opinião.
A mídia condenou em crescendo a Texaco. A companhia resolveu pagar US$ 140 milhões aos queixosos. Tentou aplacar o Ministério da Justiça, que a processa criminalmente por violar os direitos civis de empregados negros. Jesse Jackson, que não tem emprego fixo, acha pouco. Quer que a Texaco se enlameie em desculpas e empregando negros. Era a tática de Joe McCarthy na perseguição aos suspeitos de comunismo, nos 1948-1955.

Matéria do ano
É Hongcong, que será entregue à China em 30 de junho de 1997. Hongcong foi cedida ao Império Britânico na chamada guerra do ópio, no século passado, guerra instigada pelos ingleses, numa China perdida no tempo e desunida. Os ingleses, como fizeram com seus colonizados na Irlanda e na Austrália, exploraram à beça Hongcong. Na Irlanda deixaram morrer pelo menos 1 milhão de irlandeses quando não tinham o que comer, porque a batata, seu alimento, tinha sido bichada em toda a colheita nacional. A Austrália foi uma colônia presidiária das mais brutais. A Irlanda, que foi proclamada livre em 1921, tinha sido subsidiada em toda a linha pelo governo inglês, a partir de 1900. A Austrália, antes de liberta, era, e é, uma das terras mais ricas do mundo. Agressão, crise de consciência e sublimação, i. e., civilização.
Há um bom mercado de passaportes, vistos, e de computadores, que, me dizem, trabalham 24 horas ao dia. Waal, drama não falta.

Festival...
que assola...

Variety Dedicou algumas páginas ao cinema e à televisão brasileiros. Verdades: bilheterias caindo à razão de 30%. Filmes paca, em produção. Pode ser que saia alguma coisa que preste. O fato é que a tal isenção de impostos, que chega a US$ 6 milhões capitalizou o cinema brasileiro. Ninguém, em geral, quer ver nada que não seja ‘‘Os Trapalhões’’, mas Fernando Henrique, da minha geração, parece nunca ter ouvido a piada de que o filme é uma droga e o diretor é um gênio. Nelson Hoineff contribui para Variety com um artigo sobre os festivais de cinema que assolam o Brasil. Estão discriminando contra Teresina, Piauí, que ainda não teve o seu. Nelson explica que os festivais são de interesse local e observa que são não competitivos. Ótimo, todo mundo apresentando sua prenda. Todo mundo fingindo que gostou.
Em arquitetura, vamos ver os novos apartamentos de novos e velhos cineastas florir. Onde? Imagino que a Vieira Souto, no Rio, já esteja locupletada.

Gorbachev

O enorme livro ‘‘Memórias de Gorbachev’’ (Doubleday, US$ 35) contando como a URSS ruiu. Ele insiste em que não foi a corrida armamentista propulsionada por Reagan que a URSS não poderia acompanhar. Guerra nas Estrelas, o projeto de Reagan de substituir mísseis por armas eletrônicas, o que valeu aos EUA um subsídio espetacular na alta tecnologia (Internet e derivados), certamente estava acima das possibilidades da URSS. Mas Gorbachev escreve que o sistema estava internamente se desintegrando, e daí a ‘‘glasnost que levaria à perestroika’’. Os argumentos de Gorbachev são parecidos com os de Trotski, em 1935, no livro ‘‘A Revolução Traída’’, em miúdos, a impossibilidade de uma autarquia econômica sobreviver no mundo de interpenetração industrial e comercial em que vivemos.
Gorbachev talvez seja lembrado quando figurinhas de hoje caírem na lixeira da história (Trotski, novamente).

Hubris

Nova York tem um tráfego melhor do que o de Londres, ainda que a buzinaria nova-iorquina enlouqueça a minoria sã. É mais fluente do que São Paulo ou Rio. O prefeito Rudolph Giuliani resolveu melhorá-lo. Mudou o acesso a Queens, uma das duas regiões mais populosas da cidade. A outra é Brooklyn. Manhattan, o centro de Nova York, é uma ilha cercada de pontes.
O que era ruim ficou pior. Literal gridlock, paralisia. Dava para você ler jornais e revistas, durante o marca-passo. Por três semanas Giuliani foi alvo de imprecações dignas de Sérgio Stalin-Mar-Motta. No início da semana passada ele fez o tráfego voltar ao que era antes. E tudo pareceu correr melhor.
O interessante nisso é o orgulho (hubris) do político moderno, figurinha de televisão, que está toda hora bafejado e bajulado por câmeras e, segundo a velha piada, começa a acreditar na própria propaganda. Giuliani é republicano, e, favorável, em tese, a menos governo. Mas não resistiu à tentação de passar à história resolvendo as dificuldades do trânsito. E hubris mesmo é que tenha levado três semanas para reverter a trapalhada que seus assessores e ‘‘especialistas’’ arranjaram. Giuliani é um possível candidato republicano em 1998, contra Hillary ou Al Gore. Mas perdeu pontos.

NOVA YORK POR AÍ
- Paulo Tarso, nosso embaixador em Washington, promoveu culturalmente o Brasil patrocinando a encenação da ópera de Carlos Gomes, ‘‘O Guarani’’. Werner Herzog dirigiu. Placido Domingo, que vi num vídeo, como Peri, parecia uma galinha carijó. É popular. Menos que Adolf Hitler foi. Sua voz me parece o ápice da vulgaridade. Eu pagaria qualquer preço para ouvir Tamagno ou Bjorling, ou, wagnerianamente, Melchior. O GUARANI tem algumas passagens melódicas. Mas é derivativa e tecnicamente simplória. Rubem Fonseca, em seu ‘‘Fantasma da Selva’’, um romance mais ou menos documental sobre Carlos Gomes e seu tempo, fala da displicência com que Carlos Gomes, financiado por Pedro II, foi estudar na Itália. Ambicioso, achava que estudar a sério, na Alemanha, como queria Pedro II, era demais. Pegou uma instrução de segunda na Itália. Verdi também começou como um primário musical. Mas tinha gênio. CG, não.
- Paulo Tarso fez o que pôde pela nossa cultura. Mas não pode tirar sangue de pedra. Nosso negócio é futebol, ou, em música, melhor que CG, é ‘‘Eu fui às touradas em Madri, paratibum, paratibum’’, etc.
- Morreu Alger Hiss, o ‘‘Dreyfus’’ americano, 1904-1996. Acusado por um cavalheiro mentalmente instável, chamado Whittaker Chambers, de espião comunista, negou. Naqueles tempos, fim da década dos 40, havia um anticomunismo violento neste país, porque a guerra fria começava forte. Hiss foi condenado por perjúrio a 5 anos de cadeia, depois de dois julgamentos, o primeiro em 1949, quando o júri não chegou a uma decisão, e em 1950. Passou o resto da vida tentando refutar as acusações de Chambers. Dezenas de livros pró e contra foram escritos sobre o caso. Chambers era mentiroso, homossexual, apesar de casado, e tipo porco. Escrevia bem. Foi durante muitos anos um dos principais editores de Time, quando a revista era uma força cultural e política nos EUA. Foi do PC, depois se tornou anticomunista. Buscou refúgio na religião. Uma história típica do nosso tempo. Pessoalmente, acho que Hiss era um simpa. Duvido que tenha sido espião. Foi homem do establishment. De público dele, temos, graças a Gabriel Kolko, uma menção de sua participação na Conferência de Yalta, 1945, em que, assessor de Franklin Roosevelt, tomou posição consistentemente anti-soviética.
- Minissérie sobre o Titanic, transatlântico que bateu em icebergs, em 1912, e afundou. Já vi dois filmes. Tudo razoável. Neste, George C. Scott é o comandante. Uma presença maior do que o navio... Na vida real, os homens, aristocratas como Astor, Guggenheim, et al., puseram as mulheres e os filhos em barcos de salvamento e foram ao bar, morrer tomando champanhe. Homens fariam isso hoje em dia?
- Restos a pagar: Claire Dolman, que faz o papel de Sandy Dennis no cinema, em ‘‘Quem tem medo de Virgínia Woolf’’, é uma lourinha convencionalmente bonita, pequena, mas uma promessa de atriz considerável. Perfeita para Julieta, de Shakespeare.
- ‘‘O Agente Secreto’’, filme com script e direção de Christopher Hampton, tirado do romance de Conrad ‘‘The Secret Agent’’, é meio chato, como cinema, mas fiel ao original. Bob Hoskins é Verloc, anarquista, terrorista e informante da polícia inglesa. Promove um atentado contra o observatório de Greenwich. Motivo: sacudir a tolerância e a quietude dos ingleses. Isso, em 1880. A Inglaterra deu asilo a gente como Marx e Herzen, mas nunca teve maiores problemas com terroristas, ao contrário de França, Alemanha e a fechadérrima Rússia Imperial. É precisamente por acreditarem em ‘‘quanto pior, melhor’’ que os anarquistas de Conrad agem. Conrad mostra o que há de insensato e sórdido nessa atitude. Não tinha paciência com poseurs. Melhor do que o romance só ‘‘Os Demônios’’, de Dostoiewski, que é uma patologia do terrorismo, enquanto Conrad não foge do realismo clássico. E Dostoiewski tinha exemplos vivos na Rússia em que se inspirar. Conrad, polonês de nascença, odiava a Rússia, e é um diplomata russo que usa Verloc no seu atentado. O cunhado de Verloc é usado pelo terrorista para executar a missão. Morre. A mulher de Verloc, no filme Patricia Arquette (bons seios, nenhum talento), mata o marido. Conrad não sabia criar personagens femininas. Ainda assim, o livro é fascinante, e Robin Williams, o intelectual anarquista, ‘‘contra o que aí estᒒ, sem que o ator seja sequer citado no elenco, é uma presença gélida no filme, como O Professor.
- ‘‘Deve-se silenciar sobre o que não se pode falar.’’ Wittgenstein & Conselheiro Acácio.

mockup